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O PRIMO BASÍLIO
O PRIMO BASÍLIO

a de Queiró.
O PRIMO BASÍLIO

CAPÍTULO I

Tinham dado onze horas no cuco da sala de jantar. Jorge fechou o volume de Luís Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha voltair de marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse:

– Tu não te vais vestir, Luísa?

– Logo.

Ficara sentada à mesa a ler o Diário de Notícias, no seu roupão de manhã de fazenda preta, bordado a sutache, com largos botões de madrepérola; o cabelo louro um pouco desmanchado, com um tom seco do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, de perfil bonito; a sua pele tinha a brancura tenra e láctea das louras; com o cotovelo encostado à mesa acariciava a orelha, e, no movimento lento e suave dos seus dedos, dois anéis de rubis miudinhos davam cintilações escarlates.

Tinham acabado de almoçar.

A sala esteirada, alegrava, com o seu teto de madeira pintado a branco, o seu papel claro de ramagens verdes. Era em julho, um domingo, fazia um grande calor; as duas janelas estavam cerradas, mas sentia-se fora o sol faiscar nas vidraças, escaldar a pedra da varanda; havia o silêncio recolhido e sonolento de manhã de missa; uma vaga quebreira amolentava, trazia desejos de sestas ou de sombras fofas debaixo de arvoredos, no campo, ao pé da água; nas duas gaiolas, entre as bambinelas de cretone azulado, os canárias dormiam; um zumbido monótono de moscas arrastava-se por cima da mesa, pousava no fundo das chávenas sobre o açúcar mal derretido, enchia toda a sala de um rumor dormente.

Jorge enrolou um cigarro, e muito repousado, muito fresco na sua camisa de chita, sem colete, o jaquetão de flanela azul aberto, os olhos no teto, pôs-se a pensar na sua jornada ao Alentejo. Era engenheiro de minas, no dia seguinte devia partir para Beja, para Évora, mais para o sul até São Domingos; e aquela jornada, em julho contrariava-o como uma interrupção, afligia-o como uma injustiça. Que maçada por um verão daqueles! Ir dias e dias sacudido pelo chouto de um cavalo de aluguel, por esses descampados do Alentejo que não acabam nunca, cobertos de um rastolho escuro, abafados num sol baço, onde os moscardos zumbem! Dormir nos montados, em quartos que cheiram a tijolo cozido, ouvindo em redor, na escuridão da noite tórrida, grunhir as varas dos porcos! A todo o momento sentir entrar pelas janelas, passar no ar o bafo quente das queimadas! E só!

Tinha estado até então no ministério, em comissão. Era a primeira vez que se separava de Luísa; e perdia-se já em saudades daquela salinha, que ele mesmo ajudara a forrar de papel novo nas vésperas do seu casamento, e onde, depois das felicidades da noite, os seus almoços se prolongavam em tão suaves preguiças!

E cofiando a barba curta e fina, muito frisada, os seus olhos iam-se demorando, com uma ternura, naqueles móveis íntimos, que eram do tempo da mamã: o velho guarda-louça envidraçado, com as pratas muito tratadas a gesso-cré, resplandecendo decorativamente; o velho painel a óleo, tão querido, que vira desde pequeno, onde apenas se percebiam, num fundo lascado, os tons avermelhados de cobre de um bojo de caçarola e os rosados desbotados de um molho de rabanetes! Defronte, na outra parede, era o retrato de seu pai: estava vestido à moda de 1830, tinha a fisionomia redonda, o olho luzidio, o beiço sensual; e sobre a sua casaca abotoada reluzia a comenda de Nossa Senhora da Conceição. Fora um antigo empregado do Ministério da Fazenda, muito divertido, grande tocador de flauta. Nunca o conhecera, mas a mamã afirmava-lhe que o retrato só lhe faltava falar. Vivera sempre naquela casa com sua mãe. Chamava-se Isaura: era uma senhora alta, de nariz afilado, muito apreensiva; bebia ao jantar água quente; e ao voltar um dia do lausperene da Graça, morrera de repente, sem um ai!

Fisicamente Jorge nunca se parecera com ela. Fora sempre robusto, de hábitos viris. Tinha os dentes admiráveis de seu pai, os seus ombros fortes.

De sua mãe herdara a placidez, o gênio manso. Quando era estudante na Politécnica, às oito horas recolhia-se, acendia o seu candeeiro de latão, abria os seus compêndios. Não frequentava botequins, nem fazia noitadas. Só duas vezes por semana, regularmente, ia ver uma rapariguita costureira, a Eufrásia, que vivia ao Borratem, e nos dias em que o Brasileiro, o seu homem, ia jogar o bóston ao clube, recebia Jorge com grandes cautelas e palavras muito exaltadas; era enjeitada, e no seu corpinho fino e magro havia sempre o cheiro relentado de uma pontinha de febre. Jorge achava-a romanesca, e censurava-lho. Ele nunca fora sentimental; os seus condiscípulos, que liam Alfred de Musset suspirando e desejavam ter amado Margarida Gautier, chamavam-lhe proseirão6, burguês; Jorge ria; não lhe faltava um botão nas camisas; era muito escarolado; admirava Luís Figuier, Bastiat e Castilho, tinha horror a dívidas, e sentia-se feliz.

Quando sua mãe morreu, porém, começou a achar-se só: era no inverno, e o seu quarto nas traseiras da casa, ao sul, um pouco desamparado, recebia as rajadas do vento na sua prolongação uivada e triste; sobretudo à noite, quando estava debruçado sobre o compêndio, os pés no capacho, vinham-lhe melancolias lânguidas; estirava os braços, com o peito cheio de um desejo; quereria enlaçar uma cinta fina e doce, ouvir na casa o frufru de um vestido! Decidiu casar. Conheceu Luísa, no verão, à noite, no Passeio. Apaixonou-se pelos seus cabelos louros, pela sua maneira de andar, pelos seus olhos castanhos muito grandes. No inverno seguinte foi despachado, e casou. Sebastião, o seu íntimo, o bom Sebastião, o Sebastiarrão, tinha dito, com uma oscilação grave da cabeça, esfregando vagarosamente as mãos:

– Casou no ar! Casou um bocado no ar!

Mas Luísa, a Luisinha, saiu muito boa dona de casa; tinha cuidados muito simpáticos nos seus arranjos; era asseada, alegre como um passarinho, como um passarinha amiga do ninho e das carícias do macho; e aquele serzinho louro e meigo veio dar à sua casa um encanto sério.

– É um anjinho cheio de dignidade! - dizia então Sebastião, o bom Sebastião, com a sua voz profunda de basso.

Estavam casados havia três anos. Que bom que tinha sido! Ele próprio melhorara; achava-se mais inteligente, mais alegre… E recordando aquela existência fácil e doce, soprava o fumo do charuto, a perna traçada, a alma dilatada, sentindo-se tão bem na vida como no seu jaquetão de flanela!

– Ah! - fez Luísa de repente, toda admirada para o jornal, sorrindo.

– Que é?

– É o primo Basílio que chega! - E leu alto, logo:

– “Deve chegar por estes dias a Lisboa, vindo de Bordéus, o Sr. Basílio de Brito, bem conhecido da nossa sociedade. Sua Excelência que, como é sabido, tinha partido para o Brasil, onde se diz reconstituíra a sua fortuna com um honrado trabalho, anda viajando pela Europa desde o começo do ano passado. A sua volta à capital é um verdadeiro júbilo para os amigos de Sua Excelência que são numerosos.”

– E são! - disse Luísa, muito convencida.

– Estimo, coitado! - fez Jorge, fumando, anediando a barba com a palma da mão. - E vem com fortuna, hem?

– Parece.

Olhou os anúncios, bebeu um gole de chá, levantou-se, foi abrir uma das portadas da janela.

– Oh! Jorge, que calor que lá vai fora, Santo Deus! - Batia as pálpebras sob a radiação da luz crua e branca.

A sala, nas traseiras da casa, dava para um terreno vago, cercado de um tabuado baixo, cheio de ervas altas e de uma vegetação de acaso; aqui, ali, naquela verdura crestada do verão, largas pedras faiscavam, batidas do sol perpendicular; e uma velha figueira brava, isolada no meio do terreno, estendia a sua grossa folhagem imóvel, que, na brancura da luz, tinha os tons escuros do bronze. Para além eram as traseiras de outras casas, com varandas, roupas secando em canas, muros brancos de quintais, árvores esguias. Uma vaga poeira embaciava, tornava espesso o ar luminoso.

Caem os pássaros! - disse ela cerrando a janela. - Olha tu pelo Alentejo, agora!

Veio encostar-se à voltaire de Jorge, passou-lhe lentamente a mão sobre o cabelo preto e anelado. Jorge olhou-a, triste já da separação; os dois primeiros botões do seu roupão estavam desapertados; via-se o começo do peito de uma brancura muito tenra, a rendinha da camisa; muito castamente Jorge abotoou-lhos.

– E os meus coletes brancos? - disse.

– Devem estar prontos.

Para se certificar chamou Juliana.

Houve um ruído domingueiro de saias engomadas. Juliana entrou, arranjando nervosamente o colar e o broche. Devia ter quarenta anos e era muitíssimo magra. As feições, miúdas, espremidas, tinham a amarelidão de tons baços das doenças de coração. Os olhos grandes, encovados, rolavam numa inquietação, numa curiosidade, raiados de sangue, entre pálpebras sempre debruadas de vermelho. Usava uma cuia de retrós imitando tranças, que lhe fazia a cabeça enorme. Tinha um tique nas asas do nariz. E o vestido chato sobre o peito, curto da roda, tufado pela goma das saias – mostrava um pé pequeno, bonito, muito apertado em botinas de duraque com ponteiras de verniz.

Os coletes não estavam prontos, disse com uma voz muito lisboeta; não tivera tempo de os meter em goma.

– Tanto lhe recomendei, Juliana! - disse Luísa. - Bem, vá. Veja como se arranja! Os coletes hão de ficar à noite na mala!

E apenas ela saiu:

– Estou a tomar ódio a esta criatura, Jorge!

Há dois meses que a tinha em casa e não se pudera acostumar à sua fealdade, aos seus trejeitos, à maneira aflautada de dizer chapiéu, tisoiras, de arrastar um pouco os rr, ao ruído dos seus tacões que tinham laminazinhas de metal; ao domingo, a cuia, o pretensioso do pé, as luvas de pelica preta arrepiavam-lhe os nervos.

– Que antipática!

Jorge ria:

– Coitada, é uma pobre de Cristo! - E depois que engomadeira admirável! No ministério examinavam com espanto os seus peitilhos! - O Julião diz bem: eu não ando engomado, ando esmaltado! Não é simpática, não, mas é asseada, é apropositada…

E levantando-se, com as mãos nos bolsos das suas largas calças de flanela:

– E, enfim, minha filha, a maneira como ela se portou na doença da tia Virgínia… Foi um anjo para ela! - Repetiu com solenidade: - De dia, de noite, foi um anjo para ela! Estamos4he em dívida, minha filha! - E começou a enrolar um cigarro, com a fisionomia muito séria.

Luísa, calada, fazia saltar com a pontinha da chinela a orla do roupão; e examinando fixamente as unhas, a testa um pouco franzida, pôs-se a dizer:

Mas enfim, se eu embirro com ela, não me importa, posso bem mandá-la embora.

Jorge parou, e raspando um fósforo na sola do sapato:

– Se eu consentir, minha rica… É que é uma questão de gratidão, para mim!

Ficaram calados. O cuco cantou meio-dia.

– Bem, vou à vida – disse Jorge. Chegou-se ao pé dela, tomou-lhe a cabeça entre as mãos.

– Viborazinha! - murmurou, fitando-a muito meigamente.

Ela riu. Ergueu para ele os seus magníficos olhos castanhos, luminosos e meigos. Jorge enterneceu-se, pôs-lhe sobre as pálpebras dois beijos chilreados. E torcendo-lhe o beicinho, com uma meiguice:

– Queres alguma coisa de fora, amor?

– Que não viesse muito tarde.

Ia deixar uns bilhetes, ia numa tipoia, era um pulo…

E saiu, feliz, cantando com a sua boa voz de barítono:

Dia dei oro,

Dei mondo signor

La la ra, la ra

Luísa espreguiçou-se. Que seca ter de se ir vestir! Desejaria estar numa banheira de mármore cor-de-rosa, em água tépida, perfumada, e adormecer! O numa rede de seda, com as janelas cerradas, embalar-se, ouvindo música! Sacudiu a chinelinha; esteve a olhar muito amorosamente o seu pé pequeno, branco como leite, com veias azuis, pensando numa infinidade de coisinhas: - em meias de seda que queria comprar, no farnel que faria a Jorge para a jornada, em três guardanapos que a lavadeira perdera…

Tornou a espreguiçar-se. E saltando na ponta do pé descalço, foi buscar ao aparador por detrás de uma compota um livro um pouco enxovalhado, veio estender-se na voltaire, quase deitada, e, com o gesto acariciador e amoroso dos dedos sobre a orelha, começou a ler, toda interessada.

Era a Dama das camélias. Lia muitos romances; tinha uma assinatura, na Baixa, ao mês. Em solteira, aos dezoito anos entusiasmara-se por Walter Scott e pela Escócia; desejara então viver num daqueles castelos escoceses, que têm sobre as ogivas os brasões do clã, mobilados com arcas góticas e troféus de armas, forrados de largas tapeçarias, onde estão bordadas legendas heroicas, que o vento do lago agita e faz viver; e amara Ervandalo, Morton e lvanhoé, ternos e graves, tendo sobre o gorro a pena de águia, presa ao lado pelo cardo de Escócia de esmeraldas e diamantes. Mas agora era o moderno que a cativava: Paris, as suas mobílias, as suas sentimentalidades. Ria-se dos trovadores, exaltara-se por Mr. de Camors; e os homens ideais apareciam-lhe de gravata branca, nas ombreiras das salas de baile, com um magnetismo no olhar, devorados de paixão, tendo palavras sublimes. Havia uma semana que se interessava por Margarida Gautier; o seu amor infeliz dava-lhe uma melancolia enevoada; via-a alta e magra, com o seu longo xale de caxemira, os olhos negros cheios de avidez da paixão e dos ardores da tísica; nos nomes mesmo do livro – Júlia Duprat, Armando, Prudência, achava o sabor poético de uma vida intensamente amorosa; e todo aquele destino se agitava, como numa música triste, com ceias, noites delirantes, aflições de dinheiro, e dias de melancolia no fundo de um cupê quando nas avenidas do Bois, sob um céu pardo e elegante, silenciosamente caem as primeiras neves.

– Até logo, Zizi – gritou Jorge do corredor, ao sair.

– Olha!

Ele veio com a bengala debaixo do braço, apertando as luvas.

Não apareças muito tarde, hem? Escuta, traze-me uns bolos do Baltresqui para a D. Felicidade. Ouve. Vê se passas pela M.me François que me mande o chapéu. Escuta.

– Que mais, bom Deus?

– Ah! Não! Era para ires pelo livreiro que me mande mais romances… Mas está fechado!

Foi com duas lágrimas a tremer-lhe nas pálpebras que acabou as páginas da Dama das camélias. E estendida na voltaire, com o livro caído no regaço, fazendo recuar a película das unhas, pôs-se a cantar baixinho, com ternura, a ária final da Traviata:

Addio, dei passato…

Lembrou-lhe de repente a notícia do jornal, a chegada do primo Basílio…

Um sorriso vagaroso dilatou-lhe os beicinhos vermelhos e cheios. - Fora o seu primeiro namoro, o primo Basílio! Tinha ela então dezoito anos! Ninguém o sabia, nem Jorge, nem Sebastião…

De resto fora uma criancice; ela mesma, às vezes, ria, recordando as pieguices ternas de então, certas lágrimas exageradas! Devia estar mudado o primo Basílio. Lembrava-se bem dele – alto, delgado, um ar fidalgo, o pequenino bigode preto levantado, o olhar atrevido, e um jeito de meter as mãos nos bolsos das calças fazendo tilintar o dinheiro e as chaves! Aquilo começara em Sintra, por grandes partidas de bilhar muito alegres, na quinta do tio João de Brito, em Colares. Basílio tinha chegado então da Inglaterra: vinha muito bife, usava gravatas escarlates passadas num anel de ouro, fatos de flanela branca, espantava Sintra! Era na sala de baixo pintada a oca, que tinha um ar antigo e morgado; uma grande porta envidraçada abria para o jardim, sobre três degraus de pedra. Em roda do repuxo havia romãzeiras, onde ele apanhava flores escarlates. A folhagem verde escura e polida dos arbustos de camélias fazia ruazinhas sombrias; pedaços de sol faiscavam, tremiam na água do tanque; duas rolas, numa gaiola de vime, arrulhavam docemente; - e, no silêncio aldeão da quinta, o ruído seco das bolas de bilhar tinha um tom aristocrático.

Depois, vieram todos os episódios clássicos dos amores lisboetas passados em Sintra: os passeios em Sitiais ao luar, devagar, sobre a relva pálida, com grandes descansos calados no Penedo da Saudade, vendo o vale, as areias ao longe, cheias de uma luz saudosa, idealizadora e branca; as sestas quentes, nas sombras da Penha Verde, ouvindo o rumor fresco e gotejante das águas que vão de pedra em pedra; as tardes na várzea de Colares, remando num velho bote, sobre a água escura da sombra dos freixos – e que risadas quando iam encalhar nas ervagens altas, e o seu chapéu de palha se prendia aos ramos baixos dos choupos!

Sempre gostara muito de Sintra! Logo ao entrar os arvoredos escuros e murmurosos do Ramalhão lhe davam uma melancolia feliz!

Tinham muita liberdade, ela e o primo Basílio. A mamã, coitadinha, toda cismática, com reumatismo, egoísta, deixava-os, sorria, dormitava; Basílio era rico, então; chamava-lhe tia Jojó, trazia-lhe cartuchos de doce…

Veio o inverno, e aquele amor foi-se abrigar na velha sala forrada de papel sangue-de-boi da Rua da Madalena. Que bons serões ali! A mamã ressonava baixo com os pés embrulhados numa manta, o volume da Biblioteca das Damas caído sobre o regaço. E eles, muito chegados, muito felizes no sofá! O sofá! Quantas recordações! Era estreito e baixo, estofado de casimira clara, com uma tira ao centro, bordada por ela, amores-perfeitos amarelos e roxos sobre um fundo negro. Um dia veio o final. João de Brito, que fazia parte da firma Bastos & Brito, faliu. A casa de Almada, a quinta de Colares foram vendidas.

Basílio estava pobre: partiu para o Brasil. Que saudades! Passou os primeiros dias sentada no sofá querido, soluçando baixo, com a fotografia dele entre as mãos. Vieram então os sobressaltos das cartas esperadas, os recados impacientes ao escritório da Companhia, quando os paquetes tardavam…

Passou um ano. Uma manhã, depois de um grande silêncio de Basílio, recebeu da Bahia uma longa carta, que começava: “Tenho pensado muito e entendo que devemos considerar a nossa inclinação como uma criancice…”

Desmaiou logo. Basílio afetava muita dor em duas laudas cheias de explicações: que estava ainda pobre; que teria de lutar muito antes de ter para dois; o clima era horrível; não a queria sacrificar, pobre anjo; chamava-lhe “minha pomba” e assinava o seu nome todo, com uma firma complicada.

Viveu triste durante meses. Era no inverno; e sentada à janela, por dentro dos vidros, com o seu bordado de lã, julgava-se desiludida, pensava no convento, seguindo com um olhar melancólico os guarda-chuvas gotejantes que passavam sob as cordas de água; ou sentando-se ao piano, ao anoitecer, cantava Soares de Passos:

– Ai! Adeus, acabaram-se os dias
Que ditoso vivi a teu lado…

Ou o final da Traviata, ou o Fado do Vimioso, muito triste, que ele lhe ensinara.

Mas então o catarro da mamã agravou-se; vieram os sustos, as noites veladas. Na convalescença foram para Belas; ligou-se ali muito com as Cardosos, duas irmãs magras, estouvadas e esguias, sempre coladas uma à outra, com um passinho trotado e seco, como um casal de galgos. O que riam, Jesus! O que falavam dos homens! Um tenente de artilharia tinha-se apaixonado por ela. Era vesgo, mandou-lhe uns versos, “Ao lírio de Belas”:

Sobre a encosta da colina
Cresce o lírio virginal…

Foi um tempo muito alegre, cheio de consolações.

Quando voltaram no inverno tinha engordado, trazia boas cores. E um dia, tendo achado numa gaveta uma fotografia que logo ao princípio Basílio lhe mandara da Bahia, de calça branca e chapéu panamá, fitou-a, encolhendo os ombros:

– E o que eu me ralei por esta figura! Que tola!

Tinham passado três anos quando conheceu Jorge. Ao princípio não lhe agradou. Não gostava dos homens barbados; depois percebeu que era a primeira barba, fina, rente, muito macia decerto; começou a admirar os seus olhos, a sua frescura. E sem o amar sentia ao pé dele como uma fraqueza, uma dependência e uma quebreira, uma vontade de adormecer encostada ao seu ombro, e de ficar assim muitos anos, confortável, sem receio de nada. Que sensação quando ele lhe disse: “Vamos casar, hem!” Viu de repente o rosto barbado, com os olhos muito luzidios, sobre o mesmo travesseiro, ao pé do seu! Fez-se escarlate, Jorge tinha-lhe tomado a mão; ela sentia o calor daquela palma larga penetrá-la, tomar posse dela; disse que sim; ficou como idiota, e sentia debaixo do vestido de merino dilatarem-se docemente os seus seios. Estava noiva, enfim! Que alegria, que descanso para a mamã!

Casaram às oito horas, numa manhã de nevoeiro. Foi necessário acender luz para lhe pôr a coroa e o véu de tule. Todo aquele dia lhe aparecia como enevoado, sem contornos, à maneira de um sonho antigo – onde destacava a cara balofa e amarelada do padre, e a figura medonha de uma velha, que estendia a mão adunca, com uma sofreguidão colérica, empurrando, rogando pragas, quando, à porta da igreja, Jorge comovido distribuía patacos. Os sapatos de cetim apertavam-na. Sentia-se enjoada da madrugada, fora necessário fazer-lhe chá-verde muito forte. E tão cansada à noite naquela casa nova, depois de desfazer os seus baús! Quando Jorge apagou a vela, com um sopro trêmulo, os luminosos faiscavam, corriam-lhe diante dos olhos.

Mas era o seu marido, era novo, era forte, era alegre; pôs-se a adorá-lo. Tinha uma curiosidade constante da sua pessoa e das suas coisas, mexia-lhe no cabelo, na roupa, nas pistolas, nos papéis. Olhava muito para os maridos das outras, comparava, tinha orgulho nele. Jorge envolvia-a em delicadezas de amante, ajoelhava-se aos seus pés, era muito dengueiro. E sempre de bom humor, com muita graça, mas nas coisas da sua profissão ou do seu brio tinha severidades exageradas, e punha então nas palavras, nos modos uma solenidade carrancuda. Uma amiga dela, romanesca, que via em tudo dramas, tinha-lhe dito: "É homem para te dar uma punhalada". Ela que não conhecia ainda então o temperamento plácido de Jorge, acreditou, e isso mesmo criou uma exaltação no seu amor por ele. Era o seu tudo – a sua força, o seu fim, o seu destino, a sua religião, o seu homem! Pôs-se a pensar, o que teria sucedido se tivesse casado com o primo Basílio. Que desgraça, hem! Onde estaria? Perdia-se em suposições de outros destinos, que se desenrolavam, como panos de teatro: via-se no Brasil, entre coqueiros, embalada numa rede, cercada de negrinhos, vendo voar papagaios!

– Está ali a senhora D. Leopoldina – veio dizer Juliana.

Luísa ergueu-se surpreendida:

– Hem? A senhora D. Leopoldina? Para que mandou entrar?

Pôs-se a abotoar à pressa o roupão. Jesus! Olha se Jorge soubesse! Ele que lhe tinha dito tantas vezes que a não queria em casa! Mas se já estava na sala, agora, coitada!

– Está bom, diga-lhe que já vou.

Era a sua íntima amiga. Tinham sido vizinhas, em solteiras, na Rua da Madalena, e estudado no mesmo colégio, à Patriarcal, na Rita Pessoa, a coxa. Leopoldina era a filha única do Visconde de Quebrais, o devasso, o caquético, que fora pajem de D. Miguel23. Tinha feito um casamento infeliz com um João Noronha, empregado da alfândega. Chamavam-lhe a “Quebrais”; chamavam-lhe também a “Pão e Queijo”.

Sabia-se que tinha amantes, dizia-se que tinha vícios. Jorge odiava-a. E dissera muitas vezes a Luísa: “Tudo, menos a Leopoldina!”

Leopoldina tinha então vinte e sete anos. Não era alta, mas passava por ser a mulher mais bem-feita de Lisboa. Usava sempre os vestidos muito colados, com uma justeza que acusava, modelava o corpo como uma pelica, sem largueza de roda, apanhados atrás. Dizia-se dela com os olhos em alvo: “é uma estátua, é uma Vênus!” Tinha ombros de modelo, de uma redondeza descaída e cheia; sentia-se nos seus seios, mesmo através do corpete, o desenho rijo e harmonioso de duas belas metades de limão; a linha dos quadris rica e firme, certos quebrados vibrantes de cintura faziam voltar os olhares acesos dos homens. A cara era um pouco grosseira; as asas do nariz tinham uma dilatação carnuda; na pele, muito fina, de um trigueiro quente e corado, havia sinaizinhos desvanecidos de antigas bexigas. A sua beleza eram os olhos, de uma negrura intensa, afogados num fluido, muito quebrados, com grandes pestanas.

Luísa veio para ela com os braços abertos, beijaram-se muito. E Leopoldina, sentada no sofá, enrolando devagarinho a seda clara do guarda-sol, começou a queixar-se: tinha estado adoentada, muito secada, com tonturas. O calor matava-a. E que tinha ela feito? Achava-a mais gorda.

Como era um pouco curta de vista, para se afirmar piscava ligeiramente os olhos, descerrando os beiços gordinhos, de um vermelho cálido.

– A felicidade dá tudo, até boas cores! - disse, sorrindo.

O que a trazia era perguntar-lhe a morada da francesa que lhe fazia os chapéus. E há tanto tempo que a não via, já tinha saudades também!

– Mas não imaginas! Que calor! Venho morta.

E deixou-se cair sobre a almofada do sofá, encalmada, com um sorriso aberto, mostrando os dentes brancos e grandes.

Luísa disse-lhe a morada da francesa, gabou-lha: era barateira e tinha bom gosto. Como a sala estava escura foi entreabrir um pouco as portadas da janela. Os estofos das cadeiras e as bambinelas eram de repes verde-escuro; o papel e o tapete com desenhos de ramagens tinham o mesmo tom, e naquela decoração sombria destacavam muito – as molduras douradas e pesadas de duas gravuras (a Medeia de Delacroix e a Mártir de Delaroche), as encadernações escarlates de dois vastos volumes do Dante de G. Doré e entre as janelas o oval de um espelho onde se refletia um napolitano de biscuit que, na consola, dançava a tarantela.

Por cima do sofá pendia o retrato da mãe de Jorge, a óleo. Estava sentada, vestida ricamente de preto, direita no seu corpete espartilhado e seco: uma das mãos, de um lívido morto, pousava nos joelhos sobrecarregada de anéis; a outra perdia-se entre as rendas muito trabalhadas de um mantelete de cetim; e aquela figura longa, macilenta, com grandes olhos carregados de negro, destacava sobre uma cortina escarlate, corrida em pregas copiosamente quebradas, deixando ver para além céus azulados e redondezas de arvoredos.

– E teu marido? - perguntou Luísa, vindo sentar-se muito junto de Leopoldina.

– Como sempre. Pouco divertido – respondeu, rindo. E, com um ar sério, a testa um pouco franzida: - Sabes que acabei com o Mendonça?

Luísa fez-se ligeiramente vermelha.

– Sim?

Leopoldina deu logo detalhes.

Era muito indiscreta, falava muito de si, das suas sensações, da sua alcova, das suas contas. Nunca tivera segredos para Luísa; e na sua necessidade de fazer confidências, de gozar a admiração dela, descrevia-lhe os seus amantes, as opiniões deles, as maneiras de amar, os tiques, a roupa, com grandes exagerações! Aquilo era sempre muito picante, cochichado ao canto de um sofá, entre risinhos; Luísa costumava escutar, toda interessada, as maçãs do rosto um pouco envergonhadas, pasmada, saboreando, com um arzinho beato. Achava tão curioso!

– Desta vez é que bem posso dizer que me enganei, minha rica filha! - exclamou Leopoldina erguendo os olhos desoladamente.

Luísa riu.

– Tu enganas-te quase sempre!

Era verdade! Era infeliz!

– Que queres tu? De cada vez imagino que é uma paixão, e de cada vez me sai uma maçada!

E picando o tapete com a ponta da sombrinha:

– Mas se um dia acerto!

– Vê se acertas – disse Luísa. - Já é tempo!

Às vezes na sua consciência achava Leopoldina “indecente”; mas tinha um fraco por ela: sempre admirara muito a beleza do seu corpo, que quase lhe inspirava uma atração física. Depois desculpava-a: era tão infeliz com o marido! Ia atrás da paixão, coitada! E aquela grande palavra, faiscante e misteriosa, de onde a felicidade escorre como a água de uma taça muito cheia, satisfazia Luísa como uma justificação suficiente: quase lhe parecia uma heroína; e olhava-a com espanto como se consideram os que chegam de alguma viagem maravilhosa e difícil, de episódios excitantes. Só não gostava de certo cheiro de tabaco misturado de feno, que trazia sempre nos vestidos. Leopoldina fumava.

– E que fez ele, o Mendonça?

Leopoldina encolheu os ombros, com um grande tédio:

– Escreveu-me uma carta muito tola, que afinal bem considerado era melhor que acabasse tudo, porque não estava para se meter em camisa de onze varas! Que imbecil! Até devo ter aqui a carta.

Procurou na algibeira do vestido: tirou o lenço, uma carteirinha, chaves, uma caixinha de pó de arroz; mas encontrou apenas um programa do Price.

Falou então do circo. - Uma sensaboria. O melhor era um rapaz que trabalhava no trapézio. Lindo rapaz, bem-feito, uma perfeição!

E de repente:

– Então teu primo Basílio chega?

– Assim li hoje no Diário de Notícias. Fiquei pasmada!

– Ah! Outra coisa que te queria perguntar antes que me esqueça. Com que guarneceste tu aquele teu vestido de xadrezinho azul? Vou mandar fazer um assim.

Tinha-o guarnecido de azul também, um azul mais escuro.

– Vem ver. Vem cá dentro.

Entraram no quarto. Luísa foi descerrar a janela, abrir o guarda-vestidos. Era um quarto pequeno, muito fresco, com cretones de um azul pálido. Tinha um tapete barato, de fundo branco, com desenhos azulados. O toucador, alto, estava entre as duas janelas, sob um dossel de renda grossa, muito ornado de frascos facetados. Entre as bambinelas, em mesas redondas de pé de galo, plantas espessas, begônias, macomas, dobravam decorativamente a sua folhagem rica e forte, em vasos de barro vermelho vidrado.

Aqueles arranjos confortáveis lembraram decerto a Leopoldina felicidades tranquilas. Pôs-se a dizer devagar, olhando em roda:

– E tu, sempre muito apaixonada por teu marido, hem? Fazes bem, filha, tu é que fazes bem!

Foi defronte do toucador aplicar pó de arroz no pescoço, nas faces:

– Tu é que fazes bem! - repetia. - Mas vá lá uma mulher prender-se a um homem como o meu!

Sentou-se na causeuse com um ar muito abandonado; vieram as queixas habituais sobre seu marido: era tão grosseiro! Era tão egoísta!

– Acreditarás que há tempos para cá, se não estou em casa às quatro horas, não espera, põe-se à mesa, janta, deixa-me os restos! E depois desleixado, enxovalhado, sempre a cuspir nas esteiras… O quarto dele – nós temos dois quartos, como tu sabes – é um chiqueiro!

Luísa disse com severidade:

– Que horror! A culpa também é tua.

– Minha! - e endireitou-se, luziam-lhe os olhos, mais largos, mais negros.

– Não me faltava mais nada senão ocupar-me do quarto do homem!

Ah! Era muito desgraçada, era a mulher mais desgraçada que havia no mundo!

– Nem ciúmes tem, o bruto!

Mas Juliana entrou, tossiu, e arranjando ainda o colar e o broche:

– A senhora sempre quer que engome os coletes todos?

– Todos, já lhe disse. Hão de ficar à noite na mala antes de se ir deitar.

– Que mala? Quem parte? - perguntou Leopoldina.

– O Jorge. Vai às minas, ao Alentejo.

– Então estás só, posso vir ver-te! Ainda bem!

E sentou-se logo ao pé dela, com um olhar que se fizera doce.

– É que tenho tanto que contar! Se tu soubesses, filha!

– O quê? Outra paixão? - fez Luísa rindo.

A face de Leopoldina tornou-se grave.

Não era para rir. Estava de todo! Era por isso até que tinha vindo. Sentira-se tão só em casa, tão nervosa! - Vou até Luísa, vou palrar um bocado!

E com a Voz mais baixa, quase solene:

– Desta vez é sério, Luísa! - Deu os detalhes. Era um rapaz alto, louro, lindo! E que talento! E poeta! - Dizia a palavra com devoção, prolongando o som das sílabas. - E poeta!

Desapertou devagar dois botões do corpete, tirou do seio um papel dobrado. Eram versos.

E muito chegada para Luísa, com as narinas dilatadas pela delícia da sensação, leu baixo, com orgulho, com pompa:

- “A ti

Era uma elegia. O rapaz contava, em quadras, as longas contemplações em que a via a ela, Leopoldina, “visão radiosa que deslizas leve”, nas águas dormentes, nas vermelhidões do ocaso, na brancura das espumas. Era uma composição delambida, de um sentimentalismo reles, com um ar tísico, muito lisboeta, cheia de versos errados. E, terminando, dizia-lhe que não era “nos esplendores das salas” ou nos “bailes febricitantes” que gostava de a ver; era ali, naqueles rochedos,

Onde todos os dias ao sol posto.
Eu vejo adormecer o mar gigante.

– Que bonito, hem!

Ficaram caladas, com uma comoçãozinha.

Leopoldina, com os olhos perturbados, repetia a data, amorosamente:

– Farol da Guia, 5 de junho!

Mas o relógio do quarto deu quatro horas. Leopoldina ergueu-se logo, atarantada, meteu o poema no seio.

Tinha de se ir já! Fazia-se tarde, senão o outro, punha-se a mesa. Tinha um ruivo assado para o jantar. E peixe frio era a coisa mais estúpida!

Adeus. Até breve, não? - E agora que Jorge ia para fora, havia de vir muito.- Adeus. Então a francesa, Rua do Ouro, por cima do estanque?

Luísa foi com ela até ao patamar. Leopoldina já no fundo da escada ainda parou gritou:

– Sempre te parece que guarneça o vestido de azul, hem?

Luísa debruçou-se sobre o corrimão:

– Eu assim fiz, é o melhor…

– Adeus! Rua do Ouro, por cima do estanque?

– Sim. Rua do Ouro. Adeus. - E com um gritinho: - Porta à direita. M.me François.

Jorge voltou às cinco horas, e logo da porta do quarto, pondo a bengala a um canto:

– Já sei que tiveste cá uma visita.

Luísa voltou-se, um pouco corada. Estava diante do toucador já penteada, com um vestido de linho branco, guarnecido de rendas

Era verdade, tinha vindo a Leopoldina. Juliana mandara-a entrar… Ficara mais contrariada! Era por causa da adresse da francesa dos chapéus. Tinha-se demorado dez minutos. - Quem te disse?

– Foi a Juliana; que a senhora D. Leopoldina tinha estado toda a tarde.

– Toda a tarde! Que tolice! Esteve dez minutos, se tanto!

Jorge tirava as luvas, calado. Chegou-se à janela, pôs-se a sacudir as duras folhas de uma begônia malhada de um vermelho doente, com uma baba prateada. Assobiava baixo; e parecia todo ocupado em conchegar um botão de amarilis aninhado entre a sua folhagem luzidia, como um pequenino coração assustado.

Luísa ia passando o seu medalhão de ouro numa longa fita de veludo preto, tinha uma tremura nas mãos, estava vermelha.

– O calor tem-lhes feito mal… - disse.

Jorge não respondeu. Assobiou mais alto, foi à outra janela, bateu com os dedos nas folhas elásticas de uma macoma de tons verdes e sanguíneos, e, alargando impacientemente o colarinho como um homem sufocado:

– Ouve lá, é necessário que deixes por uma vez de receber essa criatura. É necessário acabar por uma vez!

Luísa fez-se escarlate.

– É por causa de ti! É por causa dos vizinhos! É por causa da decência!

– Mas foi a Juliana… - balbuciou Luísa.

– Mandasse-a sair outra vez. Que estavas fora! Que estavas na China! Que estavas doente!

Parou, com um tom desconsolado, abrindo os braços:

– Minha rica filha, é que todo o mundo a conhece. É a Quebrais! É a Pão e Queijo! É uma vergonha!

Citava-lhe os seus amantes, exasperado: o Carlos Viegas, o magro, de bigode caído, que escrevia comédias para o Ginásio! O Santos Madeira, o picado das bexigas, com uma gaforinha! O Melchior Vadio, um gingão desossado, com um olhar de carneiro morto, sempre a fumar numa enorme boquilha! O Pedro Câmara, o bonito! O Mendonça dos calos! Tutti quanti!

E encolhendo os ombros, exasperado:

– Como se eu não percebesse que ela esteve aqui! Só pelo cheiro! Este horrível cheiro de feno! Vocês foram criadas juntas, etc.; tudo isso é muito bom. Hás de desculpar, mas se a encontro na escada, corro-a! Corro-a!

Parou um momento, e comovido:

– Ora, vamos, Luísa, confessa. Tenho ou não razão?

Luísa punha os brincos, ao espelho, atarantada:

– Tens – disse.

– Ah! Bem!

E saiu, furioso.

Luísa ficou imóvel. Uma lagrimazinha redonda, clara, rolava-lhe pela asa do nariz Assoou-se muito doloridamente. Aquela Juliana! Aquela bisbilhoteira! De má! Para fazer cizânia!

Veio-lhe então uma cólera. Foi ao quarto dos engomados, atirou com a porta:

– Para que foi você dizer quem esteve ou quem deixou de estar?

Juliana, muito surpreendida, pousou o ferro:

– Pensei que não era segredo, minha senhora.

– Está claro que não! Tola! Quem lhe diz que era segredo? E para que mandou entrar? Não lhe tenho dito muitas vezes que não recebo a senhora D. Leopoldina?

– A senhora nunca me disse nada – replicou, toda ofendida, cheia de verdade.

– Mente! Cale-se!

Voltou-lhe as costas; veio para o quarto, muito nervosa, foi encostar-se à vidraça.

O sol desaparecera; na rua estreita havia uma sombra igual, de tarde sem vento; pelas casas, de uma edificação velha, escuras estavam abertas as varandas onde em vasos vermelhos se mirrava alguma velha planta miserável, manjericão ou cravo; ouvia-se, no teclado melancólico de um piano, a Oração de uma virgem, tocada por alguma menina, no sentimentalismo vadio do domingo; e na sua janela, defronte, as quatro filhas do Teixeira Azevedo, magrinhas, com os cabelos muito riçados, as olheiras pisadas, passavam a sua tarde de dia santo, olhando para a rua, para o ar, para as janelas vizinhas, cochichando se viam passar um homem – ou debruçadas, com uma atenção idiota, faziam pingar saliva sobre as pedras da calçada.

Jorge tinha razão, coitado! Pensava Luísa. Mas, também, que podia ela fazer? Já não ia à casa de Leopoldina, tirara o seu retrato do álbum da sala, vira-se obrigada a confessar-lhe a repugnância de Jorge, tinham chorado ambas, até! Coitada! Só a recebia de longe a longe, uma raridade, um momento! E enfim, depois de ela estar na sala, não a havia de ir empurrar pela escada abaixo!

Um homem grosso, de pernas tortas, curvado sob um realejo, apareceu então ao alto da rua; as suas barbas pretas tinham um aspecto feroz; parou, pôs-se a voltear a manivela, levantando em redor, para as janelas, um sorriso triste de dentes brancos e a “Casta Diva”, com uma sonoridade metálica e seca, muito tremida espalhou-se pela rua.

Gertrudes, a criada e a concubina do doutor de Matemática, veio encostar logo aos caixilhos estreitos da janela a sua vasta face trigueira de quarentona farta e estabelecida; adiante, na sacada aberta de um segundo andar, debruçou-se a figura do Cunha Rosado, magro e chupado, com um boné de borla, o aspecto desconsolado do doente de intestinos, conchegando com as mãos transparentes o robe de chambre ao ventre. Outras faces enfastiadas mostraram-se entre as bambinelas de cassa.

Na rua, a estanqueira chegou-se à porta, vestida de luto, estendendo o seu carão viúvo, os braços cruzados sobre o xale tingido de preto, esguia nas longas saias escoadas. Da loja, por baixo da Casa Azevedo, veio a carvoeira, enorme de gravidez bestial, o cabelo esguedelhado em repas secas, a cara oleosa e enfarruscada, com três pequenos meio nus, quase negros, chorões e hirsutos, que se lhe penduravam da saia de chita. E o Paula, com loja de trastes velhos, adiantou-se até ao meio da rua; a pala de verniz do seu boné de pano preto nunca se erguia de cima dos olhos; escondia sempre as mãos, como para ser mais reservado, por trás das costas, debaixo das abas do seu casaco de cotim branco; o calcanhar sujo da meia saía-lhe para fora da chinela bordada a miçanga; e fazia roncar o seu pigarro crônico de um modo despeitado. Detestava os reis e os padres. O estado das coisas públicas enfurecia-o. Assobiava frequentemente a Maria da Fonte, e mostrava-se nas suas palavras, nas suas atitudes, um patriota exasperado.

O homem do realejo tirou o seu largo chapéu desabado e, tocando sempre, ia-o estendendo em redor para as janelas, com um olhar necessitado. As Azevedos tinham logo fechado violentamente a vidraça. A carvoeira deu-lhe uma moeda de cobre; mas interrogou-o: quis decerto saber de que país era, por que estradas tinha vindo, e quantas peças tinha o instrumento.

Gente endomingada começava a recolher, com um ar derreado do longo passeio, as botas empoeiradas; mulheres de xale, vindas das hortas, traziam ao colo as crianças adormecidas da caminhada e do calor; velhos plácidos, de calça branca, o chapéu na mão, gozavam a frescura, dando um giro no bairro: pelas janelas, bocejava-se; o céu tomava uma cor azulada e polida, como uma porcelana; um sino repicava a distância o fim de alguma festa de igreja; e o domingo terminava, com uma serenidade cansada e triste.

– Luísa – disse a voz de Jorge.

Ela voltou-se com um vago - “bem”?

– Vamos jantar, filha, são sete horas.

No meio do quarto tomou-a pela cinta e falando-lhe baixo junto à face:

– Tu zangaste-te há bocado?

– Não! Tu tens razão. Conheço que tens razão.

– Ah! - fez ele com um tom vitorioso, muito satisfeito. - Está claro,

Quem melhor conselheiro e bom amigo

Que o marido que a alma m’escolheu?

E com uma ternura grave:

– Minha querida filha, esta nossa casinha é tão honesta que é uma dor de alma ver entrar essa mulher aqui, com o cheiro de feno, do cigarro e do resto!… Ma, di questo non parlaremo più, o donna mia! À sopa!

CAPÍTULO II

Aos domingos à noite havia em casa de Jorge uma pequena reunião, uma cavaqueira, na sala, em redor do velho candeeiro de porcelana cor-de-rosa. Vinham apenas os íntimos. O “Engenheiro”, como se dizia na rua, vivia muito ao seu canto, sem visitas. Tomava-se chá, palrava-se. Era um pouco à estudante. Luísa fazia croché, Jorge cachimbava.

O primeiro a chegar era Julião Zuzarte, um parente muito afastado de Jorge e seu antigo condiscípulo nos primeiros anos da Politécnica. Era um homem seco e nervoso, com lunetas azuis, os cabelos compridos caídos sobre a gola. Tinha o curso de cirurgião da Escola. Muito inteligente, estudava desesperadamente, mas, como ele dizia, era uma tumba. Aos trinta anos, pobre, com dívidas, sem clientela, começava a estar farto do seu quarto andar na Baixa, dos seus jantares de doze vinténs, do seu paletó coçado de alamares; e entalado na sua vida mesquinha, via os outros, os medíocres, os superficiais, furar, subir, instalar-se à larga na prosperidade! “Falta de chance”, dizia. Podia ter aceitado um partido da Câmara numa vila da província, com pulso livre, ter uma casa sua, a sua criação no quintal. Mas tinha um orgulho resistente, muita fé nas suas faculdades, na sua ciência, e não se queria ir enterrar numa terriola adormecida e lúgubre, com três ruas onde os porcos fossam. Toda a província o aterrava: via-se lá obscuro, jogando a manilha na Assembleia, morrendo de caquexia. Por isso não “arredava pé”; e esperava, com a tenacidade do plebeu sôfrego, uma clientela rica, uma cadeira na Escola, um cupê para as visitas, uma mulher loura com dote. Tinha certeza do seu direito a estas felicidades, e como elas tardavam a chegar ia-se tornando despeitado e amargo; andava amuado com a vida; cada dia se prolongavam mais os seus silêncios hostis, roendo as unhas; e, nos dias melhores, não cessava de ter ditos secos, tiradas azedadas – em que a sua voz desagradável caía como um gume gelado.

Luísa não gostava dele: achava-lhe um ar nordeste detestava o seu tom de pedagogo, os reflexos negros da luneta, as calças curtas que mostravam o elástico roto das botas. Mas disfarçava, sorria-lhe, porque Jorge admirava-o, dizia sempre dele: “Tem muito espírito! Tem muito talento! Grande homem!”

Como vinha mais cedo ia à sala de jantar, tomava a sua chávena de café; e tinha sempre um olhar de lado para as pratas do aparador e para os toaletes frescas de Luísa. Aquele parente, um medíocre, que vivia confortavelmente, bem-casado, com a carne contente, estimado no ministério, com alguns contos de réis em inscrições – parecia-lhe uma injustiça e pesava-lhe como uma humilhação. Mas afetava estimá-lo; ia sempre às noites, aos domingos; escondia então as suas preocupações, cavaqueava, tinha pilhérias – metendo a cada momento os dedos pelos seus cabelos compridos, secos e cheios de caspa.

Às nove horas, ordinariamente, entrava D. Felicidade de Noronha. Vinha logo da porta com os braços estendidos, o seu bom sorriso dilatado. Tinha cinquenta anos, era muito nutrida, e, como sofria de dispepsia e de gases, àquela hora não se podia espartilhar e as suas formas transbordavam. Já se viam alguns fios brancos nos seus cabelos levemente anelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, de uma alvura baça e mole de freira; nos olhos papudos, com a pele já engelhada em redor, luzia uma pupila negra e úmida, muito móbil; e aos cantos da boca uns pelos de buço pareciam traços leves e circunflexos de uma pena muito fina. Fora a íntima amiga da mãe de Luísa, e tomara aquele hábito de vir ver a pequena aos domingos. Era fidalga, dos Noronhas de Redondela, bastante aparentada em Lisboa, um pouco devota, muito da Encarnação.

Mal entrava, ao pôr um beijo muito cantado na face de Luísa, perguntava-lhe baixo, com inquietação:

– Vem?

– O Conselheiro? Vem.

Luísa sabia-o. Porque o Conselheiro, o Conselheiro Acácio, nunca vinha aos “chás de D. Luísa”, como ele dizia, sem ter ido na véspera ao Ministério das Obras Públicas procurar Jorge, declarar-lhe com gravidade, curvando um pouco a sua alta estatura:

– Jorge, meu amigo, amanhã lá pedirei à sua boa esposa a minha chávena de chá.

Ordinariamente acrescentava:

– E os seus valiosos trabalhos progridem? Ainda bem! Se vir o ministro, os meus respeitos a Sua Excelência. Os meus respeitos a esse formoso talento!

E saía pisando com solenidade os corredores enxovalhados.

Havia cinco anos que D. Felicidade o amava. Em casa de Jorge riam-se um pouco com aquela chama. Luísa dizia: “Ora! E uma caturrice dela!” Viam-na corada e nutrida, e não suspeitavam que aquele sentimento concentrado, irritado semanalmente, queimando em silêncio, a ia devastando como uma doença e desmoralizando como um vício. Todos os seus ardores até aí tinham sido inutilizados. Amara um oficial de lanceiros que morrera, e apenas conservava o seu daguerreótipo. Depois apaixonara-se muito ocultamente por um rapaz padeiro, da vizinhança, e vira-o casar. Dera-se então toda a um cão, o Bilro; uma criada despedida deu-lhe por vingança rolha cozida; o Bilro rebentou, e tinha-o agora empalhado na sala de jantar. A pessoa do Conselheiro viera de repente, um dia, pegar fogo àqueles desejos, sobrepostos como combustíveis antigos. Acácio tornara-se a sua mania: admirava a sua figura e a sua gravidade, arregalava grandes olhos para a sua eloquência, achava-o numa “linda posição”. O Conselheiro era a sua ambição e o seu vício! Havia sobretudo nele uma beleza, cuja contemplação demorada a estonteava como um vinho forte: era a calva. Sempre tivera o gosto perverso de certas mulheres pela calva dos homens, e aquele apetite insatisfeito inflamara-se com a idade. Quando se punha a olhar para a calva do Conselheiro, larga, redonda, polida, brilhante às luzes, uma transpiração ansiosa umedecia-lhe as costas, os olhos dardejavam-lhe, tinha uma vontade absurda, ávida de lhe deitar as mãos, palpá-la, sentir-lhe as formas, amassá-la, penetrar-se nela! Mas disfarçava, punha-se a falar alto com um sorriso parvo, abanava-se convulsivamente, e o suor gotejava-lhe nas roscas anafadas do pescoço. Ia para casa rezar estações, impunha-se penitências de muitas coroas à Virgem; mas apenas as orações findavam, começava o temperamento a latejar. E a boa, a pobre D. Felicidade tinha agora pesadelos lascivos e as melancolias do histerismo velho. A indiferença do Conselheiro irritava-a mais: nenhum olhar, nenhum suspiro, nenhuma revelação amorosa e comovida! Era para com ela glacial e polido. Tinham-se às vezes encontrado a sós, à parte, no vão favorável de uma janela, no isolamento mal alumiado de um canto do sofá – mas apenas ela fazia uma demonstração sentimental, ele erguia-se bruscamente, afastava-se, severo e pudico. Um dia ela julgara perceber que, por trás das suas lunetas escuras, o Conselheiro lhe deitava de revés um olhar apreciador para a abundância do seio; fora mais clara, mais urgente, falara em paixão, disse-lhe baixo:

"Acácio! Mas ele com um gesto gelou-a – e de pé, grave:

– Minha senhora,

As neves que na fronte se acumulam
Terminam por cair no coração…

– É inútil, minha senhora!

O martírio de D. Felicidade era muito oculto, muito disfarçado: ninguém o sabia; conheciam-lhe as infelicidades do sentimento, ignoravam-lhe as torturas do desejo. E um dia Luísa ficou atônita, sentindo D. Felicidade agarrar-lhe o pulso com a mão úmida, e dizer-lhe baixo, os olhos cravados no Conselheiro:

– Que regalo de homem!

Falava-se nessa noite do Alentejo, de Évora e das suas riquezas, da capela dos ossos, quando o Conselheiro entrou com o paletó no braço. Foi-o dobrar solicitamente numa cadeira a um canto, e no seu passo aprumado e oficial veio apertar as mãos ambas de Luísa, dizendo-lhe com uma voz sonora, de papo:

– Minha boa senhora D. Luísa, de perfeita saúde, não? O nosso Jorge tinha-mo dito. Ainda bem! Ainda bem!

Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoço entalado num colarinho direito. O rosto aguçado no queixo ia-se alargando até a calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabelos que de uma orelha à outra lhe faziam colar por trás da nuca – e aquele preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho à calva; mas não tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, caído aos da boca. Era muito pálido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do crânio.

Fora, outrora, diretor-geral do Ministério do Reino, e sempre que dizia “El-rei!” erguia-se um pouco na cadeira. Os seus gestos eram medidos, mesmo a tomar rapé. Nunca usava palavras triviais; não dizia vomitar, fazia um gesto indicativo e empregava restituir. Dizia sempre “o nosso Garrett, o nosso Herculano”. Citava muito. Era autor. E sem família, num terceiro andar da Rua do Ferregial, amancebado com a criada, ocupava-se de economia política: tinha composto os Elementos genéricos da ciência da riqueza e a sua distribuição, segundo os melhores autores, e como subtítulo: Leituras do serão! Havia apenas meses publicara a Relação de todos os ministros de Estado desde o grande Marquês de Pombal até nossos dias, com datas cuidadosamente averiguadas de seus nascimentos e óbitos.

– Já esteve no Alentejo, Conselheiro? - perguntou-lhe Luísa.

– Nunca, minha senhora – e curvou-se. - Nunca! E tenho pena! Sempre desejei lá ir, porque me dizem que as suas curiosidades são de primeira ordem.

Tomou uma pitada de uma caixa dourada, entre os dedos, delicadamente, e acrescentou com pompa:

– De resto, país de grande riqueza suma!

– Ó Jorge, averígua quanto é o partido da Câmara em Évora – disse Julião do canto do sofá.

O Conselheiro acudiu, cheio de informações, com a pitada suspensa:

– Devem ser seiscentos mil réis, Sr. Zuzarte, e pulso livre. Tenho-o nos meus apontamentos. Por que, Sr. Zuzarte, quer deixar Lisboa?

– Talvez!…

Todos desaprovaram.

– Ah! Lisboa sempre é Lisboa! - suspirou D. Felicidade.

- “Cidade de mármore e de granito”, na frase sublime do nosso grande historiador! - disse solenemente o Conselheiro.

E sorveu a pitada com os dedos abertos em leque, magros, bem tratados.

D. Felicidade disse então:

– Quem não era capaz de deixar Lisboa nem à mão de Deus Padre, era o Conselheiro!

O Conselheiro, voltando-se vagarosamente para ela, um pouco curvado, replicou:

– Nasci em Lisboa, D. Felicidade, sou lisboeta de alma!

– O Conselheiro – lembrou Jorge – nasceu na Rua de São José.

– Número setenta e cinco, meu Jorge. Na casa pegado àquela em que viveu, até casar, o meu prezado Geraldo, o meu pobre Geraldo!

Geraldo, o seu pobre Geraldo era o pai de Jorge. Acácio fora o seu íntimo. Eram vizinhos. Acácio tocava então rabeca, e, como Geraldo tocava flauta, faziam duos, pertenciam mesmo à Filarmônica da Rua de São José. Depois Acácio, quando entrou nas repartições do Estado, por escrúpulo e por dignidade, abandonou a rabeca, os sentimentos ternos, os serões joviais da Filarmônica. Entregou-se todo à Estatística. Mas conservou-se muito leal a Geraldo; continuou mesmo a Jorge aquela amizade vigilante; fora padrinho do seu casamento, vinha vê-lo todos os domingos, e, no dia dos seus anos, mandava-lhe pontualmente, com uma carta de felicitações, uma lampreia de ovos.

– Aqui nasci – repetiu, desdobrando o seu belo lenço de seda da Índia – e aqui conto morrer.

E assou-se discretamente.

– Isso ainda vem longe, Conselheiro!

Ele disse, com uma melancolia grave:

– Não me arreceio dela, meu Jorge. Até já fiz construir, sem vacilar, no Alto de São João, a minha última morada. Modesta, mas decente. É ao entrar, no arruamento à direita, num lugar abrigado, ao pé da choça dos Veríssimos amigos.

– E já compôs o seu epitáfio, Sr. Conselheiro? - perguntou Julião, do canto, irônico.

– Não o quero, Sr. Zuzarte. Na minha sepultura não quero elogios. Se os meus amigos, os meus patrícios entenderem que eu fiz alguns serviços, têm outros meios para os comemorar: lá têm a imprensa, o comunicado, o necrológio, a poesia mesmo! Por minha vontade quero apenas sobre a lápide lisa, em letras negras, o meu nome – com a minha designação de Conselheiro – a data do meu nascimento e a data do meu óbito.

E com um tom demorado, de reflexão:

– Não me oponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras menores:

“Orai por ele!”

Houve um silêncio comovido, e à porta uma voz fina, disse:

– Dão licença?

– Oh, Ernestinho!… - exclamou Jorge.

Com um passo miudinho e rápido, Ernestinho veio abraçá-lo pela cintura:

– Eu soube que tu partias, primo Jorge… Como está, prima Luísa?

Era primo de Jorge. Pequenino, linfático, os seus membros franzinos, ainda quase tenros, davam-lhe um aspecto débil de colegial; o buço, delgado, empastado em cera mostacha, arrebitava-se aos cantos em pontas afiadas como agulhas; e na sua cara chupada, os olhos repolhudos amorteciam-se com um quebrado langoroso. Trazia sapatos de verniz com grandes laços de fita; sobre o colete branco, a cadeia do relógio sustentava um medalhão enorme, de ouro, com frutos e flores esmaltados em relevo. Vivia com uma atrizita do Ginásio, uma magra, cor de melão, com o cabelo muito riçado, o ar tísico – e escrevia para o teatro. Tinha traduções, dos originais num ato, uma comédia, em calembures. Ultimamente trazia em ensaios nas Variedades uma obra considerável, um drama em cinco atos, a Honra e paixão. Era a sua estreia séria. E desde então, viam-no sempre muito atarefado, os bolsos inchados de manuscritos, com localistas, com atores, muito pródigo de cafés e de conhaques, o chapéu ao lado, descorado e dizendo a todos: “Esta vida mata-me!” Escrevia todavia por paixão entranhada pela Arte – porque era empregado na alfândega, com bom vencimento, e tinha quinhentos mil réis de renda das suas inscrições. A Arte mesma, dizia, obrigava-o a desembolsos; para o ato do baile da Honra e paixão mandara fazer, à sua custa, botas de verniz para o galã, botas de verniz para o pai nobre! O seu nome de família era Ledesma.

Deram-lhe um lugar, e Luísa notou logo, pousando o bordado, que estava abatido! Queixou-se então das suas fadigas: os ensaios arrasavam-no; tinha turras com o empresário; na véspera vira-se forçado a refazer todo o final de um ato! Todo!

– E tudo isto – acrescentou muito exaltado – porque é um pelintra, um parvo, e quer que se passe numa sala o ato que se passava num abismo!

– Num quê? - perguntou surpreendida D. Felicidade.

O Conselheiro, muito cortês, explicou:

– Num abismo, D. Felicidade, num despenhadeiro. Também se diz, em bom vernáculo, um vórtice. - Citou: “Num espumoso vórtice se arroja…”

– Num abismo!? - perguntaram. - Por quê?

O Conselheiro quis conhecer o lance.

Ernestinho, radioso, esboçou largamente o enredo: - Era uma mulher casada. Em Sintra tinha-se encontrado com um homem fatal, o Conde de Monte Redondo. O marido, arruinado, devia cem contos de réis ao jogo. Estava desonrado, ia ser preso. A mulher, louca, corre a umas ruínas acasteladas, onde habita o conde, deixa cair o véu, conta-lhe a catástrofe. O conde lança o seu manto aos ombros, parte, chega no momento em que os beleguins vão levar o homem. - É uma cena muito comovente – dizia – é de noite, ao luar! - O conde desembuça-se, atira uma bolsa de ouro aos pés dos beleguins, gritando-lhes: “Saciai-vos, abutres!…”

– Belo final! - murmurou o Conselheiro.

– Enfim – acrescentou Ernesto, resumindo –, aqui há um enredo complicado: o Conde de Monte Redondo e a mulher amam-se, o marido descobre, arremessa todo o seu ouro aos pés do conde, e mata a esposa.

– Como? - perguntaram.

– Atira-a ao abismo. E no quinto ato. O conde vê, corre, atira-se também. O marido cruza os braços e dá uma gargalhada infernal. Foi assim que eu imaginei a coisa!

Calou-se, ofegante; e, abanando-se com o lenço, rolava em redor os seus olhos langorosos, prateados como os de um peixe morto.

– É uma obra de cunho, embatem-se grandes paixões! - disse o Conselheiro, passando as mãos sobre a calva. - Os meus parabéns, Sr. Ledesma!

– Mas que quer o empresário? - perguntou Julião, que escutara de pé, atônito – que quer ele? Quer o abismo num primeiro andar, mobilado pelo Gardé?

Ernestinho voltou-se, muito afetuosamente:

– Não, Sr. Zuzarte – a sua voz era quase meiga –, quer o desfecho numa sala. De modo que eu – e fazia um gesto resignado – a gente tem de condescender, tive de escrever outro final. Passei a noite em claro. Tomei três chávenas de café!…

O Conselheiro acudiu, com a mão espalmada:

– Cuidado, Sr. Ledesma, cuidado! Prudência com esses excitantes! Por quem é, prudência!

– A mim não me faz mal, Sr. Conselheiro – disse sorrindo. - Escrevo em três horas! Venho de lho mostrar agora. Até o tenho aqui…

– Leia, Sr. Ernesto, leia! - exclamou logo D. Felicidade.

Que lesse! Que lesse! Por que não lia?

Era uma maçada!… Era um rascunho… Enfim, como queriam!… E radiante desdobrou, no silêncio, uma grande folha de papel azul pautado.

– Eu peço desculpa. Isto é um borrão. A coisa não está ainda com todos os ff e rr. - Fez então voz teatral: - ÁGATA!… É a mulher; isto aqui é a cena com o marido, o marido já sabe tudo…

"ÁGATA (caindo de joelhos aos pés de Júlio)

"- Mas mata-me! Mata-me, por piedade! Antes a morte, que ver, com esses desprezos, o coração rasgado fibra a fibra!

"JÚLIO

"- E não me rasgaste tu também o coração? Tiveste tu piedade? Não. Retalhaste-mo! Meu Deus, eu que a julgava pura, nessas horas em que arrebatados…"

O reposteiro franziu-se. Sentiu-se um fino tilintar de chávenas. Era Juliana, de avental branco, com o chá.

– Que pena! - exclamou Luísa. - Depois do chá se lê. Depois do chá.

Ernesto dobrou o papel, e, com um olhar de lado para Juliana, rancoroso:

– Não vale a pena, prima Luísa!

– Ora essa! É lindo! - afirmou D. Felicidade.

Juliana pousava sobre a mesa o prato das fatias, os biscoitos de Oeiras, os bolos do Cocó.

– Aqui tem o seu chá fraco, Conselheiro – dizia Luísa. - Sirva-se, Julião. As torradas ao Sr. Julião! Mais açúcar! Quem quer? Uma torrada, Conselheiro?

– Estou amplamente servido, minha prezada senhora – replicou, curvando-se.

E declarou, voltado para Ernestinho, que achava o diálogo opulento.

Mas, perguntaram, o que quer o empresário mais agora? Já tem a sala…

Ernestinho, de pé, excitado, com um bolo de ovos na ponta dos dedos, explicou:

– O que o empresário quer é que o marido lhe perdoe…

Foi um espanto:

– Ora essa! É extraordinário! Por quê?

– Então! - exclamou Ernestinho encolhendo os ombros – diz que o público que não gosta! Que não são coisas cá para o nosso país…

– A falar a verdade – disse o Conselheiro –, a falar a verdade, Sr. Ledesma, o nosso público não é geralmente afeto a cenas de sangue.

– Mas não há sangue, Sr. Conselheiro! - protestava Ernestinho erguendo-se sobre os bicos dos sapatos –, mas não há sangue! É com um tiro! E com um tiro pelas costas, Sr. Conselheiro!

Luísa fez a D. Felicidade - “psiu!” e, num aparte, com um sorriso.

– Desses bolinhos de ovos. São muito frescos.

Ela respondeu, com uma voz lamentosa:

– Ai, filha, não!

E indicou o estômago, compungidamente.

No entanto, o Conselheiro aconselhava a Ernestinho a demência; tinha-lhe posto a mão no ombro paternalmente, e com uma voz persuasiva:

– Dá mais alegria à peça, Sr. Ledesma. O espectador sai mais aliviado! Deixe sair o espectador aliviado!

– Mais um bolinho, Conselheiro?

– Estou repleto, minha prezada senhora.

E, então, invocou a opinião de Jorge. Não lhe parecia que o bom Ernesto devia perdoar?

– Eu, Conselheiro? De modo nenhum. Sou pela morte. Sou inteiramente pela morte. E exijo que a mates, Ernestinho!

D. Felicidade acudiu, toda bondosa:

– Deixe falar, Sr. Ledesma. Está a brincar. E ele então que é um coração de anjo!

– Está enganada, D. Felicidade – disse Jorge, de pé diante dela. - Falo sério e sou uma fera! Se enganou o marido, sou pela morte. No abismo, na sala, na rua, mas que a mate. Posso lá consentir que, num caso desses, um primo meu, uma pessoa da minha família, do meu sangue, se ponha a perdoar como um lamecha! Não! Mata-a! É um princípio de família. Mata-a quanto antes!

– Aqui tem um lápis, Sr. Ledesma – gritou Julião, estendendo-lhe uma lapiseira.

O Conselheiro, então, interveio grave:

– Não – disse –, não creio que o nosso Jorge fale sério. É muito instruído para ter ideias tão…

Hesitou, procurou o adjetivo. Juliana pôs-se lhe diante com uma bandeja, onde um macaco de prata se agachava comicamente sob um vasto guarda-sol eriçado de palitos. Tomou um, curvou-se, e concluiu:

- …tão anticivilizadoras.

– Pois está enganado, Conselheiro, tenho-as – afirmou Jorge. - São as minhas ideias. E aqui tem, se em lugar de se tratar de um final de ato, fosse um caso da vida real, se o Ernesto viesse dizer-me: “Sabes, encontrei minha mulher…”

– Oh, Jorge! - disseram, repreensivamente.

Bem, suponhamos, se ele mo viesse dizer, eu respondia-lhe o mesmo. Dou a minha palavra de honra, que lhe respondia o mesmo: “Mata-a!”

Protestaram. Chamaram-lhe “tigre”, “Otelo”, “Barba Azul”. Ele ria, enchendo muito sossegadamente o seu cachimbo.

Luísa bordava, calada; a luz do candeeiro, abatida pelo abajur, dava aos seus cabelos tons de um louro quente, resvalava sobre a sua testa branca como sobre um marfim muito polido.

– Que dizes tu a isto? - disse-lhe D. Felicidade.

Ela ergueu o rosto, risonha, encolheu os ombros…

E o Conselheiro logo:

– A senhora D. Luísa diz com orgulho o que dizem as verdadeiras mães de família:

Impurezas do mundo não me roçam.
Nem a fímbria da túnica sequer.

– Ora, muito boas noites – disse, à porta, uma voz grossa.

Voltaram-se.

Ó Sebastião! O Sr. Sebastião! Ó Sebastiarrão!

Era ele, Sebastião, o grande Sebastião, o Sebastiarrão, Sebastião tronco de árvore – o íntimo, o camarada, o inseparável de Jorge desde o Letim, na aula de Frei Libório aos paulistas.

Era um homem baixo e grosso, todo vestido de preto, com um chapéu mole desabado na mão. Começava a perder um pouco na frente os seus cabelos castanhos e finos. Tinha a pele muito branca, a barba alourada e curta. Veio sentar-se ao pé de Luísa.

– Então de onde vem, de onde vem?

Vinha do Price. Rira muito com os palhaços. Houvera a brincadeira da pipa.

O seu rosto, em plena luz, tinha uma expressão honesta, simples, aberta: os olhos pequenos, azuis de um azul-claro, de uma suavidade séria, adoçavam-se muito quando sorria; e os beiços escarlates, sem películas secas, os dentes luzidios revelavam uma vida saudável e hábitos castos. Falava devagar, baixo, como se tivesse medo de se manifestar ou de fatigar. Juliana trouxera-lhe a sua e remexendo o açúcar com a colher direita, os olhos ainda a rir, um sorriso bom:

– A pipa tem muita graça! Muita graça!

Sorveu um gole de chá e depois de um momento:

– E tu, maroto, sempre partes amanhã? Não há umas tentaçõezinhas de ir por aí fora com ele, minha cara amiga?

Luísa sorriu. Tomara ela! Quem dera! Mas era uma jornada tão incômoda! Depois a casa não podia ficar só, não havia que fiar em criados…

– Está claro, está claro… - disse ele.

Jorge então, que abrira a porta do escritório, chamou-o:

– Ó Sebastião! Fazes favor?

Ele foi logo com o seu andar pesado, o largo dorso curvado; as abas do seu casaco malfeito tinham comprimento eclesiástico.

Entraram para o escritório.

Era uma saleta pequena, com uma estante alta e envidraçada, tendo em cima a estatueta de gesso, empoeirada e velha, de uma bacante em delírio. A mesa, com um antigo tinteiro de prata que fora de seu avô, estava ao pé da janela; uma coleção empilhada de Diários do Governo branquejava a um canto; por cima da cadeira de marroquim escuro pendia, num caixilho preto, uma larga fotografia de Jorge; e sobre o quadro duas espadas encruzadas reluziam. Uma porta, no fundo, coberta com um reposteiro de baeta escarlate, abria para o patamar.

– Sabes quem esteve aí de tarde? - disse logo Jorge acendendo o cachimbo. - Aquela desavergonhada da Leopoldina! Que te parece, hem?

– E entrou? - perguntou Sebastião, baixo, correndo por dentro o pesado reposteiro de fazenda listrada.

– Entrou, sentou-se, esteve, demorou-se! Fez o que quis! A Leopoldina, a Pão e Queijo!

E arremessando o fósforo violentamente:

– Quando penso que aquela desavergonhada vem a minha casa! Uma criatura que tem mais amantes que camisas, que anda pelo Dafundo em troças, que passeava nos bailes, este ano, de dominó, com um tenor! A mulher do Zagalão, um devasso que falsificou uma letra!

E quase ao ouvido de Sebastião:

– Uma mulher que dormiu com o Mendonça dos calos! Aquele sebento do Mendonça dos calos!

Teve um gesto furioso; exclamou:

– E vem aqui, senta-se nas minhas cadeiras, abraça minha mulher, respira o meu ar!… Palavra de honra, Sebastião, se a pilho – procurou mentalmente, com o olhar aceso, um castigo suficiente – dou-lhe açoites!

Sebastião disse devagar:

– E o pior é a vizinhança…

– Está claro que é! - exclamou Jorge. - Toda essa gente aí pela rua abaixo sabe quem ela é! Sabem-lhe os amantes, sabem-lhe os sítios. É a Pão e Queijo! Todo o mundo conhece a Pão e Queijo!

– Má vizinhança… - disse Sebastião.

– De tremer!

Mas então! Estava acostumado à casa, era sua, tinha-a arranjado, era uma economia…

– Se não! Não parava aqui um dia!

Era um horror de rua! Pequena, estreita, acavalados uns nos outros! Uma vizinhança a postos, ávida de mexericos! Qualquer bagatela, o trotar de uma tipoia, e aparecia por trás de cada vidro um par de olhos repolhudos a cocar! E era logo um badalar de línguas por aí abaixo, e conciliábulos, e opiniões formadas, e fulano é indecente e fulana é bêbada…

– É o diabo! - disse Sebastião.

– A Luísa é um anjo, coitada – dizia Jorge passeando pela saleta –, mas tem coisas em que é criança! Não vê o mal. É muito boa, deixa-se ir. Com este caso da Leopoldina, por exemplo: foram criadas de pequenas, eram amigas, não tem coragem agora para a pôr fora! É acanhamento, é bondade. Ele compreende-se! Mas enfim as leis da vida têm as suas exigências!…

E depois de uma pausa:

– Por isso, Sebastião, enquanto eu estiver fora, se te constar que a Leopoldina vem por cá, avisa a Luísa! Porque ela é assim, esquece-se, não reflexiona. É necessário alguém que a advirta, que lhe diga: “Alto lá, isso não pode ser!” Que então cai logo em si, e é a primeira!… Vens por aí, fazes-lhe companhia, fazes-lhe música, e se vires que a Leopoldina aparece ao largo, tu logo: “Minha rica senhora, cuidado, olhe que isso não!” Que ela, sentindo-se apoiada, tem decisão. Se não, acanha-se, deixa-a vir. Sofre com isso, mas não tem coragem de lhe dizer: “Não te quero ver, vai-te!” Não tem coragem para nada; começam as mãos a tremer-lhe, a secar-se-lhe a boca… É mulher, é muito mulher… Não te esqueças, hem, Sebastião?

– Então havia de me esquecer, homem?

Sentiram então o piano na sala e a voz de Luísa ergueu-se, fresca e clara, cantando a Mandolinata:

Amici, la notte é bella,
La luna va spuntare.

– Fica tão só, coitada!… - disse Jorge.

Deu alguns passos pelo escritório, fumando, com a cabeça baixa:

– Todo o casal bem organizado, Sebastião, deve ter dois filhos! Deve ter, pelo menos, um!…

Sebastião coçou a barba em silêncio – e a voz de Luísa, elevando-se com certo esforço áspero, nos altos da melodia:

Di cá, di lá per la cittá.
Andiamo a transnottare…

Era uma tristeza secreta de Jorge – não ter um filho! Desejava-o tanto! Ainda em solteiro, nas vésperas do casamento, lá sonhava aquela felicidade: o seu filho! Via-o de muitas maneiras: ou gatinhando com as suas perninhas vermelhas, cheias de roscas, e os cabelos anelados, finos como fios de seda; ou rapaz forte, entrando da escola com os livros, alegre e de olho vivo, vindo mostrar-lhe as boas notas dos mestres; ou, melhor, rapariga crescida, clara e rosada, com um vestido branco, as duas tranças caídas, vindo pousar as mãos nos seus cabelos já grisalhos…

Vinha-lhe, às vezes, um medo de morrer sem ter tido aquela felicidade completadora!

Agora, na sala, a voz aguda de Ernestinho perorava; depois, no piano, Luísa recomeçou a Mandolinata, com um brio jovial.

A porta do escritório abriu-se, Julião entrou:

– Que estão vocês aqui a conspirar? Vou-me safar, que é tarde! Até à volta, meu velho, hem? Também ia contigo tomar ar, respirar, ver campos, mas…

E sorriu com amargura. - Áddio! Áddio!

Jorge foi alumiar-lhe ao patamar, abraçá-lo outra vez. Se quisesse alguma coisa do Alentejo…

Julião carregou o chapéu na cabeça:

– Dá cá outro charuto, por despedida! Dá cá dois!

– Leva a caixa! Eu em viagem só fumo cachimbo. Leva a caixa, homem!

Embrulhou-lha num Diário de Notícias; Julião meteu-a debaixo do braço, e descendo os degraus:

– Cuidado com as sezões, e descobre uma mina de ouro!

Jorge e Sebastião entraram na sala. Ernestinho, encostado ao piano, torcia as guias do bigodinho, e Luísa começava uma valsa de Strauss – o Danúbio azul.

Jorge disse, rindo, estendendo os braços:

– Uma valsa, D. Felicidade?

Ela voltou-se, com um sorriso. E por que não? Em nova era falada! Citou logo a valsa que dançara com o senhor D. Fernando, no tempo da Regência, nas Necessidades. Era uma valsa linda, dessa época: A pérola de Ofir.

Estava sentada ao pé do Conselheiro, no sofá. E como retomando um diálogo mais querido – continuou, baixo para ele, com uma voz meiga:

– Pois creia, acho-o com ótimas cores.

O Conselheiro enrolava vagarosamente o seu lenço de seda da Índia.

– Na estação calmosa passo sempre melhor. E D. Felicidade?

– Ai! Estou outra, Conselheiro! Muito boas digestões, muito livre de gases… Estou outra!

– Deus o queira, minha senhora, Deus o queira – disse o Conselheiro esfregando lentamente as mãos.

Tossiu, ia levantar-se, mas D. Felicidade pôs-se a dizer:

– Espero que esse interesse seja verdadeiro…

Corou. O corpete flácido do vestido de seda preta enchia-se-lhe com o arfar do peito.

O Conselheiro recaiu lentamente no sofá – e com as mãos nos joelhos:

– D. Felicidade sabe que tem em mim um amigo sincero…

Ela levantou para ele os seus olhos pisados, de onde saíam revelações de paixão e súplicas de felicidade:

– E eu, Conselheiro!…

Deu um grande suspiro, pôs o leque sobre o rosto.

O Conselheiro ergueu-se secamente. E com a cabeça alta, as mãos atrás das costas; foi ao piano, perguntou a Luísa curvando-se:

– É alguma canção do Tirol, D. Luísa?

– Uma valsa de Strauss – murmurou-lhe Ernestinho, em bicos de pés, ao ouvido.

– Ah! Muita fama! Grande autor!

Tirou então o relógio. Eram horas, disse, de ir coordenar alguns apontamentos. Aproximou-se de Jorge, com solenidade:

– Jorge, meu bom Jorge, adeus! Cautela com esse Alentejo! O clima é nocivo, a estação traiçoeira!

E apertou-o nos braços com uma pressão comovida.

D. Felicidade punha a sua manta de renda negra.

– Já, D. Felicidade? - disse Luísa.

Ela explicou-lhe, ao ouvido:

– Já, sim, filha, que tenho estado a abarrotar, comi umas vagens e tenho estado!… E aquele homem, aquele gelo! O Sr. Ernesto vem para os meus sítios, hem?

– Como um fuso, minha senhora!

Tinha vestido o seu paletó de alpaca clara, fumava chupando, com as faces por uma boquilha enorme, onde uma Vênus se torcia sobre o dorso de um leão domado.

– Adeus, primo Jorge, saudinha e dinheiro, hem? Adeus! Quando for a Honra e Paixão cá mando um camarote à prima Luísa. Adeus! Saudinha!

Iam a sair. Mas o Conselheiro, à porta, voltando-se subitamente, com as abas do paletó deitadas para trás, a mão pomposamente apoiada no castão de que representava uma cabeça de mouro, disse com gravidade:

– Esquecia-me, Jorge! Tanto em Évora, como em Beja, visite os governadores civis! E eu lhe digo por quê: devo-lho como primeiros funcionários do distrito, e podem-lhe ser de muita utilidade nas suas peregrinações científicas!

E curvando-se profundamente:

Al rivedere, como se diz em Itália.

Sebastião tinha ficado. Para arejar do fumo de tabaco, Luísa foi abrir as janelas; a noite estava quente e imóvel, de luar.

Sebastião pusera-se ao piano, e com a cabeça curvada, corria devagar o teclado.

Tocava admiravelmente, com uma compreensão muito fina da música. Outrora compusera mesmo uma meditação, duas valsas, uma balada: mas eram estudos muito trabalhados, cheios de reminiscências, sem estilo. - Da cachimônia não me sai nada – costumava ele dizer com bonomia, batendo na testa, sorrindo – mas lá com os dedos!…

Pôs-se a tocar um Noturno, de Chopin. Jorge sentara-se no sofá ao pé de Luísa.

– Já tens pronto o teu farnelzinho!… - disse-lhe ela.

– Bastam umas bolachas, filha. O que quero é o cantil com conhaque.

– E não te esqueças de mandar um telegrama logo que chegues!

– Pudera!

– Tu daqui a quinze dias, vens!

– Talvez…

Ela teve um gesto amuado.

– Ah, bem! Se não vieres vou ter contigo! A culpa é tua.

E olhando em redor:

– Que só que vou ficar!

Mordeu o beicinho, fitou o tapete. E de repente, com a voz ainda triste:

– Psiu, Sebastião! A malaguenha, faz favor?

Sebastião começou a tocar a malaguenha. Aquela melodia cálida, muito arrastada, encantava-a. Parecia-lhe estar em Málaga, ou em Granada, não sabia: era sob as laranjeiras, mil estrelinhas luzem; a noite é quente, o ar cheira bem; por baixo de um lampião suspenso a um ramo, um cantador sentado na tripeça mourisca faz gemer a guitarra; em redor as mulheres com os seus corpetes de veludilho encarnado batem as mãos em cadência; e ao largo dorme uma andaluza de romance e de zarzuela, quente e sensual, onde tudo são braços brancos que se abrem para o amor, capas românticas que roçam as paredes sombrias vielas onde luz o nicho do santo e se repenica a viola, serenos que invocam a Virgem Santíssima cantando as horas…

– Muito bem Sebastião! Gracias!

Ele sorriu, ergueu-se, fechou cuidadosamente o piano, e indo buscar o seu chapéu desabado:

– Então amanhã às sete? Cá estou, e vou te acompanhar até ao Barreiro.

Bom Sebastião!

Foram debruçar-se na varanda para o ver sair. A noite fazia um silêncio alto, de uma melancolia plácida; o gás dos candeeiros parecia mortiço; a sombra que se recortava na rua, com uma nitidez brusca, tinha um tom quente e doce; a luz punha nas fachadas brancas claridades vivas, e nas pedras da calçada faiscações vidradas; uma claraboia reluzia, a distância, como uma velha lâmina de prata; nada se movia; e instintivamente os olhos erguiam-se para as alturas, procuravam a lua branca, muito séria.

– Que linda noite!

A porta bateu, e Sebastião debaixo, na sombra:

– Dá vontade de passear, hem?

– Linda!

Ficaram à varanda preguiçosamente, olhando, detidos pela tranquilidade, pela luz. Puseram-se a falar baixo da jornada. Àquela hora onde estaria ele? Já em Évora num quarto de estalagem, passeando monotonamente sobre um chão de tijolo Mas voltaria breve; esperava fazer um bom negócio com o Paco, o espanhol das minas de Portel, trazer talvez alguns centos de mil réis, e teriam então a doçura do mês de setembro; poderiam fazer uma jornada ao Norte, irem ao Buçaco, trepar aos altos, beber a água fresca das rochas, sob a espessura úmida das folhagens; irem a Espinho, e pelas praias, sentar-se na areia, no bom ar cheio de azote vendo o mar unido, de um azul metálico e faiscante, o mar do verão, com algum fumo de paquete que passa para o Sul ao longe muito adelgaçado. Faziam outros planos com os ombros muito chegados; uma felicidade abundante enchia-os deliciosamente. E Jorge disse:

– Se houvesse um pequerrucho, já não ficavas tão só!

Ela suspirou. Também o desejava tanto! Chamar-se-ia Carlos Eduardo. E via-o no seu berço dormindo, ou no colo, nu, agarrando com a mãozinha o dedo do pé, mamando a ponta rosada do seu peito… Um estremecimento de um deleite infinito correu-lhe no corpo. Passou o braço pela cinta de Jorge. Um dia seria, teria um filho decerto! E não compreendia o seu filho homem nem Jorge velho; via-os ambos do mesmo modo: um sempre amante, novo, forte; o outro sempre dependente do seu peito, da maminha, ou gatinhando e palrando, louro e cor-de-rosa. E a vida aparecia-lhe infindável, de uma doçura igual, atravessada do enternecimento amoroso, quente, calma e luminosa como a noite que os cobria.

– A que horas quer a senhora que a venha acordar? - disse a voz seca de Juliana.

Luísa voltou-se:

– Às sete já lhe disse há pouco, criatura.

Fecharam a janela. Em torno das velas uma borboleta branca esvoaçava. Era bom agouro!

Jorge prendeu-a nos braços:

– Vai ficar sem o seu maridinho, hem? - disse tristemente.

Ela deixou pesar o corpo sobre as mãos dele cruzadas, olhou-o com um longo olhar que se enevoava e escurecia, e envolvendo-lhe o pescoço com o gesto lento, harmonioso e solene dos braços, pousou-lhe na boca um beijo grave e profundo. Um vago soluço levantou-lhe o peito.

– Jorge! Querido! - murmurou.

CAPÍTULO III

Havia doze dias que Jorge tinha partido e, apesar do calor e da poeira, Luísa vestia-se para ir a casa de Leopoldina. Se Jorge soubesse não havia de gostar não. Mas estava tão farta de estar só! Aborrecia-se tanto! De manhã ainda tinha os arranjos a costura, a toalete, algum romance… Mas de tarde!

A hora em que Jorge costumava voltar do ministério, a solidão parecia alargar-se em torno dela. Fazia-lhe tanta falta o seu toque de campainha, os seus passos no corredor!…

Ao crepúsculo, ao ver cair o dia, entristecia-se sem razão, caía numa vaga sentimentalidade; sentava-se ao piano, e os fados tristes, as cavatinas apaixonadas gemiam instintivamente no teclado, sob os seus dedos preguiçosos, no movimento abandonado dos seus braços moles. O que pensava em tolices então! E à noite, só, na larga cama francesa, sem poder dormir com o calor, vinham-lhe de repente terrores, palpites de viuvez.

Não estava acostumada, não podia estar só. Até se lembrara de chamar a tia Patrocínio, uma velha parenta pobre que vivia em Belém; ao menos era alguém; mas receou aborrecer-se mais ao pé da sua longa figura de viúva taciturna, sempre a fazer meia, com enormes óculos de tartaruga sobre um nariz de águia.

Naquela manhã pensara em Leopoldina, toda contente de ir tagarelar, rir, segredar, passar as horas do calor. Penteava-se em colete e saia branca; a camisinha decotada descobria os ombros alvos de uma redondeza macia, o colo branco e tenro, azulado de veiazinhas finas; e os seus braços redondinhos, um pouco vermelhos no cotovelo, descobriam por baixo, quando se erguiam prendendo as tranças, fiozinhos louros, frisando e fazendo ninho.

A sua pele conservava ainda o rosado úmido da água fria; havia no quarto um cheiro agudo de vinagre de toalete; os transparentes de linho branco descidos davam uma luz baça, com tons de leite.

Ah! Positivamente devia escrever a Jorge, que voltasse depressa! Que o que tinha graça era ir surpreendê-lo a Évora, cair-lhe no Tabaquinho, um dia, às três horas! E quando ele entrasse empoeirado e encalmado, de lunetas azuis, atirar-se-lhe ao pescoço! E à tardinha, pelo braço dele, ainda quebrada da jornada, coto um vestido fresco, ir ver a cidade. Pelas ruas estreitas e tristes admiravam-na muito. Os homens vinham às portas das lojas. Quem seria? É de Lisboa. É a do Engenheiro. - E diante do toucador, apertando o corpete do vestido, sorria àquelas imaginações, e ao seu rosto, no espelho.

A porta do quarto rangeu devagarinho.

– Que é?

A voz de Juliana, plangente, disse:

– A senhora dá licença que eu vá logo ao médico?

– Vá, mas não se demore. Puxe-me essa saia atrás. Mais. O que é que você tem?

– Enjoos, minha senhora, peso no coração. Passei a noite em claro.

Estava mais amarela, o olhar muito pisado, a face envelhecida. Trazia um vestido de merino preto escoado, e a cuia da semana de cabelos velhos.

– Pois sim, vá – disse Luísa. - Mas arranje tudo antes. E não se demore, hem?

Juliana subiu logo à cozinha. Era no segundo andar, com duas janelas de sacada para as traseiras, larga, ladrilhada de tijolo diante do fogão.

– Diz que sim, Sra. Joana – disse à cozinheira –, que podia ir. Vou-me vestir. Ela também está quase pronta. Fica vossemecê com a casa por sua!

A cozinheira fez-se vermelha, pôs-se a cantar, foi logo sacudir, estender na varanda um velho tapete esfiado; e os seus olhos não deixavam, defronte, uma casa baixa, pintada de amarelo, com um portal largo – a loja de marceneiro do tio João Galho, onde trabalhava o Pedro, o seu amante. A pobre Joana babava-se por ele. Era um rapazola pálido e afadistado; Joana era minhota, de Avintes, de família de lavrador, e aquela figura delgada de lisboeta anêmico seduzia-a com uma violência abrasada. Como não podia sair à semana, metia-o em casa, pela porta de trás, quando estava só; estendia então na varanda, para dar sinal, o velho tapete desbotado, onde ainda se percebiam os paus de um veado.

Era uma rapariga muito forte, com peitos de ama, o cabelo como azeviche, todo lustroso do óleo de amêndoas doces. Tinha a testa curta de plebeia teimosa. E as sobrancelhas cerradas faziam-lhe parecer o olhar mais negro.

– Ai! - suspirou Juliana. - A Sra. Joana é que a leva!

A rapariga ficou escarlate.

Mas Juliana acudiu logo:

– Olha o mal! Fosse eu! Boa! Faz muito bem!

Juliana lisonjeava sempre a cozinheira; dependia dela; Joana dava-lhe caldinhos às horas de debilidade, ou, quando ela estava mais adoentada, fazia-lhe um bife às escondidas da senhora. Juliana tinha um grande medo de “cair em fraqueza”, e a cada momento precisava tomar a “sustância”. Decerto, como feia e solteirona detestava aquele “escândalo do carpinteiro”; mas protegia-o, porque ele valia muitos regalos aos seus fracos de gulosa.

– Fosse eu! - repetiu –, dava-lhe o melhor da panela! Se a gente ia a ter escrúpulos por causa dos amos, boa! Olha quem! Veem uma pessoa a morrer, e é como se fosse um cão.

E com um risinho amargo:

– Diz que me não demorasse no médico. É como quem diz: “cura-te Ou espicha depressa!”

Foi buscar a vassoura a um canto, e com um suspiro agudo:

– Todas o mesmo, uma récua!

Desceu, começou a varrer o corredor. - Toda a noite estivera doente: o quarto no sótão, debaixo das telhas, muito abafado, com um cheiro de tijolo cozido, dava-lhe enjoos, faltas de ar, desde o começo do verão; na véspera até vomitara! E já levantada às seis horas, não descansara, limpando, engomando, despejando, com a pontada no lado e todo o estômago embrulhado! - Tinha escancarado a cancela, e com grandes ais, atirava vassouradas furiosas contra as grades do corrimão.

– A senhora D. Luísa está em casa?

Voltou-se. Nos últimos degraus da escada estava um sujeito, que lhe pareceu estrangeirado. Era trigueiro, alto, tinha um bigode pequeno levantado, um ramo na sobrecasaca azul, e o verniz dos seus sapatos resplandecia.

– A senhora vai sair – disse ela olhando-o muito. - Faz favor de dizer quem é?

O indivíduo sorriu.

– Diga-lhe que é um sujeito para um negócio. Um negócio de minas.

Luísa, diante do toucador, já de chapéu, metia numa casa do corpete dois botões de rosa-chá.

– Um negócio! - disse muito surpreendida. - Deve ser algum recado para o Sr. Jorge, decerto! Mande entrar. Que espécie de homem é?

– Uma janota!

Luísa desceu o véu branco, calçou devagar as luvas de peau de suéde claras, deu duas pancadinhas fofas ao espelho na gravata de renda, e abriu a porta da sala. Mas quase recuou; fez “ah!” toda escarlate. Tinha-o reconhecido logo. Era o primo Basílio.

Houve um shake-hands demorado, um pouco trêmulo. Estavam ambos calados: - ela com todo o sangue no rosto, um sorriso vago; ele fitando-a muito, com um olhar admirado. Mas as palavras, as perguntas vieram logo, muito precipitadamente: - Quando tinha ele chegado? Se sabia que ele estava em Lisboa? Como soubera a morada dela?

Chegara na véspera no paquete de Bordéus. Perguntara no ministério; disseram4he que Jorge estava no Alentejo, deram-lhe a adresse…

– Como tu estás mudada, Santo Deus!

– Velha.

– Bonita!

– Ora!

E ele, que tinha feito? Demorava-se?

Foi abrir uma janela, dar uma luz larga, mais clara. Sentaram-se. Ele no sofá muito languidamente; ela ao pé, pousada de leve à beira de uma poltrona, toda nervosa.

Tinha deixado o “degredo” - disse ele. - Viera respirar um pouco à velha Europa. Estivera em Constantinopla, na Terra Santa, em Roma. O último ano em Paris! - Vinha de lá, daquela aldeola de Paris! - Falava devagar, recostado, com um ar íntimo, estendendo sobre o tapete, comodamente, os seus sapatos de verniz.

Luísa olhava-o. Achava-o mais varonil, mais trigueiro. No cabelo preto anelado havia agora alguns fios brancos; mas o bigode pequeno tinha o antigo ar moço, orgulhoso e intrépido; os olhos quando ria, a mesma doçura amolecida, banhada num fluido. Reparou na ferradura de pérola da sua gravata de cetim preto, nas pequeninas estrelas brancas bordadas nas suas meias de seda. A Bahia não o vulgarizara. Voltava mais interessante!

– Mas tu, conta-me de ti! - dizia ele com um sorriso, inclinado para ela. - És feliz, tens um pequerrucho…

– Não – exclamou Luísa rindo. - Não tenho! Quem te disse?

– Tinham-me dito. E teu marido demora-se?

– Três, quatro semanas, creio.

Quatro semanas! Era uma viuvez! Ofereceu-se logo para a vir ver mais vezes, palrar um momento, pela manhã…

– Pudera não! És o único parente que tenho agora…

Era verdade!… E a conversação tomou uma intimidade melancólica; falaram da mãe de Luísa, a “tia Jojó”, como lhe chamava Basílio. Luísa contou a sua morte muito doce, na poltrona, sem um ai…

Onde está sepultada? - perguntou Basílio com uma voz grave; e acrescentou puxando o punho da camisa de chita: - Está no nosso jazigo?

– Está.

– Hei de ir lá. Pobre tia Jojó!

Houve um silêncio.

– Mas tu ias sair! - disse Basílio de repente, querendo erguer-se.

– Não! - exclamou. - Não! Estava aborrecida, não tinha nada que fazer. Ia tomar ar. Não saio, já.

Ele ainda disse:

– Não te prendas…

– Que tolice! Ia à casa de uma amiga passar um momento.

Tirou logo o chapéu; naquele movimento, os braços erguidos repuxaram o colete justo, as formas do seio acusaram-se suavemente.

Basílio torcia a ponta do bigode devagar; e vendo-a descalçar as luvas:

– Era eu antigamente quem te calçava e descalçava as luvas… Lembras-te?… Ainda tenho esse privilégio exclusivo, creio eu…

Ela riu-se.

– Decerto que não…

Basílio disse então, lentamente, fitando o chão:

– Ah! Outros tempos!

E pôs-se a falar de Colares: a sua primeira ideia, mal chegara, tinha sido tomar uma tipoia e ir lá; queria ir ver a quinta; ainda existiria o balouço debaixo do castanheiro? Ainda haveria o caramanchão de rosinhas brancas, ao pé do Cupido de gesso que tinha uma asa quebrada?…

Luísa ouvira dizer que a quinta pertencia agora a um brasileiro; sobre a estrada havia um mirante com um teto chinês, ornado de bolas de vidro; e a velha casa morgada fora reconstruída e mobilada pelo Gardé.

– A nossa pobre sala de bilhar, cor de oca, com grinaldas de rosas! - disse Basílio; e fitando-a: - Lembraste das nossas partidas de bilhar?

Luísa, um pouco vermelha, torcia os dedos das luvas; ergueu os olhos para ele; disse sorrindo:

– Éramos duas crianças!

Basílio encolheu tristemente os ombros, fitou as ramagens do tapete; parecia abandonar-se a uma saudade remota, e com uma voz sentida:

– Foi o bom tempo! Foi o meu bom tempo!

Ela via a sua cabeça bem-feita, descaída naquela melancolia das felicidades passadas, com uma risca muito fina, e os cabelos brancos – que lhe dera a separação. Sentia também uma vaga saudade encher-lhe o peito: ergueu-se, foi abrir a outra janela, como para dissipar na luz viva e forte aquela perturbação. Perguntou-lhe então pelas viagens, por Paris, por Constantinopla.

Fora sempre o seu desejo viajar – dizia -,ir ao Oriente. Quereria andar em caravanas, balouçada no dorso dos camelos; e não teria medo, nem do deserto, nem das feras…

– Estás muito valente! - disse Basílio. - Tu eras uma maricas, tinhas medo de tudo… Até da adega, na casa do papá, em Almada!

Ela corou. Lembrava-se bem da adega, com a sua frialdade subterrânea que dava arrepios! A candeia de azeite pendurada na parede alumiava com uma luz avermelhada e fumosa as grossas traves cheias de teias de aranha, e a fileira tenebrosa das pipas bojudas. Havia ali às vezes, pelos cantos, beijos furtados…

Quis saber então o que tinha feito em Jerusalém; se era bonito.

Era curioso. Ia pela manhã um bocado ao Santo Sepulcro; depois do almoço montava a cavalo… Não se estava mal no hotel; inglesas bonitas… Tinha algumas intimidades ilustres…

Falava delas, devagar, traçando a perna; o seu amigo, o patriarca de Jerusalém, a sua velha amiga, a Princesa de La Tour d'Auvergne! Mas o melhor do dia era de tarde – dizia – no Jardim das Oliveiras, vendo defronte as muralhas do Templo de Salomão, ao pé a aldeia escura de Betânia onde Marta fiava aos pés de Jesus, e mais longe, faiscando imóvel sob o sol, o Mar Morto! E ali passava sentado num banco, fumando tranquilamente o seu cachimbo!

Se tinha corrido perigos?

Decerto. Uma tempestade de areia no deserto de Petra! Horrível! Mas que linda viagem, as caravanas, os acampamentos! Descreveu o seu toalete, uma manta de pele de camelo às listras vermelhas e pretas, um punhal de Damasco numa cinta de Bagdá, e a lança comprida dos beduínos.

– Devia-te ficar bem!

– Muito bem. Tenho fotografias.

Prometeu dar-lhe uma, e acrescentou:

– Sabes que te trago presentes?

– Trazes? - E os seus olhos brilhavam.

O melhor era um rosário…

– Um rosário?

– Uma relíquia! Foi benzido primeiro pelo patriarca de Jerusalém sobre o túmulo de Cristo, depois pelo papa…

Ah! Porque tinha estado com o papa! Um velhinho muito asseado, já todo branquinho, vestido de branco, muito amável!

– Tu dantes não eras muito devota – disse.

– Não, não sou muito caturra nessas coisas – respondeu rindo.

– Lembras-te da capela da nossa casa em Almada?

Tinham passado ali lindas tardes! Ao pé da velha capela morgada havia um adro todo cheio de altas ervas floridas – e as papoulas, quando vinha a aragem, agitavam-se como asas vermelhas de borboletas pousadas…

– E a tília, lembras-te, onde eu fazia ginástica?

– Não falemos no que lá vai!

Em que queria ela então que ele falasse? Era a sua mocidade, o melhor que tivera na vida…

Ela sorriu, perguntou:

– E no Brasil?

Um horror! Até fizera a corte a uma mulata.

– E por que te não casaste?… Estava a mangar! Uma mulata!

– E de resto – acrescentou com a voz de um arrependimento triste –, já que me não casei quando devia – encolheu os ombros melancolicamente –, acabou-se… Perdi a vez. Ficarei solteiro.

Luísa fez-se escarlate. Houve um silêncio.

– E qual é o outro presente, então, além do rosário?

– Ah! Luvas. Luvas de verão, de peau de suede, de oito botões. Luvas decentes. Vocês aqui usam umas luvitas de dois botões, a ver-se o punho, um horror!

De resto pelo que tinha visto, as mulheres em Lisboa cada dia se vestiam pior! Era atroz! Não dizia por ela; até aquele vestido tinha chique, era simples, era honesto. Mas em geral era um horror. Em Paris! Que deliciosas, que frescos os toaletes daquele verão! Oh! Mas em Paris!… Tudo é superior! Por exemplo, desde que chegara ainda não pudera comer. Positivamente não podia comer! - Só em Paris se come – resumiu.

Luísa voltava entre os dedos o seu medalhão de ouro, preso ao pescoço por uma fita de veludo preto.

– E estiveste então um ano em Paris?

Um ano divino. Tinha um apartamento lindíssimo, que pertencera a Lord Flamouth, Rue Saint Florentin; tinha três cavalos…

E recostando-se muito, com as mãos nos bolsos:

– Enfim, fazer este vale de lágrimas o mais confortável possível!… Dize cá, tens algum retrato nesse medalhão?

– O retrato de meu marido.

– Ah! Deixa ver!

Luísa abriu o medalhão. Ele debruçou-se; tinha o rosto quase sobre o peito dela. Luísa sentia o aroma fino que vinha de seus cabelos.

– Muito bem, muito bem! - fez Basílio.

Ficaram calados.

– Que calor que está! - disse Luísa. - Abafa-se, bem!

Levantou-se, foi abrir um pouco uma vidraça. O sol deixara a varanda. Uma aragem suave encheu as pregas grossas das bambinelas.

– É o calor do Brasil – disse ele. - Sabes que estás mais crescida?

Luísa estava de pé. O olhar de Basílio corria-lhe as linhas do corpo; e com a voz muito íntima, os cotovelos sobre os joelhos, o rosto erguido para ela:

– Mas, francamente, dize cá, pensaste que eu te viria ver?

– Ora essa! Realmente, se não viesses zangava-me. Es o meu único parente… O que tenho pena é que meu marido não esteja…

– Eu – acudiu Basílio – foi justamente por ele não estar…

Luísa fez-se escarlate. Basílio emendou logo, um pouco corado também:

– Quero dizer… talvez ele saiba que houve entre nós…

Ela interrompeu:

– Tolices! Éramos duas crianças. Onde isso vai!

– Eu tinha vinte e sete anos – observou ele, curvando-se.

Ficaram calados, um pouco embaraçados. Basílio cofiava o bigode, olhando vagamente em redor.

– Estás muito bem instalada aqui – disse.

Não estava mal… A casa era pequena, mas muito cômoda. Pertencia-lhes.

– Ah! Estás perfeitamente! Quem é esta senhora, com uma luneta de ouro?

E indicava o retrato por cima do sofá.

– A mãe de meu marido.

– Ah! Vive ainda?

– Morreu.

– É o que uma sogra pode fazer de mais amável…

Bocejou ligeiramente, fitou um momento os seus sapatos muito aguçados, e com um movimento brusco, ergueu-se, tomou o chapéu.

– Já? Onde estás?

– No Hotel Central. E até quando?

– Até quando quiseres. Não disseste que vinhas amanhã com o rosário?

Ele tomou-lhe a mão, curvou-se:

– Já se não pode dar um beijo na mão de uma velha prima?

– Por que não?

Pousou-lhe um beijo na mão, muito longo, com uma pressão doce.

– Adeus! - disse.

E à porta com o reposteiro meio erguido, voltando-se:

– Sabes, que eu, ao subir as escadas, vinha a perguntar a mim mesmo, como se vai isto passar?

– Isto quê? Vermo-nos outra vez? Mas, perfeitamente. Que imaginaste tu?

Ele hesitou, sorriu:

– Imaginei que não eras tão boa rapariga. Adeus. Amanhã, hem?

No fundo da escada acendeu o charuto, devagar.

- “Que bonita que ela está!” - pensou.

E arremessando o fósforo, com força:

- “E eu, pedaço de asno, que estava quase decidido a não a vir ver! Está de apetite! Está muito melhor! E sozinha em casa; aborrecidinha talvez!…”

Ao pé da Patriarcal fez parar um cupé vazio; e estendido, com o chapéu nos joelhos, enquanto a parelha esfalfada trotava:

- “E tem-me o ar de ser muito asseada, coisa rara na terra! As mãos muito bem tratadas! O pé muito bonito!”

Revia a pequenez do pé, pôs-se a fazer por ele o desenho mental de outras belezas, despindo-a, querendo adivinhá-la… A amante que deixara em Paris era alta e magra, de uma elegância de tísica; quando se decotava viam-se as saliências das suas primeiras costelas. E as formas redondinhas de Luísa decidiram-no:

– A ela! - exclamou com apetite. - A ela, como São Tiago, aos mouros!

Luísa, quando o sentiu embaixo fechar a porta da rua, entrou no quarto, atirou o chapéu para a causeuse, e foi-se logo ver ao espelho. Que felicidade estar vestida! Se ele a tivesse apanhado em roupão, ou mal penteada!… Achou-se muito afogueada, cobriu-se de pó de arroz. Foi à janela, olhou um momento a rua, o sol que batia ainda nas casas fronteiras. Sentia-se cansada. Aquelas horas Leopoldina estava a jantar já, decerto… Pensou em escrever a Jorge “para matar o tempo”, mas veio-lhe uma preguiça; estava tanto calor! Depois não tinha que lhe dizer! Começou então a despir-se devagar diante do espelho, olhando-se muito, gostando de se ver branca, acariciando a finura da pele, com bocejos lânguidos de um cansaço feliz. - Havia sete anos que não via o primo Basílio! Estava mais trigueiro, mais queimado; mas ia-lhe bem!

E depois de jantar ficou junto à janela, estendida na voltaire, com um livro esquecido no regaço. O vento caíra e o ar, de um azul forte nas alturas, estava imóvel; a poeira grossa pousara; a tarde tinha uma transparência calma de luz; pássaros chilreavam na figueira brava; da serralharia próxima saia o martelar continuo e sonoro de folhas de ferro. Pouco a pouco o azul desbotou; sobre o poente, laivos de cor de laranja desmaiada esbateram-se como grandes pinceladas desleixadas. Depois tudo se cobriu de uma sombra difusa, calada e quente, com uma estrelinha muito viva que luzia e tremia. E Luísa deixara-se ficar na voltaire esquecida, absorvida, sem pedir luz.

- “Que vida interessante a do primo Basílio!” - pensava. - “O que ele tinha visto!” Se ela pudesse também fazer as suas malas, partir, admirar aspectos novos e desconhecidos, a neve nos montes, cascatas reluzentes! Como desejaria visitar os países que conhecia dos romances – a Escócia e os seus lagos taciturnos, Veneza e os seus palácios trágicos; aportar às baias, onde um mar luminoso e faiscante morre na areia fulva; e das cabanas dos pescadores de teto chato, onde vivem as Grazielas, ver azularem-se ao longe as ilhas de nomes sonoros! E ir a Paris! Paris sobretudo! Mas, qual! Nunca viajaria decerto; eram pobres; Jorge era caseiro, tão lisboeta!

Como seria o patriarca de Jerusalém? Imaginava-o de longas barbas brancas, recamado de ouro, entre instrumentações solenes e rolos de incenso! E a Princesa de La Tour d'Auvergne? Devia ser bela, de uma estatura real, vivia cercada de pajens, namorara-se de Basílio. - A noite escurecia, outras estrelas luziam. - Mas de que servia viajar, enjoar nos paquetes, bocejar nos vagões, e, numa diligência muito sacudida, cabecear de sono pela serra nas madrugadas frias? Não era melhor viver num bom conforto, com um marido terno, uma casinha abrigada, colchões macios, uma noite de teatro às vezes, e um bom almoço nas manhãs claras quando os canários chalram? Era o que ela tinha. Era bem feliz. Então veio-lhe uma saudade de Jorge; desejaria abraçá-lo, tê-lo ali, ou descesse ir encontrá-lo fumando o seu cachimbo no escritório, com o seu de veludo. Tinha tudo, ele, para fazer uma mulher feliz e orgulhosa: era belo, com uns olhos magníficos, terno, fiel. Não gostaria de um marido com uma vida sedentária e caturra; mas a profissão de Jorge era interessante; descia aos tenebrosos das minas; um dia aperrara as pistolas contra uma malta revoltada; era valente; tinha talento! Involuntariamente, porém, o primo Basílio fazendo flutuar o seu bornous branco pelas planícies da Terra Santa, ou em Paris, direito na almofada, governando tranquilamente os seus cavalos inquietos – davam-lhe a ideia de uma outra existência mais poética, mais própria para os episódios do sentimento.

Do céu estrelado caía uma luz difusa; janelas alumiadas sobressaíam ao longe, abertas à noite abafada; voos de morcegos passavam diante da vidraça.

– A senhora não quer luz? - perguntou à porta a voz fatigada de Juliana.

– Ponha-a no quarto.

Desceu. Bocejava muito; sentia-se quebrada.

- "É trovoada" - pensou.

Foi à sala, sentou-se ao piano, tocou ao acaso bocados da Lúcia, da Sonâmbula, o Fado; e parando, os dedos pousados de leve sobre o teclado, pôs-se a pensar que Basílio devia vir no dia seguinte; vestiria o roupão novo de fular cor de castanho! Recomeçou o Fado, mas os olhos cerravam-se-lhe.

Foi para o quarto.

Juliana trouxe o rol e a lamparina. Vinha arrastando as chinelas, com um casabeque pelos ombros, encolhida e lúgubre. Aquela figura com um ar de enfermaria irritou Luísa:

– Credo, mulher! Você parece a imagem da morte!

Juliana não respondeu. Pousou a lamparina; apanhou, placa a placa, sobre a cômoda, o dinheiro das compras; e com os olhos baixos:

– A senhora não precisa mais nada, não?

– Vá-se, mulher, vá!

Juliana foi buscar o candeeiro de petróleo, subiu ao quarto. Dormia em cima, no sótão, ao pé da cozinheira.

Pareço-te a imagem da morte! - resmungava, furiosa.

O quarto era baixo, muito estreito, com o teto de madeira inclinado; o sol, aquecendo todo o dia as telhas por cima, fazia-o abafado como um forno; havia sempre à noite um cheiro requentado de tijolo escandecido. Dormia num leito de ferro, sobre um colchão de palha mole coberto de uma colcha de chita; da barra da cabeceira pendiam os seus bentinhos e a rede enxovalhada que punha na cabeça; ao pé tinha preciosamente a sua grande arca de pau, pintada de azul, com uma grossa fechadura. Sobre a mesa de pinho estava o espelho de gaveta, a escova de cabelos enegrecida e despelada, um pente de osso, as garrafas de remédio, uma velha pregadeira de cetim amarelo, e, embrulhada num jornal, a cuja de retrós dos domingos. E o único adorno das paredes sujas, riscadas da cabeça de fósforos – era uma litografia de Nossa Senhora das Dores por cima da cama, e um daguerreótipo onde se percebia vagamente, no reflexo espelhado da lâmina, os bigodes encerados e as divisas de um sargento.

– A senhora já se deitou, Sra. Juliana? - perguntou a cozinheira do quarto pegado, de onde saía uma barra de luz viva cortando a escuridão do corredor.

– Já se deitou, Sra. Joana, já. Está hoje com os azeites. Falta-lhe o homem!

Joana, às voltas, fazia ranger as madeiras velhas da cama. Não podia dormir! Abafava-se! Uf!

– Ai! E aqui! - exclamou Juliana.

Abriu o postigo que dava para os telhados, para deixar arejar; calçou as chinelas de tapete, e foi ao quarto de Joana. Mas não entrou, ficou à porta; era criada de dentro, evitava familiaridades. Tinha tirado a cuja, e com um lenço preto e amarelo amarrado na cabeça, o seu rosto parecia mais chupado, e as orelhas mais despegadas do crânio; a camisa decotada descobria as clavículas descarnadas; a saia curta mostrava as canelas muito brancas, muito secas. E com o casabeque pelos ombros, coçando devagarinho os cotovelos agudos:

– Diga-me cá, Sra. Joana – disse com a voz discreta –, aquele sujeito demorou-se muito? Reparou?

– Tinha saído naquele instantinho, quando vossemecê entrou. Uf!

Encalmada, quase descoberta, com as pernas muito abertas, Joana coçava-se furiosamente por baixo da grossa camisa com folhos à minhota que lhe descobria os peitos. Não podia parar com os percevejos! O raio do quarto tinha ninhos! Até sentia o estômago embrulhado.

– Ai! É um inferno! - disse com lástima Juliana. - Eu só adormeço com dia. Mas ainda eu agora reparo… Vossemecê tem São Pedro à cabeceira. É devoção?

– E o santo do meu rapaz – disse a outra. Sentou-se na cama. Uf! E então tinha estado toda a noite com uma sede!…

Saltou para o chão, com passadas rijas que faziam tremer o soalho, foi ao jarro, pô-lo à boca, bebeu uma tarraçada. A camisa justa, feita de pouca fazenda, mostrava as formas rijas e valentes.

– Pois eu fui ao médico – disse Juliana. E com um grande suspiro: - Ai! Isto só Deus, Sra. Joana! Isto só Deus!

Mas por que se não resolvia a Sra. Juliana a ir à mulher de virtude? Era a saúde certa. Morava ao Poço dos Negros; tinha orações e unguentos para tudo. Levava meia moeda pelo “preparo”.

– Que isso são humores, Sra. Juliana. O que vossemecê tem, são humores.

Juliana tinha dado dois passos para dentro do quarto. Quando se tratava de doenças, de remédios, tornava-se mais familiar.

Eu já me tenho lembrado… eu já me tenho lembrado de ir à mulher. Mas, meia moeda!

E ficou a olhar, tristemente, refletindo.

– É o que eu tenho junto para umas botinas de gáspea!

Eram o seu vício, as botinas! Arruinava-se com elas; tinha-as de duraque com ponteiras de verniz; de cordovão com laço; de pelica com pesponto de cor, embrulhadas em papéis de seda, na arca, fechadas – guardadas para os domingos.

Joana censurou-a.

– Ai! Eu, em se tratando do corpo, do interior, que o diabo leve os chiques!

Queixou-se também da sua miséria. Tinha pedido à senhora um mês adiantamento! Estava sem camisas! As duas que tinha eram uns trapos! Pelo gosto da que trazia, a desfazerem-se!

– Mas, então! - suspirou. - O meu rapaz precisou um dinheiro…

– Vossemecê também, Sra. Joana, deixa-se cardar pelo homem!

Joana sorriu.

– Ainda que eu tivesse de roer ossos, Sra. Juliana, a última migalha havia de ser para ele!

Juliana teve um risinho seco, e com a voz arrastada:

– Vale lá a pena!

Mas invejava asperamente a cozinheira pela posse daquele amor, pelas suas delícias. Repetiu, contrafeita:

– Vale lá a pena! Perfeito rapaz – continuou – o que veio hoje ver a senhora! Melhor que o homem!

E depois de uma pausa:

– Então esteve mais de duas horas?

– Tinha saído quando vossemecê entrou.

Mas o candeeiro de petróleo apagava-se, com um cheiro fétido e uma fumarada negra.

– Boa noite, Sra. Joana. Ainda vou rezar a minha coroa.

– Ó Sra. Juliana! - disse a outra de entre os lençóis. - Se vossemecê quer três salve-rainhas pela saúde do meu rapaz que tem estado adoentado, eu cá lhe rezava três pelas melhoras do peito.

– Pois sim, Sra. Joana!

Mas refletindo:

– Olhe. Eu do peito vou melhor; dê-mas antes para alívio das dores de cabeça. A Santa Engrácia!

– Como vossemecê quiser, Sra. Juliana.

– Se faz favor. Boa noite! Fica-lhe aí um cheiro! Credo!

Foi para o quarto. Rezou, apagou a luz. Um calor mole e contínuo caía do forro; começou a faltar-lhe o ar; tornou a abrir o postigo, mas o bafo quente que vinha dos telhados enjoava-a: e era assim todas as noites, desde o começo do estio! Depois as madeiras velhas fervilhavam de bicharia! Nunca, nunca, nas casas que servira, tinha tido um quarto pior. Nunca!

A cozinheira começou a ressonar ao lado. E acordada, às voltas, com aflições no coração, Juliana sentia a vida pesar-lhe, com uma amargura maior!

Nascera em Lisboa. O seu nome era Juliana Couceiro Tavira. Sua mãe fora engomadeira; e desde pequena tinha conhecido em casa um sujeito, a quem chamavam na vizinhança - o “Fidalgo”, a quem sua mãe chamava – o senhor D. Augusto. Vinha todos os dias, de tarde no verão, no inverno de manhã, para a saleta onde sua mãe engomava, e ali estava horas sentado no poial da janela que dava para um quintalejo, fumando cachimbo, cofiando em silêncio um enorme bigode preto. Como o poial era de pedra, punha-lhe em cima, com muito método, uma almofada de vento, que ele mesmo soprava. Era calvo, e trazia ordinariamente uma quinzena de veludo castanho e chapéu alto branco. Às seis horas levantava-se, esvaziava a almofada, estava um bocado a esticar as calças para cima, e saía, com a sua grossa bengala de cana-da-índia debaixo do braço, gingando da cinta. Ela e sua mãe iam então jantar na mesinha de pinho da cozinha debaixo de um postigo, diante do qual se balouçavam, de verão e de inverno, galhos magros de uma árvore-triste.

À noite o senhor D. Augusto voltava; trazia sempre um jornal; sua mãe fazia-lhe chá e torradas, servia-o, toda enlevada nele. Muitas vezes Juliana a vira chorar de ciúmes.

Um dia uma vizinha má, a quem ela não quisera ajudar a lavar a roupa, enfureceu-se, e atirando-lhe injúrias dos degraus da porta – gritou-lhe que sua mãe era uma desavergonhada, e que seu pai estava na África por ter morto o Rei de Copos!

Pouco tempo depois foi servir. Sua mãe morreu daí a meses, com uma doença de útero. Juliana só uma vez tornou a ver o senhor D. Augusto – uma tarde, com uma opa roxa, lúgubre, na procissão de Passos!

Servia, havia vinte anos. Como ela dizia, mudava de amos, mas não mudava de sorte. Vinte anos a dormir em cacifos, a levantar-se de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a sofrer os repelões das crianças e as más palavras das senhoras, a fazer despejos, a ir para o hospital quando vinha a doença, a esfalfar-se quando voltava a saúde!… Era demais! Tinha agora dias em que só de ver o balde das águas sujas e o ferro de engomar se lhe embrulhava o estômago. Nunca se acostumara a servir. Desde rapariga a sua ambição fora ter um negociozito, uma tabacaria, uma loja de capelista ou de quinquilharias, dispor, governar, ser patroa; mas, apesar de economias mesquinhas e de cálculos sôfregos, o mais que conseguira juntar foram sete moedas ao fim de anos; tinha então adoecido; com o horror do hospital fora tratar-se para casa de uma parenta; e o dinheiro, ai! derretera-se! No dia em que se trocou a última libra, chorou horas com a cabeça debaixo da roupa.

Ficou sempre adoentada desde então; perdeu toda a esperança de se estabelecer. Teria de servir até ser velha, sempre, de amo em amo! Essa certeza dava-lhe uma desconsolação constante. Começou a azedar-se.

E depois não tinha “jeito”, não sabia tirar partido das casas; via companheiras divertir-se, vizinhar, janelar, bisbilhotar, sair aos domingos às hortas e aos retiros; levar o dia cantando, e quando as patroas iam ao teatro, abrir a porta aos derriços – e patuscar pelos quartos! Ela não. Sempre fora embezerrada. Fazia a sua obrigação, comia, ia estirar-se sobre a cama; e aos domingos, quando não passeava, encostava-se a uma janela, com o lenço sobre o peitoril para não roçar as mangas, e ali estava imóvel, a olhar, com o seu broche de filigrana e a cuia dos dias santos! Outras companheiras eram muito das amas, faziam-se muito humildes, sabujavam, traziam de fora as histórias da rua, e cartinhas levadas e recadinhos para dentro e para fora, muito confidentes – muito presenteadas também! Ela não podia. Era “minha senhora isto! minha senhora aquilo!” E cada uma no seu lugar! Era gênio!

Desde que servia, apenas entrava numa casa sentia logo, num relance, a hostilidade, a malquerença; a senhora falava-lhe com secura, de longe; as crianças tomavam-lhe birra; as outras criadas, se estavam chalrando, calavam-se, mal a sua figura esguia aparecia; punham-lhe alcunhas – a “Isca Seca”, a “Fava Torrada”, o “Saca Rolhas”; imitavam-lhe os trejeitos nervosos; havia risinhos, cochichos pelos cantos; e só tinha encontrado alguma simpatia nos galegos taciturnos, cheios de uma saudade morrinhenta, que vêm de manhã quando ainda os quartos estão escuros, com as suas grossas passadas, encher os barris, engraxar o calçado.

Lentamente, começou a tornar-se desconfiada, cortante como um nordeste; tinha respostadas, questões com as companheiras; não se havia de deixar pôr o pé no pescoço!

As antipatias que a cercavam faziam-na assanhada, como um círculo de espingardas enraivece um lobo. Fez-se má; beliscava crianças até lhes enodoar a pele; e se lhe ralhavam, a sua cólera rompia em rajadas. Começou a ser despedida. Num só ano esteve em três casas. Saía com escândalo, aos gritos, atirando as portas, deixando as amas todas pálidas, todas nervosas…

A inculcadeira, a sua velha amiga, a tia Vitória, disse-lhe:

– Tu acabas por não ter onde te arrumar, e falta-te o bocado do pão!

O pão! Aquela palavra que é o terror, o sonho, a dificuldade do pobre assustou-a. Era fina, e dominou-se. Começou a fazer-se “uma pobre mulher”, com afetações de zelo, um ar de sofrer tudo, os olhos no chão. Mas roía-se por dentro; veio-lhe a inquietação nervosa dos músculos da face, o tique de franzir o nariz; a pele esverdeou-se lhe de bílis.

A necessidade de se constranger trouxe-lhe o hábito de odiar; odiou sobretudo as patroas, com um ódio irracional e pueril. Tivera-as ricas, com palacetes, e pobres, mulheres de empregados, velhas e raparigas, coléricas e pacientes; - odiava-a todas, sem diferença. É patroa e basta! Pela mais simples palavra, pelo ato mais trivial! Se as via sentadas: “Anda, refestela-te, que a moura trabalha!” Se as via sair: “Vai-te, a negra cá fica no buraco!” Cada riso delas era uma ofensa à sua tristeza doentia; cada vestido novo uma afronta ao seu velho vestido de merino tingido. Detestava-as na alegria dos filhos e nas prosperidades da casa. Rogava-lhes pragas. Se os amos tinham um dia de contrariedade, ou via as caras tristes, cantarolava todo o dia em voz de falsete a “Carta Adorada”! Com que gosto trazia a conta retardada de um credor impaciente, quando pressentia embaraços na casa! “Este papel!” - gritava com uma voz estridente - “diz que não se vai embora sem uma resposta!” Todos os lutos a deleitavam – e sob o xale preto, que lhe tinham comprado, tinha palpitações de regozijo. Tinha visto morrer criancinhas, e nem a aflição das mães a comovera; encolhia os ombros: “Vai dali, vai fazer outro. Cabras!”

As boas palavras mesmo, as condescendências eram perdidas com ela, como gotas de água lançadas no fogo. Resumia as patroas na mesma palavra – uma récua! E detestava as boas pelos vexames que sofrera das más. A ama era para ela o inimigo, o tirano. Tinha visto morrer duas – e de cada vez sentira, sem saber por quê, um vago alívio, como se uma porção do vasto peso, que a sufocava na vida, se tivesse desprendido e evaporado!

Sempre fora invejosa; com a idade aquele sentimento exagerou e de um modo áspero. Invejava tudo na casa: as sobremesas que os amos comiam, a roupa branca que vestiam. As noites de soirée, de teatro, exasperavam-na. Quando havia passeios projetados, se chovia de repente, que felicidade! O aspecto das senhoras vestidas e de chapéu, olhando por dentro da vidraça com um tédio infeliz, deliciava-a, fazia-a loquaz:

– Ai, minha senhora! É um temporal desfeito! É a cântaros; está para todo o dia! Olha o ferro!

E muito curiosa; era fácil encontrá-la, de repente, cosida por detrás de uma porta com a vassoura a prumo, o olhar aguçado. Qualquer carta que vinha era revirada, cheirada… Remexia sutilmente em todas as gavetas abertas; vasculhava em todos os papéis atirados. Tinha um modo de andar ligeiro e surpreendedor. Examinava as visitas. Andava à busca de um segredo, de um bom segredo! Se lhe caía um nas mãos!

Era muito gulosa. Nutria o desejo insatisfeito de comer bem, de petiscos, de sobremesas. Nas casas em que servia ao jantar, o seu olho avermelhado seguia avidamente as porções cortadas à mesa; e qualquer bom apetite que repetia exasperava-a, como uma diminuição da sua parte. De comer sempre os restos ganhara o ar agudo – o seu cabelo tomara tons secos, cor de rato. Era lambareira: gostava de vinho; em certos dias comprava uma garrafa de oitenta réis, e bebia-a só, fechada, repimpada, com estalos da língua, a orla do vestido um pouco erguida, revendo-se no pé.

E nunca tivera um homem; era virgem. Fora sempre feia, ninguém a tentara; e, por orgulho, por birra, com receio de uma desfeita, não se oferecera, como vira muitas, claramente. O único homem que a olhara com desejo tinha sido um criado de cavalariça, atarracado e imundo, de aspecto facínora; a sua magreza, a sua cuia, o seu ar domingueiro tinham excitado o bruto. Fitava-a com um ar de bitídogue. Causara-lhe horror – mas vaidade. E o primeiro homem por quem ela sentira, um criado bonito e alourado, rira-se dela, pusera-lhe o nome de "Isca Seca. Não contou mais com os homens, por despeito, por desconfiança de si mesma. As rebeliões da natureza, sufocava-as; eram fogachos, flatos. Passavam. Mas faziam-na mais seca; e a falta daquela grande consolação agravava a miséria da sua vida.

Um dia teve, enfim, uma grande esperança. Entrara para o serviço da senhora D. Virgínia Lemos, uma viúva rica, tia de Jorge, muito doente, quase a morrer com um catarro de bexiga. A tia Vitória, a inculcadeira, preveniu-a:

– Tu trata a velha, apaparica-a, que ela o que quer é uma enfermeira que a sofra. É rica, não é nada apegada ao dinheiro; é capaz de te deixar uma independência!

Durante um ano Juliana, roída de ambição, foi a enfermeira da velha. Que zelos! Que mimos!

Virgínia era muito rabugenta; a ideia de morrer enfurecia-a; quanto mais ela ralhava com a sua voz gutural, mais Juliana se fazia serviçal. A velha, por fim, estava enternecida, gabava-a às pessoas que a vinham ver, chamava-lhe a sua providência. Tinha-a recomendado muito a Jorge.

– Não há outra! Não há outra! - exclamava.

– Pois apanhaste – dizia-lhe a tia Vitória. - Pelo menos deixa-te o teu conto de réis.

Um conto de réis! Juliana, de noite, enquanto a velha gemia no seu antigo leito de pau-santo, via o conto de réis à claridade mórbida que dava a lamparina, reluzir em pilhas de ouro inesgotável e prodigioso. Que faria com o dinheiro? E, à cabeceira da doente com um cobertor pelos ombros, os olhos dilatados e fixos, planeava: poria uma loja de capelista! Vinham-lhe logo lampejos vivos de outras felicidades: um conto de réis era um dote, poderia casar, teria um homem!

Estavam acabadas as canseiras. ia jantar, enfim, o seu jantar! Mandar, enfim, a sua criada! A sua criada! Via-se a chamá-la, a dizer-lhe, de cima para baixo: Faça, vá, despeje, saia!" - Tinha contrações no estômago, de alegria. Havia de ser boa ama. Mas que lhe andassem direitas! Desmazelos, más respostas, não havia de sofrer a criadas! - E, impelida por aquelas imaginações, arrastava sutilmente as chinelas pelo quarto, falando só. - Não, desmazelos, não havia de Sofrer! Mantê-las bem, decerto, porque quem trabalha precisa meter para dentro! Mas havia de lho tirar do corpo. Ah! Lá isso, haviam de lhe andar direitas… A velha tinha então um gemido mais aflito.

- "É agora!" - pensava. - “Morre!”

E o seu olhar ansioso ia logo para a gaveta da cômoda, onde estava decerto os papéis. Mas não! A velha queria beber, ou voltar-se…

– Como se sente? - perguntava Juliana, com uma voz plangente. Melhor, Juliana, melhor – murmurava.

Supunha-se sempre melhor.

– Mas a senhora tem estado desinquieta! - dizia Juliana, despeitada da melhora.

– Não – suspirava – dormi bem!

– Isso não tem dormido… Tenho-a ouvido gemer! Tem estado toda a noite a gemer!

Queria argumentar com ela, convencê-la que estava pior! Convencer-se a si mesma que o alívio era efêmero, que ia morrer depressa! E todas as manhãs seguia o Dr. Pinto até a porta, com os braços cruzados, a face triste:

– Então, senhor doutor, não há esperança?

– Está por dias!

Queria saber os dias: dois? Cinco?

– Sim, Sra. Juliana – dizia o velho, calçando as suas luvas pretas – uns dias, sete, oito.

– Oito dias!

E como a felicidade se aproximava, já tinha de olho três pares de botinas que vira na vidraça do Manuel Lourenço!

A velha, enfim, morreu. Nem a mencionava no testamento!

Veio-lhe uma febre. Jorge, agradecido pelos cuidados dela com a tia Virgínia, pagou-lhe um quarto no hospital, e prometeu tomá-la para criada de dentro. A que tinha, uma Emília muito bonita, ia casar.

Quando saiu do hospital para casa de Jorge, começava a queixar-se mais do coração. Vinha desiludida de tudo; tinha às vezes vontade de morrer. Ouviam-se todo o dia pela casa os seus ais. Luísa achava-a fúnebre.

Quis despedi-la ao fim de duas semanas, Jorge não consentiu; estava em dívida com ela, dizia. Mas Luísa não podia disfarçar a sua antipatia; - e Juliana começou a detestá-la; pôs-lhe logo um nome: a “Piorrinha”! Depois, dai a semanas, viu vir os estofadores; renovava-se a mobília da sala! A tia Virgínia deixara três contos de réis a Jorge – e ela, ela que durante um ano fora a enfermeira, humilde como um cão e fixa como uma sombra, aturando o mostrengo, tinha em paga ido para o hospital, com uma febre, das noitadas, das canseiras! Julgava-se vagamente roubada. Começou a odiar a casa.

Tinha para isso muitas razões, dizia: dormia num cubículo abafado; ao jantar não lhe davam vinho, nem sobremesa; o serviço dos engomados era pesado; Jorge e Luísa tomavam banho todos os dias, e era um trabalhão encher, despejar todas as manhãs as largas bacias de folha; achava despropositada aquela mania de se porém a chafurdar todos os dias que Deus deitava ao mundo; tinha servido vinte amos e nunca vira semelhante despropósito! A única vantagem – dizia ela à tia Vitória – era não haver pequenos; tinha horror a crianças! Além disso achava que o bairro era saudável; e como tinha a cozinheira “na mão”, não é verdade? Havia aquele regalo dos caldinhos, de algum prato melhor de vez em quando! Por isso ficava; se não, não era ela!

Fazia, no entanto, o seu serviço; ninguém tinha nada que lhe dizer. O olho aberto sempre e o ouvido à escuta, já se vê! E como perdera a esperança de se estabelecer, não se sujeitava ao rigor de economizar; por isso ia-se consolando com algumas pinguinhas, de vez em quando; e satisfazia o seu vício – trazer o catita. O pé era o seu orgulho, a sua mania, a sua despesa. Tinha-o bonito e pequenino.

– Como poucos – dizia ela –, não vai outro ao Passeio!

E apertava-o, aperreava-o; trazia os vestidos curtos, lançava-o muito para fora. A sua alegria era ir aos domingos para o Passeio Público, e ali, com a orla do vestido erguida, a cara sob o guarda solinho de seda, estar a tarde inteira na poeira, no calor, imóvel, feliz – a mostrar, a expor o pé!

CAPÍTULO IV

Pelas três horas da tarde, Juliana entrou na cozinha e atirou-se para uma cadeira, derreada. Não se tinha nas pernas de debilidade! Desde as duas horas que andava a arrumar a sala! Estava um chiqueiro. O peralta na véspera até deixara cinza de tabaco por cima das mesas! A negra é que as pagava. E que calor! Era de derreter! Uf!

– O caldinho há de estar pronto, hem! - disse, adocicando a voz. - Tira-mo, Sra. Joana, faz favor?

– Vossemecê hoje está com outra cara – notou a cozinheira.

– Ai! Sinto-me outra, Sra. Joana! Pois olhe que adormeci com dia, já luzia o dia!

– E eu! - Tinha tido cada sonho! Credo! Uma avantesma cor de fogo a passear-lhe por cima do corpo, e cada pancada na boca do estômago, como quem pisava uvas num lagar!

– Enfartamento – disse sentenciosamente Juliana, e repetiu:

– Pois eu sinto-me outra. Há meses que me não sinto tão bem!

Sorri com os seus dentes amarelados. O caldo que Joana deitava na malga branca com um vapor cheiroso, cheio de hortaliça dava-lhe uma alegria gulosa. Estendeu os pés, recostou-se, feliz, na boa sensação da tarde quente e luminosa, entrando largamente pelas duas janelas abertas.

O sol retirara-se da varanda, e sobre a pedra, em vasos de barro, plantas pobres encolhiam a sua folhagem chupada do calor; sobre uma tábua a um canto, numa velha panela bojuda, verdejava um pé de salsa muito tratado; o gato dormia sobre um esteirão; esfregões secavam numa corda; e para além alargava-se o azul vivo como um metal candente, as árvores dos quintais tinham tons ardentes do sol, os telhados pardos com as suas vegetações esguias coziam no calor e pedaços de paredes caiadas despediam uma rebrilhação dura.

– Está de apetite, Sra. Joana, está de apetite! - dizia Juliana, remexendo o caldo devagarinho, com gula. A cozinheira de pé, com os braços cruzados sobre o seu peito abundante, regozijava-se:

– O que se quer é que esteja a gosto.

– Está a preceito.

Sorriam, contentes da intimidade, das boas palavras. - E a campainha da porta que já tinha tocado, tornou a tilintar discretamente.

Juliana não se mexeu. Bafos de aragem quente entravam; ouvia-se ferver a panela no fogão, e fora o martelar incessante da forja; às vezes o arrulhar triste de duas rolas que viviam na varanda, numa gaiola de vime, punha na tarde abrasada uma sensação de suavidade.

A campainha retilintou, sacudida com impaciência.

– Com a cabeça, burro! - disse Juliana.

Riram. Joana fora sentar-se à janela, numa cadeira baixa; estendia os seus grossos pés, calçados de chinelas de ourelo; coçava-se devagarinho, no sovaco, toda repousada.

A campainha retiniu violentamente.

– Fora, besta! - rosnou Juliana, muito tranquila.

Mas a voz irritada de Luísa chamou debaixo:

– Juliana!

– Que nem uma pessoa pode tomar a sustância sossegada! Raio de casa! Irra!

– Juliana! - gritou Luísa.

A cozinheira voltou-se, já assustada:

– A senhora zanga-se, Sra. Juliana.

– Que a leve o diabo!

Limpou os beiços gordurosos ao avental, desceu furiosa.

– Você não ouve, mulher? Estão a bater há uma hora!

Juliana arregalou os olhos espantada; Luísa tinha vestido um roupão novo de fular cor de castanho, com pintinhas amarelas!

- “Temos novidade! Temo-la grossa!” - pensou Juliana pelo corredor.

A campainha repicava. E no patamar, vestido de claro, com uma rosa ao peito, um embrulho debaixo do braço, estava o “sujeito do negócio das minas!”

– Aquele sujeito de ontem! - veio dizer, toda pasmada.

– Mande entrar…

- “Viva!” - pensou.

Galgou a escada da cozinha, disse logo da porta, com a voz aguda de júbilo:

– Está cá o peralta de ontem! Está cá outra vez! Traz um embrulho! Que lhe parece, Sra. Joana? Que lhe parece?

– Visitas… - disse a cozinheira.

Juliana teve um risinho seco. Sentou-se, acabou o seu caldo, à pressa.

Joana indiferente cantarolava pela cozinha, o arrulhar das rolas continuava langoroso e débil.

– Pois, senhores, isto vai rico! - disse Juliana.

Esteve um momento a limpar os dentes com a língua, o olhar fixo, refletindo. Sacudiu o avental, e desceu ao quarto de Luísa; o seu olhar esquadrinhador avistou logo sobre o toucador as chaves esquecidas da despensa; podia subir, beber um trago de bom vinho, engolir dois ladrilhos de marmelada… Mas possuía-a uma curiosidade urgente, e, em bicos de pés, foi agachar-se à porta que dava para a sala, espreitou. O reposteiro estava corrido por dentro; podia apenas sentir a voz grossa e jovial do sujeito. Foi de volta, pelo corredor, à outra porta, ao pé da escada; pôs o olho à fechadura, colou o ouvido à frincha. O reposteiro dentro estava também cerrado.

- “Os diabos calafetaram-se!” - pensou.

Pareceu-lhe que se arrastava uma cadeira, depois que se fechava uma vidraça. Os olhos faiscavam lhe. Uma risada de Luísa sobressaiu; em seguida um silêncio; e as vozes recomeçaram num tom sereno e contínuo. De repente o sujeito ergueu a fala, e entre as palavras que dizia, de pé decerto, passeando, Juliana ouviu claramente: “Tu, foste tu!”

– Oh, que bêbeda!

Um tilim tlim tímido da campainha, ao lado, assustou-a. Foi abrir. Era Sebastião muito vermelho do sol, com as botas cheias de pó.

– Está? - perguntou, limpando a testa suada.

– Está com uma visita, Sr. Sebastião!

E cerrando a porta sobre si, mas baixo:

– Um rapaz novo que já cá esteve ontem, um janota! Quer que vá dizer?

– Não, não, obrigado, adeus.

Desceu discretamente. Juliana voltou logo a encostar-se à porta, a orelha contra a madeira, as mãos atrás das costas; mas a conversação, sem saliência de vozes; tinha um rumor tranquilo e indistinto. Subiu à cozinha.

– Tratam-se por tu! - exclamou. - Tratam-se por tu, Sra. Joana! E muito excitada:

– Isto vai à vela! Cáspite! Assim é que eu gosto delas!

O sujeito saiu às cinco horas. Juliana, apenas sentiu abrir-se a porta, veio a correr; viu Luísa no patamar, debruçada no corrimão, dizendo para baixo, com muita intimidade:

– Bem, não falto. Adeus.

Ficou então tomada de uma curiosidade que a alterava como uma febre. Toda a tarde, na sala de jantar, no quarto, esquadrinhou Luísa com olhares de lado. Mas Luísa, com um roupão de linho mais velho, parecia serena, muito indiferente.

- “Que sonsa!”

Aquela naturalidade despertava a sua bisbilhotice.

- “Eu hei de te apanhar, desavergonhada!” - calculava.

Afigurou-se-lhe que Luísa tinha os olhos um pouco pisados. Estudava-lhe as posições, os tons de voz. Viu-a repetir o assado – pensou logo:

- “Abriu-lhe o apetite”!

E quando Luísa ao fim do jantar se estendeu na voltaire com um ar quebrado.

- “Ficou derreada”.

Luísa que nunca tomava café, quis nessa tarde “meia chávena, mas forte, muito forte”.

– Quer café! - veio ela dizer à cozinheira, toda excitada. - Tudo à grande. E do forte. Quer do forte! Ora o diabo!

Estava furiosa.

– Todas o mesmo! Uma récua de cabras!

Ao outro dia era domingo. Logo pela manhã cedo, quando Juliana ia para a missa, Luísa chamou-a da porta do quarto, deu-lhe uma carta para levar a D. Felicidade. Ordinariamente mandava um recado; - e a curiosidade de Juliana acendeu-se logo diante daquele sobrescrito fechado e lacrado com o sinete de Luísa, um L gótico dentro de uma coroa de rosas.

– Tem resposta?

– Tem.

Quando voltou às dez horas, com um bilhete de D. Felicidade, Luísa quis saber se havia muito calor, se fazia poeira. Sobre a mesa estava um chapéu de palha escuro, que ela estivera a enfeitar com duas rosas-de-musgo.

Fazia um bocadinho de vento, mas para a tarde abrandava, decerto. E pensou logo: -“Temos passeata, vai ter com o gajo!”

Mas durante todo o dia, Luísa em roupão não saiu do seu quarto ou da sala, ora estendida na causeuse lendo aos bocados, ora batendo distraidamente no piano, pedaços de valsas. Jantou às quatro horas. A cozinheira saiu, e Juliana pôs-se a passar a sua tarde à janela da sala de jantar. Tinha o vestido novo, as saias muito rijas de goma, a cuia dos dias santos – e pousava solenemente os cotovelos num lenço, estendido sobre o peitoril da varanda. Defronte os pássaros chilreavam na figueira brava. Dos dois lados do tabique que cercava o terreno vago, agachavam-se os tetos escuros das duas ruazitas paralelas; eram casas pobres onde viviam mulheres, que pela tarde, em chambre ou de garibáldi, os cabelos muito oleosos, faziam meia à janela, falando aos homens, cantarolando com um tédio triste. Do outro lado do terreno, verduras de quintais, muros brancos davam àquele sítio um ar adormecido de vila pacata. Quase ninguém passava. Havia um silêncio fatigado; e só às vezes o som distante de um realejo, que tocava a Norma ou a Lúcia, punha uma melancolia na tarde. - E Juliana ali estava imóvel até que os tons quentes da tarde empalideciam, e os morcegos começavam a voar.

Pelas oito horas entrou no quarto de Luísa – ficou pasmada de a ver vestida toda de preto, de chapéu! Tinha acendido as serpentinas na parede, os castiçais no toucador; e sentada à beira da causeuse calçava as luvas devagar, com a face muito séria, um pouco esbatida de pó de arroz, o olhar cheio de brilho.

– O vento abrandou? - disse.

– Está a noite muito bonita, minha senhora.

Um pouco antes das nove horas uma carruagem parou à porta. Era D. Felicidade, muito encalmada. Abafara todo o dia! E à noite nem uma aragem! Até tinha mandado buscar uma carruagem descoberta, que num cupê, credo, morria-se.

Juliana pelo quarto arrumava, dobrava, toda curiosa. Onde iriam? Onde iriam? D. Felicidade, amplamente sentada, de chapéu, tagarelava; uma indigestão que tivera na véspera com umas vagens; a cozinheira que a tinha querido comer em quatro vinténs; uma visita que lhe fizera a Condessa de Arruela…

Enfim, Luísa, disse, baixando o seu véu branco:

– Vamos, filha. Faz-se tarde.

Juliana foi-lhes alumiar, furiosa. Olha que propósito, irem duas mulheres sós por aí fora, numa tipoia! E se uma criada então se demorava na rua mais meia hora, credo, que alarido! Que duas bêbedas!

Foi à cozinha desabafar com a Joana. Mas a rapariga, estirada numa cadeira, dormitava.

Fora com o seu Pedro ao Alto de São João. E toda a tarde tinham passeado no cemitério, muito juntos, admirando os jazigos, soletrando os epitáfios, beijocando-se nos recantos que os chorões escureciam, e regalando-se do ar dos e das relvas dos mortos. Voltaram por casa da Serena, entraram a um quartilho no Espregueira… Tarde cheia! E estava derreada da soalheira, do pó, da admiração de tanto túmulo rico, do homem, e da pinguita d'vinho.

O que ia, era refestelar-se para a cama!

– Credo, Sra. Joana, vossemecê está-se a fazer uma dorminhoca! Olha que mulher! Com pouco arreia! Cruzes!

Desceu ao quarto de Luísa, apagou as luzes, abriu as janelas, arrastou a poltrona para a varanda – e, repimpada, os braços cruzados, pôs-se a passar a noite.

O estanque ainda não se fechara, e a sua luzita lúgubre como a estanqueira, estendia-se tristemente sobre a pedra miúda da rua; as janelas ao pé estavam abertas, por algumas, mal alumiadas, viam-se dentro serões melancólicos; noutras, vultos imóveis, luzia às vezes a ponta de um cigarro; aqui, além tossia-se do padeiro; e o moço do padeiro, no silêncio quente da noite, harpejava baixinho a guitarra.

Juliana pusera um vestido de chita claro; dois sujeitos que estavam à porta riam, erguiam de vez em quando os olhos para a janela, para aquele de mulher: Juliana, então, gozou! Tomavam-na decerto pela senhora, pela do Engenheiro; faziam-lhe olho, diziam brejeirices… Um tinha calça branca e chapéu alto, eram janotas… E com os pés muito estendidos, os braços cruzados, de lado, saboreava, longamente, aquela consideração.

Passos fortes que subiam a rua, pararam à porta; a campainha retiniu de leve

– Quem é? - perguntou muito impaciente.

– Está? - disse a voz grossa de Sebastião.

– Saiu com a D. Felicidade; foram de carruagem.

– Ah! - fez ele.

E acrescentou:

– Muito bonita noite!

– De apetite, Sr. Sebastião! De apetite! - exclamou alto.

E quando o viu descer a rua, gritou, afetadamente:

– Recados a Joana! Não se esqueça! - mostrando-se íntima, madama, com olho terno para os homens.

Aquela hora D. Felicidade e Luísa chegavam ao Passeio.

Era benefício; já de fora se sentia o bruaá lento e monótono, e via-se uma névoa alta de poeira, amarelada e luminosa.

Entraram. Logo ao pé do tanque encontraram Basílio. Fez-se muito surpreendido, exclamou:

– Que feliz acaso!

Luísa corou; apresentou-o a D. Felicidade.

A excelente senhora teve muitos sorrisos. Lembrava-se dele, mas se não lhe dissessem talvez o não conhecesse! Estava muito mudado!

– Os trabalhos, minha senhora… - disse Basílio curvando-se. E acrescentou rindo, batendo com a bengala na pedra do tanque:

– E a velhice! Sobretudo a velhice!

Na água escura e suja as luzes do gás torciam-se até uma grande profundidade. As folhagens em redor estavam imóveis, no ar parado, com tons de um verde lívido e artificial. Entre os dois longos renques paralelos de árvores mesquinhas, entremeadas de candeeiros de gás, apertava-se, num empoeiramento de macadame, uma multidão compacta e escura; e através do rumor grosso, as saliências metálicas da música faziam passar no ar pesado, compassos vivos de valsa.

Tinham ficado parados, conversando.

– Que calor, hem? Mas a noite estava linda! Nem uma aragem! Que enchente!

E olhavam a gente que entrava: moços muito frisados, com calças cor de flor de alecrim, fumando cerimoniosamente os charutos do dia santo; um aspirante com a cinta espartilhada e o peito enchumaçado; duas meninas de cabelo riçado, de movimentos gingados que lhe desenhavam os ossos das omoplatas sob a fazenda do vestido atabalhoado; um eclesiástico cor de cidra, o ar mole, o cigarro na boca, e lunetas defumadas; uma espanhola com dois metros de saia branca muito rija, fazendo ruge-ruge na poeira; o triste Xavier, poeta; um fidalgo de jaquetão e bengalão, de chapéu na nuca, o olho avinhado; e Basílio ria muito de dois pequenos que o pai conduzia com um ar hilare e compenetrado – vestidos de azul-claro, a cinta ligada numa faixa escarlate, barretinas de lanceiros, botas à húngara, cretinos e sonâmbulos.

Um sujeito alto então passou rente deles, e voltando-se, revirou para Luísa dois grandes olhos langorosos e prateados; tinha uma pera longa e aguçada; trazia o colete decotado mostrando um belo peitilho, e fumava por uma boquilha enorme que representava um zuavo.

Luísa quis-se sentar.

Um garoto de blusa, sujo como um esfregão, correu a arranjar cadeiras; e acomodaram-se ao pé de uma família acabrunhada e taciturna.

– Que fizeste tu hoje, Basílio? - perguntou Luísa.

Tinha ido aos touros.

– E que tal? Gostaste?

– Uma sensaboria. Se não fosse pelo trambolhão do Peixinho tinha-se morrido de pasmaceira. Gado fraco, cavaleiros infelizes, nenhuma sorte! Touros em Espanha! Isso sim!

D. Felicidade protestou. Que horror! Tinha-os visto em Badajoz, quando estivera de visita em Elvas à tia Francisca de Noronha, e ia desmaiando. O sangue, as tripas dos cavalos… “Puh! E muito cruel!”

Basílio disse, com um sorriso:

– Que faria se visse os combates de galos, minha senhora!

D. Felicidade tinha ouvido contar – mas achava todos esses divertimentos bárbaros, contra a Religião.

E recordando um gozo que lhe punha um riso na face gorda:

– Para mim não há nada como uma boa noite de teatro! Nada!

– Mas aqui representam tão mal! - replicou Basílio com uma voz desolada. - Tão mal, minha rica senhora!

D. Felicidade não respondeu; meio erguida na cadeira, o olhar avivado de um brilho úmido, saudava desesperadamente com a mão:

– Não me viu – disse desconsolada.

– Era o Conselheiro? - perguntou Luísa.

– Não. Era a Condessa de Alviela. Não me viu! Vai muito à Encarnação, sou muito dela. É um anjo! Não me viu. Ia com o sogro.

Basílio não tirava os olhos de Luísa. Sob o véu branco, à luz falsa do gás, no ar enevoado da poeira, o seu rosto tinha uma forma alva e suave, onde os olhos que a noite escurecia punham uma expressão apaixonada; os cabelinhos louros, frisados tornando a testa mais pequena, davam-lhe uma graça ameninada e amorosa; e as luvas gris perle faziam destacar sobre o vestido negro o desenho elegante das mãos, que ela pousara no regaço, sustentando o leque, com uma fofa renda branca em torno dos seus pulsos finos.

– E tu, que fizeste hoje? - perguntou-lhe Basílio.

Tinha-se aborrecido muito. Estivera todo o santo dia a ler.

Também ele passara a manhã deitado no sofá a ler a Mulher de Fogo de Belot. Tinha lido, ela?

– Não, que é?

– É um romance, uma novidade.

E acrescentou sorrindo:

– Talvez um pouco picante; não to aconselho!

D. Felicidade andava a ler o Rocambole. Tanto lho tinham apregoado! Mas era uma tal trapalhada! Embrulhava-se, esquecia-se… E ia deixar, porque tinha percebido que a leitura lhe aumentava a indigestão.

– Sofre? - perguntou Basílio, com um interesse bem-educado.

D. Felicidade contou logo a sua dispepsia. Basílio aconselhou-lhe o uso do gelo. - De resto felicitava-a, porque as doenças de estômago, ultimamente, tinham muito chique. Interessou-se pela dela, pediu pormenores.

D. Felicidade prodigalizou-os; e falando, via-se lhe crescer no olhar, na voz a sua simpatia por Basílio. Havia de usar o gelo!

– Com o vinho, já se sabe?

– Com o vinho, minha senhora!

– E olha que talvez! - exclamou D. Felicidade, batendo com o leque no braço de Luísa, já esperançada.

Luísa sorriu, ia responder – mas viu o sujeito pálido de pera longa que fitava nela os seus olhos langorosos, com obstinação. Voltou o rosto importunada. O sujeito afastou-se, retorcendo a ponta da pera.

Luísa sentia-se mole; o movimento rumoroso e monótono, a noite cálida, a acumulação da gente, a sensação de verdura em redor davam ao seu corpo de mulher caseira um torpor agradável, um bem-estar de inércia, envolviam-na numa doçura emoliente de banho morno. Olhava com um vago sorriso, o olhar frouxo; quase tinha preguiça de mexer as mãos, de abrir o leque.

Basílio notou o silêncio. - Tinha sono?

D. Felicidade sorriu com finura.

– Ora, vê-se sem o seu maridinho! Desde que o não tem está esta mona que se vê.

Luísa respondeu, olhando Basílio instintivamente:

– Que tolice! Até estes dias tenho andado bem alegre!

Mas D. Felicidade insistia:

– Ora, bem sabemos, bem sabemos. Esse coraçãozinho está no Alentejo!

Luísa disse, com impaciência:

– Não hás de querer que me ponha aos pulos e às gargalhadas no Passeio.

– Está bem, não te enfureças! - exclamou D. Felicidade. E para Basílio:

– Que geniozinho, hem!

Basílio pôs-se a rir.

– A prima Luísa antigamente era uma víbora. Agora não sei…

D. Felicidade acudiu:

– É uma pomba, coitada, é uma pomba! Não, lá isso, é uma pomba.

E envolvia-a num olhar maternal.

Mas a família taciturna ergueu-se, sem ruído – e as meninas adiante, os pais atrás, afastaram-se lugubremente, sucumbidos.

Basílio imediatamente apossou-se da cadeira ao pé de Luísa – e vendo D. Felicidade a olhar distraída:

– Estive para te ir ver de manhã – disse baixinho a Luísa.

Ela ergueu a voz, muito naturalmente, com indiferença:

– E por que não foste? Tínhamos feito música. Fizeste mal. Devias ter ido…

D. Felicidade quis então saber as horas. Começava a enfastiar-se. Tinha esperado encontrar o Conselheiro; por ele, para lhe parecer bem, fizera o sacrifício de se apertar! Acácio não vinha, os gases começavam a afrontá-la; e o despeito daquela ausência aumentava-lhe a tortura da digestão. Na sua cadeira, o corpo mole, ia seguindo a multidão que girava incessantemente, numa névoa empoeirada.

Mas a música, no coreto, bateu de repente, alto, a grande ruído de cobres, os primeiros compassos impulsivos da marcha do Fausto. Aquilo reanimou-a.

Era pot-pourri da ópera – e não havia música de que gostasse mais. Estaria para a abertura de São Carlos, o Sr. Basílio?

Basílio disse, com uma intenção, voltando-se para Luísa:

– Não sei, minha senhora, depende…

Luísa olhava, calada. A multidão crescera. Nas ruas laterais mais espaçosas, frescas, passeavam apenas, sob a penumbra das árvores, os acanhados, as pessoas de luto, os que tinham o fato coçado. Toda a burguesia domingueira viera amontoar-se na rua do meio, no corredor formado pelas filas cerradas das cadeiras do asilo; e ali se movia entalada, com a lentidão espessa de uma massa derretida, arrastando os pés, raspando o macadame, num amarfanhamento a garganta seca, os braços moles, a palavra rara. Iam, vinham, incessantemente para cima e para baixo, com um bamboleamento relaxado e um rumor grosso sem alegria e sem bonomia, no arrebanhamento passivo que agrada às raças mandrionas; no meio da abundância das luzes e das festividades da música, um tédio morno circulava, penetrava como uma névoa; a poeirada fina envolvia as figuras, dava-lhes um tom neutro; e nos rostos que passavam sob os candeeiros, nas zonas mais diretas de luz, viam-se desconsolações de fadiga e aborrecimento de dia santo.

Defronte as casas da Rua Ocidental tinham na sua fachada o reflexo claro das luzes do Passeio; algumas janelas estavam abertas, as cortinas de fazenda escuras destacavam sobre a claridade interior dos candeeiros. Luísa sentia como uma saudade de outras noites de verão, de serões recolhidos. Onde? Não se lembrava. O movimento então retraía-a; e encontrava em face, fitando-a numa atitude lúgubre, o sujeito de pera longa. Debaixo do véu sentia a poeira arder-lhe nos olhos; em redor dela gente bocejava.

D. Felicidade propôs uma volta. Levantaram-se, foram rompendo devagar; as filas das cadeiras apertavam-se compactamente, e uma infinidade de faces a que a luz do gás dava o mesmo tom amarelado olhavam de um modo fixo e cansado, num abatimento de pasmaceira. Aquele aspecto irritou Basílio, e como era difícil andar lembrou - “que se fossem daquela sensaboria”.

Saíram. Enquanto ele ia comprar os bilhetes, D. Felicidade, deixando-se quase cair num banco sob a folhagem de um chorão, exclamou aflita:

– Ai, filha! Estou que arrebento!

Passava a mão no estômago; tinha a face envelhecida.

– E o Conselheiro, que me dizes? Olha que já é pouca sorte! Hoje que eu vim ao Passeio…

Suspirou, abanando-se. E com o seu sorriso bondoso:

– É muito simpático, teu primo! E que maneiras! Um verdadeiro fidalgo. Que eles conhecem-se, filha!

Declarou-se muito fatigada, apenas saíram o portão. Era melhor tomarem um trem.

Basílio achava preferível subirem a pé até ao Largo do Loreto. A noite estava tão agradável! E o andar fazia bem à senhora D. Felicidade!

Depois diante do Martinho, falou em irem tomar neve; mas D. Felicidade receava a frialdade; Luísa tinha vergonha. Pelas portas do café abertas, viam-se sobre as mesas jornais enxovalhados; e algum raro indivíduo, de calça branca, tomava placidamente o seu sorvete de morango.

No Rossio, sob as árvores, passeava-se; pelos bancos, gente imóvel parecia dormitar; aqui e além pontas de cigarro reluziam; sujeitos passavam, com o chapéu na mão, abanando-se, o colete desabotoado; a cada canto se apregoava água fresca “do Arsenal”; em torno do largo, carruagens descobertas rodavam vagarosamente. O céu abafava – e na noite escura, a coluna da estátua de D. Pedro tinha o tom baço e pálido de uma vela de estearina colossal e apagada.

Basílio, ao pé de Luísa, ia calado. “Que horror de cidade!” - pensava. -“Que tristeza!” E lembrava-lhe Paris, de verão; subia, à noite, no seu faeton, os Campos Elísios devagar; centenares de vitórias descem, sobem rapidamente, com um trote discreto e alegre; e as lanternas fazem em toda a avenida um movimento jovial de pontos de luz; vultos brancos e mimosos de mulheres reclinam-se nas almofadas, balançadas nas molas macias; o ar em redor tem uma doçura aveludada, e os castanheiros espalham um aroma sutil. Dos dois lados, dentre os arvoredos, saltam as claridades violentas dos cafés cantantes, cheios do bruaá das multidões alegres, dos brios impulsivos das orquestras, os restaurantes flamejam; há uma intensidade de vida amorosa e feliz; e, para além, sai das janelas dos palacetes, através dos estores de seda, a luz sóbria e velada das existências ricas. Ah! Se lá estivesse! - Mas ao passar junto dos candeeiros olhava de lado para Luísa; o seu perfil fino sob o véu branco tinha uma grande doçura; o vestido prendia bem a curva do seu peito; e havia no seu andar uma lassidão que lhe quebrava a linha da cinta de um modo lânguido e prometedor.

Veio-lhe uma certa ideia, começou a dizer: Que pena que não houvesse em toda a Lisboa um restaurante, onde se pudesse ir tomar uma asa de perdiz e beber uma garrafa de champanhe frappe!

Luísa não respondeu. Devia ser delicioso – pensava. - Mas D. Felicidade exclamou:

– Perdiz, a esta hora!

– Perdiz ou outra qualquer coisa.

Fosse o que fosse, era para estourar! Credo!

Subiam pela Rua Nova do Carmo. Os candeeiros davam uma luz mortiça; as altas casas dos dois lados, apagadas, entalavam, carregavam a sombra; e a patrulha muito armada, descia passo a passo, sem ruído, sinistra e sutil.

Ao Chiado um garoto de barrete azul perseguiu-os com cautelas de loteria; a sua voz aguda e chorosa prometia a fortuna, muitos contos de réis. D. Felicidade ainda parou, com uma tentação… Mas uma troça de rapazes bêbedos que descia de chapéu na nuca, falando alto, aos tropeções, assustou muito as duas. Luísa encolheu-se logo contra Basílio; D. Felicidade enfiada agarrou-lhe ansiosamente o braço, quis-se meter numa carruagem; e até ao Loreto foi explicando o seu medo aos borrachos, com a voz atarantada, contando casos, facadas, sem largar o braço de Basílio. Da fileira de tipoias, ao lado das grades da Praça de Camões, um cocheiro lançou logo a sua caleche descoberta, de pé na almofada apanhando confusamente as rédeas, com grandes chicotadas na parelha, excitado, gritando:

– Pronto, meu amo, pronto!

Demoraram-se um momento ainda conversando. Um homem então passou, rondou – e Luísa desesperada reconheceu os olhos acarneirados do sujeito da pera.

Entraram para a caleche. Luísa ainda se voltou para ver Basílio imóvel no largo, com o seu chapéu na mão; depois acomodou-se, pôs os pezinhos no outro assento e balançada pelo trote largo viu passar, calada, as casas apagadas da Rua de São Roque, as árvores de São Pedro de Alcântara, as fachadas estreitas do Moinho de Vento, os jardins adormecidos da Patriarcal. A noite estava imóvel, de um calor mole, e desejava, sem saber por que, rolar assim sempre, infinitamente, entre ruas, entre grades cheias de folhagem de quintas nobres, sem destino, sem cuidados, para alguma coisa de feliz que não distinguia bem! Um grupo defronte da Escola ia tocando o Fado do Vimioso; aqueles sons entraram-lhe na alma como um vento doce, que fazia agitar brandamente muitas sensibilidades passadas, suspirou baixo.

– Um suspirozinho que vai para o Alentejo – disse D. Felicidade, tocando-lhe no braço.

Luísa sentiu todo o sangue abrasar-lhe o rosto. Davam onze horas quando entrou em casa.

Juliana veio alumiar. - O chá estava pronto, quando a senhora quisesse…

Luísa subiu daí a pouco com um largo roupão branco, muito fatigada; na voltaire; sentia vir-lhe uma sonolência; a cabeça pendia-lhe; cerravas as pálpebras… E Juliana tardava tanto com o chá! Chamou-a. Onde estava? Credo!

Tinha descido, pé ante pé, ao quarto de Luísa. E aí tomando o vestido, as saias engomadas que ela despira e atirara para cima da causeuse, desdobrou-as, examinou-as, e com uma certa ideia, cheirou-as! Havia o vago aroma de um corpo lavado e quente, com uma pontinha de suor e de água-de-colônia. Quando a sentiu chamar, impacientar-se em cima, subiu, correndo. - Fora abaixo dar uma arrumadela. Era o chá? Estava pronto…

E entrando com as torradas:

– Veio aí o Sr. Sebastião, haviam de ser nove horas…

– Que lhe disse?

– Que a senhora tinha saído com a senhora D. Felicidade. Como não sabia, não disse para onde.

E acrescentou:

– Esteve a conversar comigo, o Sr. Sebastião… Esteve a conversar mais de meia hora!…

Luísa recebeu, na manhã seguinte, da parte de Sebastião, um ramo de rosas, magenta escuro, magníficas. Cultivava-as ele na quinta de Almada, e chamavam-se rosas D. Sebastião. Mandou-as pôr nos vasos da sala; e como o dia estava encoberto, de um calor baixo e sufocante:

– Olhe – disse a Juliana – abra as janelas.

- “Bem” - pensou Juliana - “temos cá o melro.”

O melro veio com efeito às três horas. Luísa estava na sala, ao piano.

– Está ali o sujeito do costume – foi dizer Juliana.

Luísa voltou-se corada, escandalizada da expressão:

– Ah! Meu primo Basílio? Mande entrar.

E chamando-a:

– Ouça, se vier o Sr. Sebastião, ou alguém, que entre.

Era o primo! O sujeito, as suas visitas perderam de repente para ela todo o interesse picante. A sua malícia cheia, enfunada até aí, caiu, engelhou-se como uma vela a que falta o vento. Ora, adeus! Era o primo!

Subiu à cozinha, devagar – lograda.

– Temos grande novidade, Sra. Joana! O tal peralta é primo. Diz que é o primo Basílio.

E com um risinho:

– É o Basílio! Ora o Basílio! Sai-nos primo à última hora! O diabo tem graça!

– Então que havia de o homem ser senão parente? - observou Joana.

Juliana não respondeu. Quis saber se estava o ferro pronto, que tinha uma carga de roupa para passar! E sentou-se à janela, esperando. O céu baixo e pardo pesava, carregado de eletricidade; às vezes uma aragem súbita e fina punha nas folhagens dos quintais um arrepio trêmulo.

- "É o primo!" - refletia ela. - “E só vem então quando o marido se vai. Boa! E fica-se toda no ar quando ele sai; e é roupa branca e mais roupa branca, e roupão novo, e tipoia para o passeio, e suspiros e olheiras! Boa bêbeda! Tudo fica na família!”

Os olhos luziam-lhe. Já se não sentia tão lograda. Havia ali muito “para ver e escutar”. E o ferro, estava pronto?

Mas a campainha embaixo, tocou.

– Boa! Isto agora é um fadário! Estamos na casa do despacho!

Desceu; e exclamou logo, vendo Julião com um livro debaixo do braço:

– Faz favor de entrar, Sr. Julião! A senhora está com o primo, mas diz que mandasse entrar!

Abriu a porta da sala bruscamente, de surpresa.

– Está aqui o Sr. Julião – disse com satisfação.

Luísa apresentou os dois homens.

Basílio ergueu-se do sofá languidamente, e, num relance, percorreu Julião desde a cabeleira desleixada até as botas mal engraxadas, com um olhar quase horrorizado.

- “Que pulha!” - pensou.

Luísa, muito fina, percebeu, e corou, envergonhada de Julião.

Aquele homem de colarinho enxovalhado e com um velho casaco de pano preto malfeito – que ideia daria a Basílio das relações, dos amigos da casa! Sentia já o seu chique diminuído. E instintivamente, a sua fisionomia tornou-se muito reservada – como se semelhante visita a surpreendesse! Semelhante toalete a indignasse!

Julião percebeu o constrangimento dela; disse, já embaraçado, ajeitando a luneta:

– Passei por aqui por acaso, entrei a saber se há algumas notícias de Jorge…

– Obrigada. Sim, tem escrito. Está bem…

Basílio, recostado no sofá, como um parente íntimo, examinava a sua meia de seda bordada de estrelinhas escarlates, e cofiava indolentemente o bigode, arrebitando um pouco o dedo mínimo – onde brilhavam, em dois grossos anéis de ouro, uma safira e um rubi.

A afetação da atitude, o reluzir das joias irritaram Julião.

Quis mostrar também a sua intimidade, os seus direitos; disse:

– Eu não tenho vindo fazer-lhe um bocado de companhia, porque tenho estado muito ocupado…

Luísa acudiu para desautorizar logo aquela familiaridade:

– Eu também não me tenho achado bem. Não tenho recebido ninguém – ao ser meu primo, naturalmente!

Julião sentiu-se renegado! E todo vermelho, de surpresa, de indignação, - a balançar a perna, calado, com o livro sobre o joelho; como a calça era curta, via-se quase o elástico esfiado das botas velhas.

Houve um silêncio difícil.

– Bonitas rosas! - disse enfim Basílio, preguiçosamente.

– Muito bonitas! - respondeu Luísa.

Estava agora compadecida de Julião; procurava uma palavra; disse-lhe enfim muito precipitadamente:

– E que calor! É de morrer! Tem havido muitas doenças?

– Colerinas – respondeu Julião. - Por causa das frutas. Doenças de ventre.

Luísa baixou os olhos. Basílio então começou a falar da Vis condessinha de Azeias; tinha-a achado acabada; e que era feito da irmã, da grande?

Aquela conversação sobre fidalgas que ele não conhecia isolava mais Julião; sentia o suor umedecer-lhe o pescoço; procurava um dito, uma ironia, uma agudeza; e maquinalmente abria e fechava o seu grosso livro de capa amarela.

– É algum romance? - perguntou-lhe Luísa.

– Não. É o tratado do Dr. Lee sobre doenças do útero.

Luísa fez-se escarlate; Julião também, furioso da palavra que lhe escapara. E Basílio, depois de sorrir, perguntou por uma certa D. Rafaela Grijó, que costumava ir à Rua da Madalena, que usava luneta, e tinha um cunhado gago…

– Morreu-lhe o marido. Casou com o cunhado.

– Com o gago?

– Sim. Tem um filhito dele, gago também.

– Que conversação, em família! E a D. Eugênia, a de Braga?

Julião, exasperado, ergueu-se; e com uma voz de garganta seca:

– Estou com pressa, não me posso demorar. Quando escrever a Jorge, os meus recados, hem?

Abaixou bruscamente a cabeça a Basílio. Mas não achava o chapéu; tinha rolado para debaixo de uma cadeira. Embrulhou-se no reposteiro, topou violentamente contra a porta fechada, e saiu enfim desesperado, desejando vingar-se, odiando Luísa, Jorge, o luxo, a vida – trasbordando agora de ironias, de ditos, de réplicas. Devia-os ter achatado, o asno e a tola… E não lhe acudira nada!

Mas apenas ele tinha fechado a cancela, Basílio pôs-se de pé, e cruzando os braços:

– Quem é esse pulha?

Luísa corou muito; balbuciou:

– É um rapaz médico…

– É uma criatura impossível, é uma espécie de estudante.

– Coitado, não tem muitos meios…

Mas não era necessário ter meios para escovar o casaco e limpar a caspa! Não devia receber semelhante homem! Envergonha uma casa. Se seu marido gostava dele, que o recebesse no escritório!…

Passeava pela sala, excitado, com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as chaves.

– São frescos os amigos da casa!… - continuou. - Que diabo! Tu não foste educada assim. Nunca tiveste gente deste gênero na Rua da Madalena.

Não tivera; e pareceu-lhe que as ligações do casamento lhe tinham trazido um pouco o plebeísmo das convivências. Mas um respeito pelas opiniões, pelas de Jorge fez-lhe dizer:

– Diz que tem muito talento…

– Era melhor que tivesse botas.

Luísa, por cobardia, concordou.

– Também o acho esquisito! - disse.

– Horrível, minha filha!

Aquela palavra fez-lhe bater o coração. Era assim que ele lhe chamava, houve um momento de silêncio; e a campainha da porta retiniu fortemente.

Luísa ficou assustada. Jesus! Se fosse Sebastião! Basílio achá-lo-ia ainda mais reles. Mas Juliana veio dizer:

– O Sr Conselheiro. Mando entrar?

– Decerto – exclamou.

E a alta figura de Acácio adiantou-se, com as bandas do casaco de alpacas deitadas para trás, a calça branca muito engomada caindo sobre os sapatos de entrada baixa, de laço.

Apenas Luísa lhe apresentou o primo Basílio, disse logo, respeitoso:

– Já sabia que Vossa Excelência tinha chegado; vi-o nas interessantes notícias do nosso high life. E do nosso Jorge?

Jorge estava em Beja… Diz que se aborrece muito…

Basílio, mais amável, deixou cair:

– Eu realmente não tenho a menor ideia do que se possa fazer em Beja. Deve ser horroroso!

O Conselheiro, passando sobre o bigode a sua mão branca onde destacava o anel de armas, observou:

– É todavia a capital do distrito!

Mas se já em Lisboa se não podia fazer nada, e era a capital do reino! - E Basílio repuxava, todo recostado, o punho da camisa. - Morria-se positivamente de pasmaceira.

Luísa, muito contente da afabilidade de Basílio, pôs-se a rir:

– Não digas isso diante do Conselheiro. É um grande admirador de Lisboa.

Acácio curvou-se:

– Nasci em Lisboa, e aprecio Lisboa, minha rica senhora.

E com muita bonomia:

– Conheço porém que não é para comparar aos Parises, às Londres, às Madris…

– Decerto – fez Luísa.

O Conselheiro continuou com pompa:

– Lisboa porém tem belezas sem igual! A entrada ao que me dizem (eu nunca entrei a barra) é um panorama grandioso, rival das Constantinoplas e das Nápoles. Digno da pena de um Garrett ou de um Lamartine! Próprio para inspirar um grande engenho!…

Luísa, receando citações ou apreciações literárias, interrompeu-o; perguntou-lhe o que tinha feito. Tinham estado domingo no Passeio, ela e D. Felicidade; tinham esperado vê-lo, e nada!

Nunca ia ao Passeio, ao domingo – declarou. - Reconhecia que era muito agradável, mas a multidão entontecia-o. Tinha notado – e a sua voz tomou o tom espaçado de uma revelação – tinha notado que muita gente, num local, causa vertigens aos homens de estudo. De resto queixou-se da sua saúde e do peso dos seus trabalhos. Andava compilando um livro e usando as águas de Vichy.

– Podes fumar – disse Luísa de repente, sorrindo, a Basílio. - Queres lume?

Ela mesma lhe foi buscar um fósforo, toda ligeira, feliz. Tinha um vestido claro, um pouco transparente, muito fresco. Os seus cabelos pareciam mais louros, a sua pele mais fina.

Basílio soprou o fumo do charuto, e declarou muito reclinado:

– O Passeio ao domingo é simplesmente idiota!…

O Conselheiro refletiu e respondeu:

– Não serei tão severo, Sr. Brito! - Mas parecia-lhe que com efeito antigamente era uma diversão mais agradável. - Em primeiro lugar – exclamou com muita convicção, endireitando-se – nada, mas nada, absolutamente nada pode substituir a charanga da Armada! - Além disso havia a questão dos preços… Ah! Tinha estudado muito o assunto! Os preços diminutos favoreciam a aglomeração das classes subalternas… Que longe do seu pensamento lançar desdouro nessa parte da população… As suas ideias liberais eram bem conhecidas. - Apelo para a senhora D. Luísa! - disse. - Mas enfim, sempre era mais agradável encontrar uma roda escolhida! Em quanto a si nunca ia ao Passeio. Talvez não acreditassem, mas nem mesmo quando havia fogo de vistas! Nesses dias, sim, ia ver por fora das grades. Não por economia! Decerto não. Não era rico, mas podia fazer face a essa contribuição diminuta. Mas é que receava os acidentes! É que os receava muito! Contou a história de um sujeito, cujo nome lhe escapava, a quem uma cana de foguete furara o crânio. - E além disso nada mais fácil que cair uma fagulha acesa na cara, num paletó novo… - É conveniente ter prudência – resumiu, compenetrado, limpando os beiços com o lenço de seda da Índia muito enrolado.

Falaram então da estação; muita gente fora para Sintra; de resto, Lisboa no verão era tão secante!… E o Conselheiro declarou que Lisboa só era imponente verdadeiramente imponente, quando estavam abertas as câmaras e São Carlos!

– Que estavas tu a tocar quando eu entrei? - perguntou Basílio.

O Conselheiro acudiu logo:

– Se estavam fazendo música, por quem são… Sou um velho assinante de São Carlos, há dezoito anos…

Basílio interrompeu-o:

– Toca?

– Toquei. Não o oculto. Em rapaz fui dado à flauta. E acrescentou, com um gesto benévolo:

– Rapaziadas!… Alguma novidade, o que estava tocando, D. Luísa?

– Não! Uma música muito conhecida, já antiga; a Filha do pescador, de Meyerbeer. Tenho a letra traduzida.

Tinha cerrado as vidraças, sentara-se ao piano.

O Sebastião é que toca isto bem, não é verdade, Conselheiro?

– O nosso Sebastião – disse o Conselheiro com autoridade – é um rival dos Thalbergs e dos Liszts. Conhece o nosso Sebastião? - perguntou a Basílio.

– Não, não conheço.

– Uma pérola!

Basílio tinha-se aproximado do piano devagar, frisando o bigode.

Tu ainda cantas? - perguntou4he Luísa, sorrindo.

– Quando estou só.

Mas o Conselheiro pediu-lhe logo “um trecho”. Basílio ria. Tinha medo de escandalizar um velho assinante de São Carlos…

O Conselheiro animou-o; disse mesmo paternalmente:

– Coragem Sr. Brito, coragem! Luísa então preludiou.

E Basílio soltou logo a voz, cheia, bem timbrada, de barítono; as suas notas altas faziam a sala sonora. O Conselheiro, direito na poltrona escutava concentrado; a sua testa, franzida num vinco, parecia curvar-se sob uma responsabilidade de juiz; e as lunetas defumadas destacavam, com reflexos escuros, naquela fisionomia de calvo, que o calor tornava mais pálida.

Basílio dizia com uma melancolia grave a primeira frase, tão larga, da canção:

– Igual ao mar sombrio.
Meu coração profundo…

Um poeta, com uma dedicação obscura, traduzira a letra no Almanaque das Senhoras; Luísa pela sua própria mão a tinha copiado nas entrelinhas da música. E Basílio debruçado sobre o papel sempre torcendo as pontas do bigode:

– Tem tempestades, cóleras,
Mas pérolas no fundo!

Os olhos largos de Luísa afirmavam-se para a música – ou a espaços, com um movimento rápido, erguiam-se para Basílio. Quando, na nota final, prolongada como a reclamação de um amor suplicante, Basílio soltou a voz de um modo apelativo:

– Vem! Vem.
Pousar, ó doce amada,
Teu peito contra o meu…

Os seus olhos fixaram-se nela com uma significação de tanto desejo que o peito de Luísa arfou, os seus dedos embrulharam-se no teclado.

O Conselheiro bateu as palmas.

– Uma voz admirável! - exclamava. - Uma voz admirável!

Basílio dizia-se envergonhado.

– Não, senhor, não, senhor! - protestou Acácio, levantando-se. - Um excelente órgão! Direi, o melhor órgão da nossa sociedade!

Basílio riu. Uma vez que tinha sucesso, então ia dizer-lhes uma modinha brasileira da Bahia. Sentou-se ao piano, e depois de ter preludiado uma melodia muito balançada, de um embalado tropical cantou:

– Sou negrinha, mas meu peito.
Sente mais que um peito branco.

E interrompendo-se:

– Isto fazia furor nas reuniões da Bahia quando eu parti.

Era a história de uma “negrinha” nascida na roça, e que contava, com lirismos de almanaque, a sua paixão por um feitor branco.

Basílio parodiava o tom sentimental de alguma menina baiana; e a sua voz tinha uma preciosidade cômica, quando dizia o ritornelo choroso:

– E a negra pra os mares
Seus olhos alonga;
No alto coqueiro
Cantava a araponga.

O Conselheiro achou “delicioso”; e, de pé na sala, lamentou a propósito da cantiga a condição dos escravos. Que lhe afirmavam amigos do Brasil que os negros eram muito bem tratados. Mas enfim a civilização era a civilização! E a escravatura era um estigma! Tinha todavia muita confiança no imperador…

– Monarca de rara ilustração… - acrescentou respeitosamente.

Foi buscar o seu chapéu, e colando-lhe as abas ao peito, curvando-se, jurou que – havia muito tempo não tinha passado uma manhã tão completa. De resto nada havia como a boa conversação e a boa música…

– Onde está Vossa Excelência alojado, Sr. Brito?

Pelo amor de Deus! Que não se incomodasse! Estava no Hotel Central.

Não havia considerações que o impedissem de cumprir o seu dever – Cumpri-lo-ia! Ele era uma pessoa inútil, a senhora D. Luísa bem o sabia – Mas se necessitar alguma coisa, uma informação, uma apresentação nas regiões oficiais, licenças para visitar algum estabelecimento público, creia que me tem às suas ordens!

E conservando na sua mão a mão de Basílio:

– Rua do Ferregial de Cima, número três, terceiro. O modesto tugúrio de um eremita.

Tomou a curvar-se diante de Luísa:

– E quando escrever ao nosso viajante, que faço sinceros votos pela prosperidade dos seus empreendimentos. Por quem é! Criado de Vossa Excelência. E direito, grave, saiu.

– Este ao menos é limpo – resmungou Basílio, com o charuto ao canto da boca.

Sentara-se outra vez ao piano, corria os dedos pelo teclado. Luísa aproximou-se:

– Canta alguma coisa, Basílio!

Basílio pôs-se então a olhar muito para ela.

Luísa corou, sorriu; através da fazenda clara e transparente do vestido, entrevia-se a brancura macia e láctea do colo e dos braços; e nos seus olhos, na cor quente do rosto havia uma animação e como uma vitalidade amorosa.

Basílio disse-lhe, baixo:

– Estás hoje nos teus dias felizes, Luísa.

O olhar dele, tão ávido, perturbava-a; insistiu:

– Canta alguma coisa.

O seu seio arfava.

– Canta tu – murmurou Basílio.

E devagarinho, tomou-lhe a mão. As duas palmas um pouco úmidas, um pouco trêmulas, uniram-se.

A campainha, fora, tocou. Luísa desprendeu a mão, bruscamente.

– É alguém – disse agitada.

Vozes baixas falavam à cancela.

Basílio teve um movimento de ombros contrariado; foi buscar o chapéu.

– Vais-te? - exclamou ela toda desconsolada.

– Pudera! Não posso estar só contigo um momento!

A cancela fechou-se com ruído. Não é ninguém, foi-se – disse Luísa.

Estavam de pé, no meio da sala.

– Não te vás! Basílio!

Os seus olhos profundos tinham uma suplicação doce. Basílio pousou o chapéu sobre o piano; mordia o bigode um pouco nervoso.

– E para que queres tu estar só comigo? - disse ela. - Que tem que venha gente? - E arrependeu-se logo daquelas palavras.

Mas Basílio, com um movimento brusco, passou-lhe o braço sobre os ombros, prendeu-lhe a cabeça, e beijou-a na testa, nos olhos, nos cabelos, vorazmente.

Ela soltou-se a tremer, escarlate.

– Perdoa-me – exclamou ele logo, com um ímpeto apaixonado. - Perdoa-me. Foi sem pensar. Mas é porque te adoro, Luísa!

Tomou-lhe as mãos com domínio, quase com direito.

– Não. Hás de ouvir. Desde o primeiro dia que te tornei a ver estou doido por ti, como dantes, a mesma coisa. Nunca deixei de me morrer por ti. Mas não tinha fortuna, tu bem o sabes, e queria-te ver rica, feliz. Não te podia levar para o Brasil. Era matar-te, meu amor! Tu imaginas lá o que aquilo é! Foi por isso que te escrevi aquela carta, mas o que eu sofri, as lágrimas que chorei!

Luísa escutava-o imóvel, a cabeça baixa, o olhar esquecido; aquela voz quente e forte, de que recebia o bafo amoroso, dominava-a, vencia-a; as mãos de Basílio penetravam com o seu calor febril a substância das suas; e, tomada de uma lassidão, sentia-se como adormecer.

– Fala, responde! - disse ele ansiosamente, sacudindo-lhe as mãos, procurando o seu olhar avidamente.

– Que queres que te diga? - murmurou ela.

A sua voz tinha um tom abstrato, mal acordado.

E desprendendo-se devagar, voltando o rosto:

– Falemos noutras coisas!

Ele balbuciava com os braços estendidos:

– Luísa! Luísa!

– Não, Basílio, não!

E na sua voz havia o arrastado de uma lamentação, com a moleza de uma carícia.

Ele então não hesitou, prendeu-a nos braços.

Luísa ficou inerte, os beiços brancos, os olhos cerrados – e Basílio, pousando-lhe a mão sobre a testa, inclinou-lhe a cabeça para trás, beijou-lhe as pálpebras devagar, a face, os lábios depois muito profundamente; os beiços dela entreabriram-se; os seus joelhos dobraram-se.

Mas de repente todo o seu corpo se endireitou, com um pudor indignado, afastou o rosto, exclamou aflita:

– Deixa-me, deixa-me!

Viera-lhe uma força nervosa; desprendeu-se, empurrou-o; e passando as mãos abertas pela testa, pelos cabelos:

– Oh meu Deus! É horrível! - murmurou. - Deixa-me! É horrível!

Ele adiantava-se com os dentes cerrados; mas Luísa recuava, dizia:

Vai-te. Que queres tu? Vai-te! Que fazes tu aqui? Deixa-me!

Ele então tranquilizou-a com a voz subitamente serena e humilde. Não percebia. Por que se zangava? Que tinha um beijo? Ele não pedia mais. Que tinha ela imaginado, então? Adorava-a, decerto, mas puramente.

– Juro-te! - disse com força, batendo no peito.

Fê-la sentar no sofá, sentou-se ao pé dela. Falou-lhe muito sensatamente: - Via as circunstâncias, e resignar-se-ia. Seria como uma amizade de irmãos, nada mais.

Ela escutava-o, esquecida.

Decerto, dizia ele, aquela paixão era uma tortura imensa. Mas era forte, a Só queria vir vê-la, falar-lhe. Seria um sentimento ideal. - E os seus devoraram-na.

Voltou-lhe a mão, curvou-se, pôs-lhe um beijo cheio na palma. Ela estremeceu-se logo:

– Não! Vai-te!

– Bem, adeus.

Levantou-se com um movimento resignado e infeliz. E limpando devagar a seda do chapéu.

– Bem, adeus – repetiu melancolicamente.

– Adeus

Basílio disse então com muita ternura:

– Estás zangada?

– Não!

– Escuta – murmurou, adiantando-se.

Luísa bateu com o pé.

– Oh, que homem! Deixa-me! Amanhã. Adeus. Vai-te! Amanhã!

– Amanhã! - disse ele, baixinho.

E saiu rapidamente.

Luísa entrou no quarto toda nervosa. E ao passar diante do espelho ficou surpreendida: nunca se vira tão linda! Deu alguns passos calada.

Juliana arrumava roupa branca num gavetão do guarda-vestidos. Quem tocou há bocado? - perguntou Luísa.

– Foi o Sr. Sebastião. Não quis entrar; disse que voltava.

Tinha dito, com efeito, que voltava. Mas começava quase a envergonhar-se de vir assim todos os dias, e encontrá-la sempre “com uma visita!”

Logo no primeiro dia ficara muito surpreendido quando Juliana lhe disse:

– Um sujeito! Um rapaz novo que já cá esteve ontem!" Quem seria? todos os amigos da casa… Seria algum empregado da secretaria ou algum proprietário de minas, o filho do Alonso, talvez; um negócio de Jorge decerto…

Depois no domingo, à noite, trazia-lhe a partitura de Romeu e Julieta, de Gounod, que ela desejava tanto ouvir, e quando Juliana lhe disse da varanda que tinha saído com D. Felicidade de carruagem, ficou muito embaraçado com o grosso volume debaixo do braço, coçando devagar a barba. Onde teriam ido? Lembrou-se do entusiasmo de D. Felicidade pelo Teatro de D. Maria. Mas irem sós, naquele calor de julho, ao teatro! Enfim, era possível. Foi a D. Maria.

O teatro, quase vazio, estava lúgubre; aqui e além, nalgum camarote, uma família feia perfilava-se, com cabelos negríssimos carregados de postiços, gozando soturnamente a sua noite de domingo; na plateia, à larga nas bancadas vazias, pessoas avelhadas e inexpressivas escutavam com um ar encalmado e farto, limpando a espaços, com lenços de seda, o suor dos pescoços; na geral, gente de trabalho arregalava olhos negros em faces trigueiras e oleosas; a luz tinha um tom dormente; bocejava-se. E no palco, que representava uma sala de baile amarela, um velhote condecorado falava a uma magrita de cabelos riçados, sem cessar, com o tom diluído de uma água gordurosa e morna que escorre.

Sebastião saiu. Onde estariam? Soube-se na manhã seguinte.- Descia o Moinho de Vento, e um vizinho, o Neto, que subia curvado sob o seu guarda-sol, com o cigarro ao canto do bigode grisalho, deteve-o bruscamente, para lhe dizer:

– Ó amigo Sebastião, ouça cá. Vi ontem à noite no Passeio a D. Luísa com um rapaz que eu conheço. Mas de onde conheço eu aquela cara? Quem diabo é?

Sebastião encolheu os ombros.

– Um rapaz alto, bonito, com um ar estrangeirado. Eu conheço-o. Noutro dia vi-o entrar para lá. Você não sabe?

Não sabia.

– Eu conheço aquela cara. Tenho estado a ver se me recordo… Passava a mão pela testa. - Eu conheço aquela cara! Ele é de Lisboa. De Lisboa é ele!

E depois de um silêncio, fazendo girar o guarda-sol:

– E que há de novo, Sebastião?

Também não sabia. Nem eu!

E bocejando muito:

– Isto está uma pasmaceira, homem!

Nessa tarde, às quatro horas, Sebastião voltou à casa de Luísa. Estava com “o sujeito!” Ficou então preocupado. Decerto era algum negócio de Jorge; porque não compreendia que ela falasse, sentisse, vivesse, que não fosse no interesse da casa e para maior felicidade de Jorge. Mas devia ser grave então – para reclamar visitas, encontros, tantas relações. Tinham pois interesses importantes que ele não conhecia! E aquilo parecia-lhe uma ingratidão, e como uma diminuição de amizade.

A tia Joana tinha-o achado “macambúzio”.

Foi ao outro dia que soube que o sujeito era o primo Basílio, o Basílio de Brito. O seu vago desgosto dissipou-se, mas um receio mais definido veio inquietá-lo Sebastião não conhecia Basílio pessoalmente, mas sabia a crônica da sua mocidade. Não havia nela certamente, nem escândalo excepcional, nem romance pungente. Basílio tinha sido apenas um pândego e, como tal, passara metodicamente por todos os episódios clássicos da estroinice lisboeta: - partidas de monte até de madrugada com ricaços do Alentejo; uma tipoia despedaçada num sábado de touros; ceias repetidas com alguma velha Lola e uma antiga salada de lagosta; algumas pegas aplaudidas em Salvaterra ou na Alhandra; noitadas de Colares nas tabernas fadistas; muita guitarra; socos bem jogados à face atônita de um policial; e uma profusão de gemas de ovos nas glórias do Entrudo. As únicas mulheres mesmo que apareciam na sua história, além das Lolas e das Carmens usuais, eram a PisteIli, uma dançarina alemã cujas pernas tinham uma musculatura de atleta, e a Condessinha de Alvim, uma doida, grande cavaleira, que se separara de seu marido depois de o ter chicotado, e que se vestia de homem para bater ela mesma em trem de praça do Rossio ao Dafundo. Mas isto bastava para que Sebastião o achasse um debochado, um perdido; ouvira que ele tinha ido para o Brasil para fugir aos credores; que enriquecera por acaso, numa especulação, no Paraguai; que mesmo na Bahia, com a corda na garganta, nunca fora um trabalhador; e supunha que a posse da fortuna para ele, seria apenas um desenvolvimento dos vícios. E este homem agora vinha ver a Luisinha todos os dias, estava horas e horas, seguia-a ao Passeio…

Para quê?… Era claro, para a desinquietar!

Ia justamente descendo a rua, dobrado sob a pesada desconsolação destas ideias quando uma voz encatarroada disse com respeito:

– Ó Sr. Sebastião!

Era o Paula dos móveis.

– Viva, Sr. João.

O Paula atirou para as pedras da rua um jato escuro de saliva, e com as mãos cruzadas debaixo das abas do comprido casaco de cotim, o tom grave:

– Ó Sr. Sebastião, há doença cá por casa do senhor engenheiro?

Sebastião todo surpreendido:

– Não. Por quê?

O Paula fez roncar a garganta, cuspilhou:

– É que tenho visto entrar para cá todos os dias um sujeito. Imaginei que fosse o médico.

E puxando o escarro:

– Desses novos da homeopatia!

Sebastião tinha corado.

– Nada – disse. - É o primo de D. Luísa.

– Ah! - fez o Paula. - Pois pensei… Queira desculpar, Sr. Sebastião.

E curvou-se respeitosamente.

– Já temos falatório! - foi pensando Sebastião.

E entrou em casa, descontente.

Morava ao fundo da rua, num prédio seu, de construção antiga, com quintal.

Sebastião era só. Tinha uma fortuna pequena em inscrições, terras de lavoura para o lado de Seixal, e a quinta em Almada – o Rozegal. As duas criadas eram muito antigas na casa. A Vicência, a cozinheira, era uma preta de São Tomé já do tempo da mamã. A tia Joana, a governanta, servia-o havia trinta e cinco anos; chamava ainda a Sebastião o “menino”; tinha já as tontices de uma criança, e recebia sempre os respeitos de uma avó. Era do Porto, do Pâorto, como ela dizia, porque nunca perdera o seu acento minhoto. Os amigos de Sebastião chamavam-lhe uma velha de comédia. Era baixinha e gorda, com um sorriso muito bondoso; tinha os cabelos alvos como uma estriga, atados no alto num rolinho com um antigo pente de tartaruga; trazia sempre um vasto lenço branco muito asseado, traçado sobre o peito. E todo o dia passarinhava pela casa, com o seu passinho arrastado, fazendo tilintar os molhos de chaves, resmungando provérbios, tomando rapé de uma caixa redonda, em cuja tampa se lascava o desenho abonecado da ponte pênsil do Porto.

Em toda a casa havia um tom caturra e doce; na sala de visitas, quase sempre fechada, o vasto canapé, as poltronas tinham o ar empertigado do tempo do senhor D. José I, e os estofos de damasco vermelho desbotado lembravam a pompa de uma corte decrépita; das paredes da casa de jantar pendiam as primeiras gravuras das batalhas de Napoleão, onde se vê invariavelmente, numa eminência, o cavalo-branco, para o qual galopa desenfreadamente do primeiro plano um hussardo, brandindo um sabre. Sebastião dormia os seus sonos de sete horas, sem sonhos, numa velha barra de pau preto torneado; e numa saleta escura, sobre uma cômoda de fecharias de metal amarelo, conservava-se, havia anos, o padroeiro da casa, São Sebastião – que se torcia, cravado de setas, nas cordas que o atavam ao tronco, à luz de uma lâmpada, muito cuidada pela tia Joana, sob os ruídos sutis dos ratos pelo forro.

A casa condizia com o dono. Sebastião tinha um gênio antiquado. Era solitário e acanhado. Já no Latim lhe chamavam o “Peludo”; punham-lhe rabos, roubavam-lhe impudentemente as merendas. Sebastião, que tinha a força de um ginasta, oferecia a resignação de um mártir.

Foi sempre reprovado nos primeiros exames do liceu. Era inteligente, mas uma pergunta, o reluzir dos óculos de um professor, a grande lousa negra imobilizavam-no; ficava muito embezerrado, a face inchada e rubra, a coçar os joelhos, o olhar vazio.

Sua mãe, que era da aldeia e que fora padeira, muito vaidosa agora das suas inscrições, da sua quinta, da sua mobília de damasco, sempre vestida de seda, carregada de anéis, costumava dizer:

– Ora! Tem que comer e beber! Estar a afligir a criança com estudos! Deixa lá!

A inclinação de Sebastião era pela música. Sua mãe, por conselhos da mãe de Jorge, sua vizinha e sua íntima, tomou-lhe um mestre de piano; logo desde as primeiras lições, a que ela assistia com enfeites de veludo vermelho e cheia de joias, o velho professor Aquiles Bentes, de óculos redondos e cara de coruja, excitado com a sua voz nasal:

– Minha rica senhora! O seu menino é um gênio! É um gênio! Há de ser um Rossini! É puxar por ele! É puxar por ele!

Mas era justamente o que ela não queria, era puxar por ele, coitadinho! Por isso não foi um Rossini. E todavia o velho Bentes continuava a dizer, por hábito:

– Há de ser um Rossini! Há de ser um Rossini!

Somente em lugar de o gritar, brandindo papéis de música, murmurava-o, os enormes de leão enfastiado.

Já então os dois rapazes vizinhos, Jorge e Sebastião, eram íntimos. Jorge mais inventivo, dominava-o. No quintal, a brincar, Sebastião era sempre nas imitações da diligência, o vencido nas guerras. Era Sebastião que carregava os pesos, que oferecia o dorso para Jorge trepar; nas merendas comia igual, deixava a Jorge toda a fruta. Cresceram. E aquela amizade sempre amuos, tornou-se na vida de ambos um interesse essencial e permanente.

Quando a mãe de Jorge morreu, pensaram mesmo em viver juntos; habitariam a casa de Sebastião, mais larga e que tinha quintal; Jorge queria comprar um cavalo, mas conheceu Luísa no Passeio, e daí a dois meses passava quase todo o seu dia na Rua da Madalena.

Todo aquele plano jovial da Sociedade Sebastião e Jorge – chamavam-lhe assim, rindo – desabou, como um castelo de cartas. Sebastião teve um grande pesar.

E era ele, depois, que fornecia os ramos de rosas que Jorge levava a Luísa, sem espinhos, com cuidados devotos, embrulhados num papel de seda. Era ele que tratava dos arranjos do “ninho”, ia apressar os estofadores, discutir preços de roupas, vigiar o trabalho dos homens que pregavam os tapetes, conferenciar com a inculcadeira, cuidar dos papéis do casamento!

E à noite, fatigado como um procurador zeloso, tinha ainda de escutar com as expansões felizes de Jorge, que passeava pelo quarto até as duas horas da noite, em mangas de camisa, namorado, loquaz, brandindo o cachimbo!

Depois do casamento Sebastião sentiu-se muito só. Foi a Portel visitar um Velho esquisito, com um olhar de doido, que passava a existência combinando enxertos no pomar, e lendo, relendo o Eurico. Quando voltou, passado um mês, Jorge disse-lhe radioso:

– E sabes, hem? Isto agora é que é a tua casa! Aqui é que tu vives!

Mas nunca obteve de Sebastião que fosse a sua casa com uma inteira intimidade. Sebastião batia à porta, timidamente. Corava diante de Luísa; o antigo “Peludo” de Latim reaparecia. Jorge lutara para que ele cruzasse sem cerimônia as pernas, fumasse cachimbo diante dela, não lhe dissesse a todo o momento: - “Vossa Excelência” - meio erguido na cadeira.

Nunca vinha jantar senão arrastado. Quando Jorge não estava, as suas visitas eram curtas, cheias de silêncio. Julgava-se gebo, tinha medo de maçar.

Nessa tarde, quando ele foi para a sala de jantar, a tia Joana veio-lhe perguntar pela Luisinha.

Adorava-a, achava-a um anjinho, uma açucena.

– Como está ela? Viu-a?

Sebastião corou; não quis dizer, como na véspera, que estava gente, que não tinha entrado; e abaixando-se, pondo-se a brincar com as orelhas do Trajano, o seu velho perdigueiro:

– Está boa, tia Joana, está boa. Então como há de estar? Está ótima!

Àquela hora Luísa recebia uma carta de Jorge. Era de Portel, com muitas queixas sobre o calor, sobre as más estalagens, histórias sobre o extraordinário parente de Sebastião – saudades e mil beijos…

Não a esperava, e aquela folha de papel cheia de uma letra miudinha, que lhe fazia reaparecer vivamente Jorge, a sua figura, o seu olhar, a sua ternura, deu-lhe uma sensação quase dolorosa. Toda a vergonha dos seus desfalecimentos cobardes, sob os beijos de Basílio, veio abrasar-lhe as faces. Que horror deixar-se abraçar, apertar! No sofá o que ele lhe dissera; com que olhos a devorara!… Recordava tudo – a sua atitude, o calor das suas mãos, a tremura da sua voz… E maquinalmente, pouco e pouco, ia-se esquecendo naquelas recordações, abandonando-se-lhes, até ficar perdida na deliciosa lassidão que elas lhe davam, com o olhar lânguido, os braços frouxos. Mas a ideia de Jorge vinha então outra vez fustigá-la como uma chicotada. Erguia-se bruscamente, passeava pelo quarto toda nervosa, com uma vaga vontade de chorar…

– Ah! Não! É horroroso, é horroroso! - dizia só, falando alto. - E necessário acabar!

Resolveu não receber Basílio, escrever-lhe, pedir-lhe que não voltasse, que partisse! Meditava mesmo as palavras; seria seca e fria, não diria “meu querido primo”, mas simplesmente “primo Basílio”.

E que faria ele, quando recebesse a carta? Choraria, coitado!

Imaginava-o só, no seu quarto de hotel, infeliz e pálido; e daqui, pelos declives da sensibilidade, passava à recordação da sua pessoa, da sua voz convincente, das turbações do seu olhar dominante; e a memória demorava-se naquelas lembranças com uma sensação de felicidade, como a mão se esquece acariciando a plumagem doce de um pássaro raro. Sacudia a cabeça com impaciência, como se aquelas imaginações fossem os ferrões de insetos importunos; esforçava-se por pensar só em Jorge; mas as ideias más voltavam, mordiam-na; e achava-se desgraçada, sem saber o que queria, com vontades confusas de estar com Jorge, de consultar Leopoldina, de fugir para longe, ao acaso. Jesus, que infeliz que era! - E do fundo da sua natureza de preguiçosa vinha-lhe uma indefinida indignação contra Jorge, contra Basílio, contra os sentimentos, contra os deveres, contra tudo o que a fazia agitar-se e sofrer. Que a não secassem, Santo Deus!

Depois de jantar, à janela da sala, ficou a reler a carta de Jorge. Pôs-se a recordar de propósito tudo o que a encantava nele, do seu corpo e das suas qualidades. E juntava ao acaso argumentos, uns de honra, outros de sentimento, para o amar, para o respeitar. Tudo era por ele estar fora, na província! Se ele ali estivesse ao pé dela! Mas tão longe, e demorar-se tanto! E ao mesmo tempo, contra a sua vontade, a certeza daquela ausência dava-lhe uma sensação de liberdade; a ideia de se poder mover à vontade nos desejos, nas curiosidades, enchia-lhe o peito de um contentamento largo, como uma lufada de independência.

Mas enfim, vamos, de que lhe servia estar livre, só? - E de repente tudo o que poderia fazer, sentir, possuir, lhe apareceria numa perspectiva longa que fulgurava; aquilo era como uma porta, subitamente aberta e fechada, que deixa entrever, num relance, alguma coisa de indefinido, de maravilhoso, que palpita e faísca – Oh! Estava doida, decerto!

Escureceu. Foi para a sala, abriu a janela; a noite estava quente e espessa, com um ar de eletricidade e de trovoada. Respirava mal; olhava para o céu, desejando alguma coisa fortemente, sem saber o quê.

O moço do padeiro embaixo, como sempre, tocava o fado; aqueles sons entravam-lhe agora na alma, com a brandura de um bafo quente e a melancolia de um gemido.

Encostou a cabeça à mão como uma lassidão. Mil pensamentozinhos corriam-lhe no cérebro como os pontos de luz que correm num papel que se queimou; lembrava-lhe sua mãe, o chapéu novo que lhe mandara M.me François, o tempo que faria em Sintra, a doçura das noites quentes sob a escuridão das ramagens…

Fechou a janela, espreguiçou-se; e sentada na causeuse, no seu quarto, ficou ali, numa imobilidade, pensando em Jorge, em lhe escrever, em lhe pedir que viesse. Mas bem depressa aquele cismar começou a quebrar-se a cada momento como uma tela que se esgaça em rasgões largos, e por trás aparecia logo como uma intensidade luminosa e forte a ideia do primo Basílio.

As viagens, os mares atravessados tinham-no tornado mais trigueiro; a melancolia da separação dera-lhe cabelos brancos. Tinha sofrido por ela! - E no fim onde estava o mal? Ele jurara-lhe que aquele amor era casto, passando-se todo na alma. Tinha vindo de Paris, o pobre rapaz, assim lho jurara, a ver, uma semana, quinze dias. E havia de dizer-lhe: “Não voltes; vai-te”?

Quando a senhora quiser o chá… - disse da porta do quarto Juliana.

Luísa deu um suspiro alto como acordando. Não; que trouxesse a lamparina, mais tarde.

Eram dez horas. Juliana foi tomar o seu chá à cozinha. O lume ia-se apagando, o candeeiro de petróleo estendia nos cobres dos tachos reflexos avermelhados.

– Hoje houve coisa, Sra. Joana – disse Juliana sentando-se. - Está toda no ar! E é cada suspiro! Ali houve-a e grossa.

Joana, do outro lado, com os cotovelos na mesa e a face sobre os punhos, pestanejava de sono.

– A Sra. Juliana, também, deita tudo para o mal – disse.

– É que era necessário ser tola, Sra. Joana!

Calou-se, cheirou o açúcar; era um dos seus despeitos; gostava dele bem refinado – e aquele açúcar mascavado e grosso, que punha no chá um gosto de formigas, exasperava-a.

– Este é pior que o do mês passado! Para uma pobre de Cristo tudo é bom! - rosnou muito amargamente.

E depois de uma pausa repetiu:

– É que era necessário ser tola, Sra. Joana!

A cozinheira disse preguiçosamente:

– Cada um sabe de si…

– E Deus de todos – suspirou Juliana.

E ficaram caladas.

Luísa tocou a campainha embaixo.

– Que teremos nós agora? Está com as cócegas.

Desceu. Voltou com o regador, muito enfastiada:

– Quer mais água! Olha a mania; pôs-se agora a chafurdar à meia-noite! Sempre a gente as vê…

Foi encher o regador, e enquanto a água da torneira cantava no fundo da lata:

– E diz que lhe faça amanhã ao almoço um bocado de presunto frito, do salgado. Quer picantes!

E com muito escárnio:

– Sempre a gente vê coisas! Quer picantes!

À meia-noite a casa estava adormecida e apagada. Fora, o céu enegrecera mais; relampejou, e um trovão seco estalou, rolou.

Luísa abriu os olhos estremunhada; começara a cair uma chuva grossa e sonora; a trovoada arrastava-se, ao longe. Esteve um momento escutando as goteiras que cantavam sobre o lajedo; a alcova abafava, descobriu-se; o sono tinha fugido, e de costas, o olhar fixo na vaga claridade que vinha de fora da lamparina, seguia o tique-taque do relógio. Espreguiçou-se, e uma certa ideia, uma certa visão foi-se formando no seu cérebro, completando-se tão nítida, quase tão visível, que se revirou na cama devagar, estirou os braços, lançou-os em roda do travesseiro, adiantando os beiços secos - para beijar uns cabelos negros onde reluziam fios brancos.

Sebastião tinha dormido mal. Acordou às seis horas e desceu ao quintal em chinelas. Uma porta envidraçada da sala de jantar abria para um terraçozinho, largo apenas para três cadeiras de ferro pintado e alguns vasos de cravos; dali, quatro degraus de pedra desciam para o quintal; era uma horta ajardinada, muito cheia, com canteirinhos de flores, saladas muito regadas, pés de roseiras junto dos muros, um poço e um tanque debaixo de uma parreirita, e árvores; terminava por um outro terraço assombreado de uma tília, com um parapeito para uma rua baixa e solitária; defronte corria um muro de quintal muito caiado. Era um sítio recolhido, de uma paz aldeã. Muitas vezes Sebastião, de madrugada, ia para ali fumar o seu cigarro.

Era uma manhã deliciosa. Havia um ar transparente e fino; o céu arredondava-se a uma grande altura com o azulado de certas porcelanas e, aqui e além, uma nuvenzinha algodoada, molemente enrolada, cor de leite; a folhagem tinha verde lavado a água do tanque uma cristalinidade fria; pássaros chilreavam de leve com voos rápidos.

Sebastião estava debruçado para a rua, quando a ponteira de uma bengala, passos vagarosos cortaram o silêncio fresco. Era um vizinho de Jorge, o Cunha Rosado, o doente de intestinos; arrastava-se, curvado, abafado num cachenê e num paletó cor de pinhão, com a barba grisalha desmazelada, a crescer.

– Já a pé vizinho! - disse Sebastião.

O outro parou, ergueu a cabeça lentamente.

– Oh, Sebastião! - disse com uma voz plangente. - Ando a passear os meus leites, homem!

– A pé?

– Ao princípio ia na burrita até fora de portas, mas diz que me fazia bem o passeiozito a pé…

Encolheu os ombros com um gesto triste de dúvida, de desconsolação.

– E como vai isso? - perguntou Sebastião, muito debruçado para a rua, com afeto.

O Cunha teve um sorriso desolado nos seus beiços brancos:

– A desfazer-se!

Sebastião tossiu, embaraçado, sem achar uma consolação.

– Mas o doente, com as duas mãos apoiados à bengala, uma súbita radiação de interesse no olhar amortecido:

– Ó Sebastião, um rapaz alto, que eu tenho visto todos estes dias entrar pala casa do Jorge, é o Basílio de Brito, pois não é? O primo da mulher? O filho do João de Brito?

– É, sim, por quê?

O Cunha fez: “Ah! Ah!” com uma grande satisfação.

– Bem dizia eu! - exclamou. - Bem dizia eu! E aquela teimosa que não! Que não!…

E então explicou com uma tagarelice súbita, e cansaços de voz:

– O meu quarto é para a rua, e todos os dias, como eu estou quase sempre pela janela para espairecer… tenho visto aquele rapaz, a modo estrangeirado, entrar para lá… todos os dias! “Este é o Basílio de Brito!” disse eu. Mas a minha mulher que não! Que não!… Que diabo, homem! Eu tinha quase a certeza… Não conheço eu outra coisa!… Até ele esteve para casar com a D. Luísa. Oh! Eu sei essa história na ponta dos dedos… Morava ela na Rua da Madalena!

Sebastião disse vagamente:

– Pois é, é o Brito…

– Bem dizia eu!

Ficou um momento imóvel, fitando o chão, e refazendo uma voz dolente:

– Pois, vou-me arrastando até casa.

Suspirou. E arregalando os olhos:

– Quem me dera a sua saúde, Sebastião!

E dizendo adeus, com um gesto da mão calçada de luva de casimira escura, afastou-se, curvado, rente do muro, conchegando com o braço ao ventre, o seu largo paletó cor de pinhão.

Sebastião entrou preocupado. Todo o mundo começava a reparar, hem! Pudera! Um rapaz novo, janota, vir todos os dias de trem, estar duas, três horas! Uma vizinhança tão chegada, tão maligna!…

Ao começo da tarde saiu. Teve vontade de procurar Luísa; mas sem saber por quê, sentia um grande acanhamento; como que receava encontrá-la diferente ou com outra expressão… E subia a rua devagar, sob o seu guarda-sol, hesitando, quando um cupê que descia a trote largo veio parar à porta de Luísa.

Um sujeito saltou rapidamente, atirou o charuto, entrou. Era alto, com um bigode levantado, trazia uma flor, no peito; devia ser o primo Basílio, pensou. O cocheiro limpou o suor da testa, e, cruzando as pernas, pôs-se a enrolar o cigarro.

Ao ruído do trem o Paula postou-se logo à porta, de boné carregado, as mãos enterradas no bolso, com olhares de revés; a carvoeira defronte, imunda, disforme de obesidade e de prenhez, veio embasbacar com um pasmo lorpa na face oleosa; a criada do doutor abriu precipitadamente a vidraça. Então o Paula atravessou rapidamente a rua faiscante de sol, entrou no estanque; daí a um momento apareceu à porta, com a estanqueira, de carão viúvo; e cochichavam, cravavam olhares pérfidos nas varandas de Luísa, no cupê! O Paula, dali, arrastando as chinelas de tapete, foi segredar com a carvoeira; provocou-lhe uma risada que lhe sacudia a massa do seio; e foi enfim estacar à sua porta entre um retrato de D. João VI e duas velhas cadeiras de couro, assobiando com júbilo. No silêncio da rua ouvia-se num piano, a compasso de estudo, a Oração de uma virgem.

Sebastião ao passar olhou maquinalmente para as janelas de Luísa.

– Rico calor, Sr. Sebastião! - observou o Paula curvando-se. - E um regalo estar à fresca!

Luísa e Basílio estavam muito tranquilos, muito felizes na sala, com as portadas meio cerradas, numa penumbra doce. Luísa tinha aparecido de roupão branco, muito fresca, com um bom cheiro de água de alfazema.

– Eu venho assim mesmo – disse ela. - Não faço cerimônias.

Mas assim é que ela estava linda! Assim é que a queria sempre! - exclamou Basílio muito contente, como se aquele roupão de manhã fosse já uma promessa da sua nudez.

Vinha muito tranquilo, afetava um tom de parente. Não a inquietou com palavras veementes, nem com gestos desejosos; falou-lhe do calor, de uma zarzuela que vira na véspera, de velhos amigos que encontrara, e disse-lhe apenas que tinha sonhado com ela.

O quê? Que estavam longe, numa terra distante, que devia ser a Itália, tantas as estátuas que havia nas praças, tantas as fontes sonoras que cantavam nas bacias de mármore; era num jardim antigo, sobre um terraço clássico; flores raras transbordavam de vasos florentinos; pousando sobre as balaustradas esculpidas, pavões abriam as caudas; e ela arrastava devagar sobre as lajes quadradas a cauda longa do seu vestido de veludo azul. De resto, dizia, era um terraço como de São Donato, a vila do Príncipe Demidoff – porque lembrava sempre as suas intimidades ilustres, e não se descuidava de fazer reluzir a glória das suas viagens.

E ela, tinha sonhado?

Luísa corou. - Não, tinha tido muito medo da trovoada. Tinha ouvido a trovoada, ele?

– Estava a cear no Grêmio, quando trovejou.

– Costumas cear?

Ele teve um sorriso infeliz. - Cear! Se se podia chamar cear ir ao Grêmio rilhar um bife córneo e tragar um Colares peçonhento!

E fitando-a:

– Por tua causa, ingrata!

– Por sua causa?

– Por quem, então? Por que vim eu a Lisboa? Por que deixei Paris?

– Por causa dos teus negócios…

Ele encarou-a severamente:

– Obrigado – disse, curvando-se até ao chão.

E a grandes passadas pela sala soprava violentamente o fumo do seu charuto.

Veio sentar-se bruscamente ao pé dela. - Não, realmente era injusta. Se em Lisboa, era por ela. Só por ela!

Fez uma voz meiga; perguntou-lhe se lhe tinha realmente um bocadinho de amor muito pequenino, assim… - Mostrava o comprimento da unha.

Riram.

– Assim, talvez.

E o peito de Luísa arfava.

Ele então examinou-lhe as unhas; admirou lhas e aconselhou-lhe o verniz que usam as cocotes, que lhes dá um lustre polido; ia-se apossando da sua mão, pôs-lhe um beijo na ponta dos dedos; chupou o dedo mínimo, jurou que era muito doce; arranjou-lhe com um contato muito tímido uns fios de cabelos que se tinham soltado – e, disse, tinha um pedido a fazer-lhe!

Olhava-a com uma suplicação.

– Que é?

– É que venhas comigo ao campo. Deve estar lindo no campo!

Ela não respondeu; dava pancadinhas leves nas pregas moles do roupão.

– É muito simples – acrescentou ele. - Tu vais-me encontrar a qualquer parte, longe daqui, está claro. Eu estou à espera de ti com uma carruagem, tu saltas para dentro e fouette, cocher!

Luísa hesitava.

– Não digas que não.

– Mas onde?

– Onde tu quiseres. A Paço de Arcos, a Loures, a Queluz. Dize que sim.

A sua voz era muito urgente; quase ajoelhara.

– Que tem? É um passeio de amigos, de irmãos.

– Não! Isso não!

Basílio zangou-se, chamou-lhe beata. Quis sair. Ela veio tirar-lhe o chapéu da mão, muito meiga, quase vencida.

– Talvez, veremos – dizia.

– Dize que sim! - insistia. - Sê boa rapariga!

– Pois sim, amanhã veremos; amanhã falaremos.

Mas no dia seguinte, muito habilmente, Basílio não falou no passeio, nem no campo. Não falou também do seu amor, nem dos seus desejos. Parecia muito alegre, muito superficial; tinha-lhe trazido o romance de Belot, À Mulher de Fogo. E sentando-se ao piano, disse-lhe canções de café-concerto, muito picantes; imitava a rouquidão acre e canalha das cantoras; fê-la rir.

Depois falou muito de Paris; contou-lhe a moderna crônica amorosa, anedotas, paixões chiques. Tudo se passava com duquesas, princesas, de um modo dramático e sensibilizador, às vezes jovial, sempre cheio de delícias. E, de todas as mulheres de que falava, dizia recostando-se: era uma mulher distintíssima; tinha naturalmente o seu amante…

O adultério aparecia assim um dever aristocrático. De resto a virtude parecia ser, pelo que ele contava, o defeito de um espírito pequeno, ou a ocupação reles de um temperamento burguês…

E quando saiu, disse, como recordando-se:

– Sabes que estou com minhas ideias de partir?…

Ela perguntou, um pouco descorada:

– Por quê?

Basílio disse, muito indiferente:

– Que diabo faço eu aqui?… Esteve um momento a fitar o tapete, deu um suspiro, e como dominando-se:

– Adeus, meu amor…

E saiu.

Quando nessa tarde Luísa entrou na sala de jantar, levava os olhos vermelhos.

Foi ela no dia seguinte que falou do campo. Queixou-se do contínuo calor, da seca de Lisboa. Como devia estar lindo em Sintra!

– És tu que não queres – acudiu ele. - Podíamos fazer um passeio adorável.

Mas tinha medo, podiam ver…

– O quê! Num cupê fechado? Com os estores descidos?

Mas então era pior que estar numa sala; era abafar numa boceta! Mas não! Iam a uma quinta. Podiam ir às Alegrias, à quinta de um amigo que estava em Londres. Só viviam lá os caseiros; era ao pé dos Olivais; era lindo! Belas ruas de loureiros, sombras adoráveis. Podiam levar gelo, champanhe…

– Vem! - disse bruscamente, tomando-lhe as mãos.

Ela corou. - Talvez. No domingo veria.

Basílio conservava-lhe as mãos presas. Os seus olhos encontraram-se, umedeceram-se. Ela sentiu-se muito perturbada: desprendeu as mãos; foi abrir as vidraças ambas, dar à sala uma claridade larga como uma publicidade; sentou-se numa cadeira ao pé do piano, receando a penumbra, o sofá, todas as cumplicidades; e pediu-lhe que cantasse alguma coisa, porque já temia as palavras, tanto como os silêncios! Basílio cantou a Medjé, a melodia de Gounod, tão sensual e perturbadora. Aquelas notas quentes passavam-lhe na alma como bafos de uma noite elétrica. E quando Basílio saiu, ficou sentada, quebrada, como depois de um excesso.

Sebastião tinha estado nos últimos três dias em Almada, na Quinta do onde trazia obras.

Voltara na segunda-feira cedo, e, pelas dez horas, sentado no poial da janela de jantar que abria para o terraçozinho, esperava o seu almoço, brincando com o Rolim – o seu gato, amigo e confidente da ilustre Vicência, nédio como um prelado, ingrato como um tirano.

A manhã começava a aquecer; o quintal estava já cheio de sol; na água do tanque, sob a parreira, claridades espelhadas e trêmulas faiscavam. Nas duas gaiolas os canários cantavam estridentemente.

A tia Joana, que andava a arranjar a mesa do almoço muito calada, pôs-se então a dizer com a sua vozinha arrastada e minhota:

– Ora, esteve aí ontem a Gertrudes, a do doutor, com uns palratórios, com umas tontices!…

– A respeito de quê, tia Joana? - perguntou Sebastião.

– A respeito de um rapaz, que diz que vai agora todos os dias à casa da Luisinha.

Sebastião ergueu-se logo:

– Que disse ela, tia Joana?

A velha assentava a toalha devagar com a sua mão gorducha espalmada:

– Esteve ai a palrar. Quem seria, quem não seria? Diz que é um perfeito rapaz. Vem todos os dias. Vem de trem, vai de trem… No sábado, que estivera até quase à noitinha. E cantou-se na sala, diz que uma voz que nem no teatro…

Sebastião interrompeu-a, impaciente:

– É o primo, tia Joana. Então quem havia de ser? É o primo que chegou do Brasil.

A tia Joana teve um bom sorriso.

– Eu logo vi que era coisa de parente. Pois diz que é um perfeito rapaz! E todo janota!

E saindo para a cozinha, devagar:

– Eu logo vi que era parente, logo disse!…

Sebastião almoçou inquieto. Positivamente a vizinhança já se punha a mexericar, a comentar! Estava-se a armar um escândalo! - E, assustado, decidiu-se logo a ir consultar Julião.

Descia a Rua de São Roque para casa dele, quando o viu, que subia devagar pela sombra, com um rolo de papel debaixo do braço, uma calça branca enxovalhada, o ar suado.

– Ia a tua casa, homem! - disse Sebastião logo.

Julião estranhou a excitação desusada da sua voz.

Havia alguma novidade? Que era?

– Uma do diabo! - exclamou, baixo, Sebastião.

Estavam parados ao pé da confeitaria. Na vidraça, por trás deles, emprateleirava-se uma exposição de garrafas de malvasia com os seus letreiros muito coloridos, transparências avermelhadas de gelatinas, amarelidões enjoativas de doces de ovos, e queques de um castanho-escuro tendo espetados cravos tristes de papel branco ou cor-de-rosa. Velhas natas lívidas amolentavam-se no oco dos folhados; ladrilhos grossos de marmelada esbeiçavam-se ao calor; as empadinhas de marisco aglomeravam as suas crostas ressequidas. E no centro, muito proeminente numa travessa, enroscava-se uma lampreia de ovos medonha e bojuda, com o ventre de um amarelo ascoroso, o dorso malhado de arabescos de açúcar, a boca escancarada; na sua cabeça grossa esbugalhavam-se dois horríveis olhos de chocolates; os seus dentes de amêndoa ferravam-se numa tangerina de chila; e em torno do monstro espapado moscas esvoaçavam.

– Vamos ali para o café – disse Julião. - Aqui na rua arde-se!

– Tenho estado apoquentado – ia dizendo Sebastião. - Muito apoquentado! Quero falar-te.

No café o papel azul-ferrete e as meias portas fechadas abatiam a áspera intensidade da luz, davam uma frescura calada.

Foram-se sentar ao fundo. Do outro lado da rua as fachadas muito caiadas brilhavam com uma radiação faiscante. Por trás do balcão, onde reluziam garrafas de cristal, um criado de jaquetão, estremunhado e esguedelhado, cabeceava de sono. Um pássaro chilreava dentro; sentia-se o bater espaçado das bolas do bilhar através de uma porta de baeta verde; às vezes o pregão de um cangalheiro na rua sobressaia, e – todos estes sons, por momentos se perdiam no ruído forte do descer de um trem travado.

Defronte deles um sujeito de ar debochado lia um jornal; as suas melenas grisalhas colavam-se a um crânio amarelado; o bigode tinha tons queimados do cigarro; e das noitadas ficara-lhe uma vermelhidão inflamada nas pálpebras. De vez em quando erguia preguiçosamente a cabeça, atirava para o chão areado um jato escuro de saliva, dava uma sacudidela triste ao jornal e tornava a fitá-lo com ar infeliz. Quando os dois entraram e pediram carapinhadas, abaixou-lhes gravemente a cabeça.

Mas o que é então? - perguntou logo Julião. Sebastião chegou-se mais para ele:

– É por causa lá da nossa gente. Por causa do primo – disse baixo.

E acrescentou:

– Tu viste-lo, hem?

A lembrança repentina da sua humilhação na sala de Luísa trouxe um rubor de Julião. Mas muito orgulhoso, disse secamente:

– Vi

– E então?

– Pareceu-me um asno! - exclamou, não se contendo.

– É um extravagante – disse com terror Sebastião. - Não te pareceu, hem?

– Pareceu-me um asno – repetiu. - Umas maneiras, uma afetação, um alambicado, a olhar muito para as meias, umas meias ridículas de mulher…

E com um certo sorriso azedado:

– Eu mostrei-lhe francamente as minhas botas. Estas – disse, apontando para os botins mal – engraxados –, tenho muita honra nelas; são de quem trabalha…

Porque publicamente costumava gloriar-se de uma pobreza, que intimamente não o cessava de o humilhar.

E remexendo devagar a sua carapinhada:

– Uma besta! - resumiu.

– Ti sabes que ele foi namoro da Luísa? - disse Sebastião, baixo, como assustado da gravidade da confidência.

E respondendo logo ao olhar surpreendido de Julião:

– Sim. Ninguém o sabe. Nem Jorge. Eu soube-o há pouco, há meses. Foi. Estiveram a casar. Depois o pai faliu, ele foi para o Brasil, e de lá escreveu a romper o casamento.

Julião sorriu, e encostando a cabeça à parede:

– Mas isso é o enredo da Eugênia Grandet, Sebastião! Estás-me a contar o romance de Balzac! Isso é a Eugênia Grandet!

Sebastião fitou-o espantado.

– Ora! Não se pode falar sério contigo. Dou-te a minha palavra de honra! - acrescentou vivamente.

– Vá, Sebastião, vá, dize.

Houve um silêncio. O sujeito calvo, agora, contemplava o estuque do teto sujo de fumo dos cigarros e do pousar das moscas; e, com a mão sapuda, de tom pegajoso, cofiava amorosamente as repas. No bilhar vozes altercavam.

Sebastião então, como tomado de uma resolução, disse bruscamente:

– E agora vai lá todos os dias, não sai de lá!

Julião afastou-se na banqueta e encarou-o:

– Tu queres-me dar a entender alguma coisa, Sebastião?

E com uma vivacidade quase jovial:

– O primo atira-se?

Aquela palavra escandalizou Sebastião.

– Ó Julião! - E severamente: - Com essas coisas não se brinca!

Julião encolheu os ombros.

– Mas está claro que se atira! - exclamou. - És de bom tempo ainda! Está claro que sim! Namorou-a solteira, agora quere-a casada!

– Fala baixo – acudiu Sebastião.

Mas o criado dormitava, e o sujeito calvo tinha recaído na sua leitura fúnebre.

Julião baixou a voz:

– Mas é sempre assim, Sebastião. O primo Basílio tem razão; quer o prazer sem a responsabilidade!

E quase ao ouvido dele:

– É de graça, amigo Sebastião! É de graça! Tu não imaginas que influência isto tem no sentimento!

Riu-se. Estava radioso; as palavras, as pilhérias vinham-lhe com abundância:

– Há um marido que a veste, que a calça, que a alimenta, que a engoma, que a vela se está doente; que a atura se ela está nervosa; que tem todos os encargos, todos os tédios, todos os filhos, todos, todos os que vierem, sabes a lei… Por consequência o primo não tem mais que chegar, bater ao ferrolho, encontra-a asseada, fresca, apetitosa à custa do marido, e…

Teve um risinho, recostou-se com uma grande satisfação, enrolando deliciosamente o cigarro, regozijando-se no escândalo.

– É ótimo! - acrescentou. - Todos os primos raciocinam assim. Basílio é primo, logo… Sabes o silogismo, Sebastião! Sabes o silogismo, menino! - gritou, dando-lhe uma palmada na perna.

– É o diabo – murmurou Sebastião cabisbaixo.

Mas revoltando-se contra a suspeita que o ia dominando:

– Mas tu supões que uma rapariga de bem…

– Eu não suponho nada! - acudiu Julião.

– Fala baixo, homem!

– Eu não suponho nada – repetiu Julião baixinho. - Eu afirmo o que ele faz. Agora ela…

E acrescentou com secura:

– Como é uma rapariga honesta…

– Se é! - exclamou Sebastião, batendo uma punhada na pedra da mesa.

– Pronto! - cantou arrastadamente o moço.

O velho calvo ergueu-se logo; mas vendo que o criado se recolhia ao balcão bocejando, e que os dois continuavam a remexer a sua carapinhada, encostou os cotovelos à mesa, salivou para longe, e puxando o jornal deixou-lhe cair em cima um olhar desolado.

Sebastião disse, então, com tristeza:

– A questão não é por ela. A questão é pela vizinhança.

Ficaram calados um momento. A altercação de vozes no bilhar crescia.

– Mas – disse Julião, como saindo de uma reflexão – a vizinhança?

– Sim, homem! Veem entrar para lá o rapaz. Vem de tipoia; faz um escândalo na rua. Já se fala. Já vieram com mexericos à tia Joana. Há dias encontrei o Neto que reparou. O Cunha também. O homem dos trastes, embaixo, não se faz nada que ele não dê fé; são umas línguas de tremer. Há dias ia eu a passar quando o primo se apeou da carruagem para entrar, e foram logo conciliábulos na rua, olhadelas para a janela, o diabo! Vai lá todos os dias. Sabem que o Jorge está no Alentejo… Está duas e três horas. É muito sério, é muito sério!

– Mas ela então é tola!

– Não vê o mal…

Julião encolheu os ombros, duvidando.

Mas a porta de baeta do bilhar abriu-se; um homem hercúleo, de bigode negro, muito escarlate, saiu bruscamente, e parando, segurando a porta aberta, gritou para dentro:

– E fique sabendo que havia de encontrar homem!

Uma voz grossa, do bilhar, respondeu-lhe uma obscenidade.

O sujeito hercúleo atirou a porta, furioso; atravessou o café resfolegando, apoplético; um rapaz chupado, de jaquetão de inverno e calça branca, seguia-o, com um ar gingado.

– O que eu devia fazer – exclamava o agigantado, brandindo o punho – era quebrar a cara àquele pulha!

O rapaz chupado dizia, com doçura e servilismo, bamboleando-se:

– Questões não servem para nada, Sô Correia!

– É que sou muito prudente – berrou o hercúleo. - É que me lembro tenho mulher e filhos! Se não bebia-lhe o sangue!

E saindo, a sua voz roncante perdeu-se no rumor da rua.

O criado muito pálido, tremia dentro do balcão; e o sujeito calvo, que erguera a cabeça, teve um sorriso de tédio, e retomou tristemente o jornal.

Sebastião, então, disse refletindo:

– Não te parece que seria bom avisá-la?

Julião encolheu os ombros, soltou uma baforada de fumo.

– Dize alguma coisa! - implorou Sebastião. - Tu não ias falar-lhe, hem?

– Eu? - exclamou Julião com um aspecto que repelia a ideia. - Eu! Estás doido!

– Mas que te parece, enfim?

E a voz de Sebastião tinha quase uma aflição.

Julião hesitou:

– Vai, se queres. Diz-lhe que se tem reparado… Enfim, eu não sei, meu amigo!

E pôs-se a chupar o seu cigarro.

Aquele mutismo afetou Sebastião. Disse com desconsolação:

– Homem, vim-te pedir um conselho…

– Mas que diabo queres tu? - E a voz de Julião irritava-se. - A culpa é dela. É dela! - insistiu, vendo o olhar de Sebastião. - É uma mulher de vinte e cinco anos, casada há quatro, deve saber que se não recebe todos os dias um peralvilho, numa rua pequena, com a vizinhança a postos! Se o faz, é porque lhe agrada.

– Ó Julião! - disse muito severamente Sebastião.

E dominando-se, com a voz comovida:

– Não tens razão, não tens razão!

Calou-se muito magoado.

Julião levantou-se.

– Amigo Sebastião, eu digo o que penso; tu fazes o que entendes.

Chamou o criado.

– Deixa – disse Sebastião precipitadamente, pagando.

Iam sair. Mas então o sujeito calvo, atirando o jornal, arremessou-se para a porta, abriu-a, curvou-se, e estendeu a Sebastião um papel enxovalhado.

Sebastião, surpreendido, leu alto, maquinalmente:

- “O abaixo-assinado, antigo empregado da nação, reduzido a miséria…”

– Fui íntimo amigo do nobre Duque de Saldanha! - gemeu chorosamente, com uma rouquidão, o sujeito calvo.

Sebastião corou, cumprimentou, meteu-lhe na mão duas placas de cinco tostões, discretamente.

O sujeito dobrou profundamente o espinhaço e declamou com uma voz cava:

– Mil agradecimentos a Vossa Excelência, senhor conde!

CAPÍTULO V

A manhã estava abrasadora. Um pouco depois do meio-dia, Joana, estirada numa velha cadeira de vime da Ilha da Madeira que havia na cozinha, dormitava a sesta. Como madrugava muito, àquela hora da calma vinha-lhe sempre uma quebreira.

As janelas estavam cerradas ao sol faiscante; as panelas no lume faziam um romrom dormente; e toda a casa, muito silenciosa, parecia amodorrada no amolecimento do calor tórrido, quando Juliana entrou como uma rajada, atirou para o chão furiosa, uma braçada de roupa suja, e gritou:

– Raios me partam se não há um escândalo nesta casa que vai tudo raso!

Joana deu um salto estremunhada.

– Quem quer as coisas em ordem olha por elas! - berrava a outra com os olhos injetados. - Não é estar todo o dia na sala a palrar com as visitas!

A cozinheira foi fechar a porta precipitadamente, já assustada.

– Que foi, Sra. Juliana, que foi?

– Está com a mosca! Tem o sangue a ferver! Sangrias! Sangrias! Tem peguilhado por tudo! Não estou para a aturar, não estou!

E batia o pé com frenesi.

– Mas que foi? Que foi?

– Diz que os colarinhos tinham pouca goma; pôs-se a despropositar! Estou a aturar! Estou farta! Estou até aqui! - bradava, puxando a pele engelhada da garganta. - Pois que me não faça sair de mim! Que me vou, e pespego-lhe na cara por quê! Desde que aqui temos homem e pouca-vergonha, boas noites!… Quem quiser que se meta em alhadas…

– Ó Sra. Juliana, pelo amor de Deus! Jesus! - E a Joana apertava a cabeça nas mãos. - Ai, se a senhora ouve!

– Que ouça, digo-lho na cara! Estou farta! Estou farta!

Mas, de repente, fez-se branca como a cal; caiu sobre a cadeira de vime com as duas mãos contra o coração, os olhos em alvo.

– Sra. Juliana! - gritou Joana. - Sra. Juliana! Fale! Borrifou-a de água; sacudiu-a ansiosamente.

– Nossa Senhora nos valha! Nossa Senhora nos valha! Está melhor? Fale! Juliana deu um suspiro longo, de alívio, cerrou as pálpebras. E arquejava devagarinho, muito prostrada.

– Como se sente? Quer um caldinho? É fraqueza; há de ser fraqueza… Foi a pontada – murmurou Juliana.

Ai! Aqueles frenesis matavam-na! - dizia a cozinheira, remexendo-lhe o caldo, muito pálida também. - A gente tinha de aturar os amos! Que tomasse a “substância”, que sossegasse!…

Naquele momento Luísa abriu a porta. Vinha em colete e saia branca.

Que barulho era aquele?

A Sra. Juliana, que lhe tinha dado uma coisa, quase desmaiara…

Foi a pontada – balbuciou Juliana.

E erguendo-se, com um esforço:

– Se a senhora não precisa nada, vou ao médico…

– Vá, vá! Disse Luísa logo. E desceu.

Juliana pôs-se a tomar o seu caldo com um vagar moribundo. Joana consolava-a baixo: - Também, a Sra. Juliana arrenegava-se por qualquer coisa. E quando a gente tem pouca saúde não há nada pior que enfrenesiar-se…

– É que não imagina! - e abafava a voz arregalando os olhos. - Tem estado de não se poder aturar! Está-se a vestir que nem para uma partida! Amarfanhou uns poucos de colares, atirou-os para o chão, que eu engomava que era uma porcaria, que não servia para nada… Ai! Estou farta! - repetia. - Estou farta!

– É ter paciência! Todos têm a sua cruz!

Juliana teve um sorriso lívido, ergueu-se com um grande “ai”, escabichou os dentes, apanhou a roupa suja, e subiu ao sótão.

Daí a pouco, de luvas pretas, muito amarela, saiu.

Ao dobrar a esquina da rua, defronte do estanque, parou indecisa. Até ao médico era um estirão!… E estava, que lhe tremiam as pernas!… Mas também, largar três tostões para trem!…

– Psiu, psiu! - fez do lado uma voz doce.

Era a estanqueira, com o seu longo vestido de luto tingido, o seu sorriso desconsolado.

Que era feito da Sra. Juliana? A dar o seu passeio, hem?

Gabou-lhe a sombrinha preta de cabo de osso. De muito gosto – disse.

– E como ia de saúde?

Mal. Dera-lhe a pontada. Ia ao médico…

Mas a estanqueira não tinha fé nos médicos. Era dinheiro deitado à rua… Citou a doença do seu homem, os gastos, um ror de moedas. E para quê? Para o ver penar e morrer como se nada fosse! Era um dinheiro que sempre chorava!

E suspirou. Enfim, fosse feita a vontade de Deus! E lá por casa do senhor engenheiro?

– Tudo sem novidade.

– Ó Sra. Juliana, quem é aquele rapaz que vai agora por lá todos os dias?

Juliana respondeu logo:

– É o primo da senhora.

– Dão-se muito!…

– Parece.

Tossiu, e com um cumprimentozinho:

– Pois, muito boas tardes, Sra. Helena.

E foi resmungando:

– Ora, fica-te a chuchar no dedo, lesma!

Juliana detestava a vizinhança; sabia que a escarneciam, que a imitavam, que lhe chamavam a “Tripa Velha”!… Pois também dela não haviam de saber nada! Podiam rebentar de curiosidade! Vinham de carrinho! Boa! Tudo o que visse ou que lhe cheirasse havia de ficar guardadinho, lá dentro. - “Para uma ocasião” - pensava com rancor, sacudindo os quadris.

A estanqueira ficou à porta, despeitada. E o Paula dos móveis, que as vira conversar, veio logo, deslizando sutilmente nas suas chinelas de tapete:

– Então a Tripa Velha escorregou-se? Ai! Não se lhe tira nada!

O Paula enterrou as mãos nos bolsos, com tédio:

– Aquilo, a do Engenheiro besunta-lhe as mãos… É ela quem abre a portita de noite…

– Tanto não direi! Credo!

Paula fitou-a com superioridade:

– A Sra. Helena está ai ao seu balcão… Mas eu é que as conheço, as mulheres da alta sociedade! Conheço-as nas pontas dos dedos. É uma cambada!

Citou logo nomes, alguns ilustres; tinham amantes inumeráveis: até trintanários. Algumas fumavam, outras entortavam-se. E pior! E pior!

– E passeiam por ai, muito repimpadas de carrinho, à barba da gente de bem!

– Falta de religião! - suspirou a estanqueira.

O Paula encolheu os ombros:

– A religião é que é, Sra. Helena! Com os padres é que é!

E agitando furioso o punho fechado:

– Com os padres é uma choldra viva!

– Credo, Sr. Paula, que até lhe fica mal!…

E o carão amarelado da estanqueira tinha uma severidade de devota ofendida.

– Ora, histórias, Sra. Helena! - exclamou o homem com desprezo.

E bruscamente:

– Por que é que acabaram os conventos? Diga-me! Porque era um desaforo lá dentro.

– Oh, Sr. Paula! Oh, Sr. Paula! - balbuciava a Helena, recuando, encolhendo-se

O Paula atirava-lhe as impiedades como punhaladas.

– Um desaforo! De noite as freiras vinham por um subterrâneo ter com os vinhaças e mais vinhaça. E batiam o fandango em camisa! Anda isso por aí em todos os livros.

E erguendo-se nas chinelas:

– E os jesuítas, se vamos a isso! Sim! Diga!

Mas recuou, e levando a mão à pala do boné:

– Um criado da senhora – disse com respeito.

Era Luísa que passava, vestida de preto, o véu descido. Ficaram calados, a olhá-la.

– Que ela é muito bonita! - murmurou a estanqueira, com admiração.

O Paula franziu a testa:

– Não é mau bocado… - disse. E acrescentou, com desdém: - Pra quem gosta daquilo!…

Houve um silêncio. E o Paula rosnou:

– Não são as saias que me levam o tempo, nem disto!…

E bateu no bolso do colete, fazendo tilintar dinheiro.

Tossiu, pigarreou, e ainda áspero:

– Venha de lá um pataco de Xabregas.

Foi para a porta do estanco enrolar o cigarro, assobiar; mas os seus olhos arregalaram-se indignados; numa das janelas de cima na casa do Engenheiro, tinha avistado, por entre as vidraças abertas, a figura enfezada do Pedro, o carpinteiro.

Voltou-se para a estanqueira, e cruzando dramaticamente os braços:

– E agora, que a patroa vai à vida, lá está o rapazola a entender-se com a criada!

Soltou uma larga baforada de fumo, e com uma voz soturna:

– Aquela casa vai-se tornando um prostíbulo!

– Um que, Sr. Paula?

– Um prostíbulo, Sra. Helena! E como se dissesse um alcouce!

E, com passos escandalizados, o patriota afastou-se.

Luísa ia enfim ao campo com Basílio. Consentira na véspera, declarando logo que era só um passeio de meia hora, de carruagem, sem se apearem. Basílio ainda insistiu, falando em sombras de alamedas, uma merendinha, relvas Mas ela recusou, muito teimosa, rindo, dizendo: - Nada de relvas!…

E tinham combinado encontrar-se na Praça da Alegria. Chegou tarde, já depois das duas e meia, com o guarda solinho muito carregado sobre o rosto, toda assustada.

Basílio esperava, fumando, num cupê, à esquina, debaixo de uma árvore. Abriu rapidamente a portinhola, e Luísa entrou fechando atrapalhadamente a sombrinha; o vestido prendeu-se ao estribo, esgaçou-se no rufo de seda; e achou-se ao lado dele, muito nervosa, ofegante, com o rosto abrasado, murmurando:

– Que tolice, que tolice esta!

Mal podia falar. O cupê partiu logo a trote. O cocheiro era o Pintéus, um batedor.

– Tão cansada, coitadinha! - disse-lhe Basílio muito meigo. Levantou-lhe o véu; estava suada; os seus largos olhos brilhavam da excitação, da pressa, do medo…

– Que calor, Basílio!

Quis descer um dos vidros do cupê.

– Não, isso não! Podiam vê-los! Quando passassem as portas…

– Para onde vamos nós?

E espreitava, levantando o estore.

– Vamos para o lado do Lumiar, é o melhor sítio. Não queres?

Encolheu os ombros. Que lhe importava? Ia sossegando; tinha tirado o véu e as luvas; sorria, abanando-se com o lenço, de onde saia um aroma fresco.

Basílio prendeu-lhe o pulso, pôs-lhe muitos beijos longos, delicados, na pele fina, azulada de veiazinhas.

– Tu prometeste ter juízo! - fez ela com um sorriso cálido olhando-o de lado.

Ora! Mas um beijo, no braço! Que mal havia? Também era necessário não ser beata!

E olhava-a avidamente.

Os velhos estores do cupê corridos eram de seda vermelha, e a luz que os atravessava envolvi-a num tom igual, cor-de-rosa e quente. Os seus beiços tinham um escarlate molhado, a lisura sã de uma pétala de rosa; e ao canto do olho um ponto de luz movia-se num fluido doce.

Não se conteve, passou-lhe os dedos um pouco trêmulos nas fontes, nos cabelos, com uma carícia fugitiva e assustada, e com a voz humilde:

– Nem um beijo na face, um só?

– Um só? - fez ela.

Pousou-lho delicadamente ao pé da orelha. Mas aquele contato exasperou-lhe o desejo brutalmente; teve um som de voz soluçado; agarrou-a com sofreguidão, e atirava-lhe beijos tontos pelo pescoço, pela face, pelo chapéu…

– Não! Não! - balbuciava ela, resistindo. - Quero descer! Dize que pare! Batia nos vidros; esforçava-se por correr um, desesperada, magoando os dedos na dura correia suja.

Basílio pôs-se a suplicar; que lhe perdoasse! Que doidice, zangar-se por um beijo! Se ela estava tão linda!… Fazia-o doido. Mas jurava ir quieto, muito quieto…

A carruagem, ao pé das portas, rolava sacudida na calçada miúda; nas terras, aos lados, as oliveiras de um verde empoeirado estavam imóveis na luz branca e sobre a erva crestada o sol batia duramente numa fulguração contínua.

Basílio tinha descido um dos vidros; o estore corrido palpitava brandamente, pôs-se então a falar-lhe ternamente de si, do seu amor, dos seus planos. Estava resolvido a vir estabelecer-se em Lisboa – dizia. - Não tencionava casar-se; "não compreendia nada melhor do que viver ao pé dela, sempre. Dizia-se desiludido, enfastiado. Que mais lhe podia oferecer a vida? Tinha tido as sensações dos amores efêmeros, as aventuras das longas viagens. Ajuntara alguma de seu – e sentia-se velho.

Repetia, fitando-a, tomando-lhe as mãos:

– Não é verdade que estou velho?

– Não muito – e os seus olhos umedeciam-se.

Ah! Estava! Estava! O que lhe apetecia agora era viver para ela, vir descansar nas da sua intimidade. Ela era a sua única família. - Fazia-se muito parente. - A família no fim de tudo é o que há de melhor ainda. Não te incomoda que eu fume?

E acrescentou, raspando o fósforo:

– O que há de bom na vida é uma afeição profunda como a nossa. Não é verdade? Contento-me com pouco, de resto. Ver-te todos os dias, conversar muito, saber que me estimas… - Por dentro do campo, ó Pintéus! - gritou com força pela portinhola.

O cupê entrou a passo no Campo Grande. Basílio ergueu os estores; um ar mais vivo penetrou. O sol caía sobre o arvoredo, transpassando-o de uma luz faiscante, formando no chão poeirento e branco sombras quentes de ramagens. Tudo tinha em redor um aspecto ressequido e exausto. Na terra gretada, a erva curta, crestada, fazia tons cinzentos. Na estrada, ao lado, arrastava-se uma poeira amarelada. Saloios passavam, amodorrados sobre o albardão, bamboleando as pernas, abrigados sob os vastos guarda-sóis escarlates; e a luz que vinha de um céu azul-ferrete, acabrunhador, fazia reluzir com uma radiação crua as paredes muito caiadas, as águas de algum balde esquecido às portas, todas as brancuras de pedras.

E Basílio continuava:

– Vendo tudo o que tenho lá fora, alugo aqui uma casinha em Lisboa, em Buenos Aires, talvez… Não te agrada? Dize…

Ela calava-se; aquelas palavras, as promessas, a que a voz dele metálica e velada dava um vigor mais amoroso, iam-na perturbando como a inebriação dum licor forte. O seu seio arfava.

Basílio baixou a voz, disse:

– Quando estou ao pé de ti sinto-me tão feliz; parece-me tudo tão bom!…

– Se isso fosse verdade! - suspirou ela, encostando-se para o fundo do cupé.

Basílio prendeu-lhe logo a cintura; jurou-lhe que sim! Ia pôr a sua fortuna em inscrições. Começou a dar-lhe provas: já falara a um procurador; citou-lhe o nome, um seco, de nariz agudo…

E apertando-a contra si, os olhos muito vorazes:

– E se fosse verdade, dize, que fazias?

– Nem eu sei – murmurou ela.

Iam entrando no Lumiar, e por prudência desceram os estores. Ela afastou um, e, espreitando, via fora passar rapidamente, ao lado do trem, árvores empoeiradas; um muro de quinta de um cor-de-rosa sujo, fachadas de casas mesquinhas; um ônibus desatrelado; mulheres sentadas ao portal, à sombra, catando os filhos; e um sujeito vestido de branco, de chapéu de palha, que estacou, arregalou os olhos para as cortinas fechadas do cupé. E ia desejando habitar ali numa quinta, longe da estrada; teria uma casinha fresca com trepadeiras em roda das janelas, parreiras. Sobre pilares de pedra, pés de roseiras, ruazinhas amáveis sob árvores entrelaçadas, um tanque debaixo de uma tília, onde de manhã as criadas ensaboariam, bateriam a roupa, palrando. E ao escurecer, ela e ele, um pouco quebrados das felicidades da sesta, iriam pelos campos, ouvindo sob o céu que se estrela, o coaxar triste das rãs.

Cerrou os olhos. O movimento muito lançado do cupê, o calor, a presença dele, o contato da sua mão, do seu joelho, amoleciam-na. Sentia um desejo a alargar-se dentro do peito.

– Em que vais tu a pensar? - perguntou-lhe ele baixo, muito terno. Luísa fez-se vermelha. Não respondeu. Tinha medo de falar, de lhe dizer…

Basílio tomou-lhe a mão devagarinho, com respeito, com cuidado, como coisa preciosa e santa; e beijou-lha de leve, com a servilidade de um negro e a unção de um devoto. Aquela carícia tão humilde, tão tocante, quebrou-a; os seus nervos distenderam-se; deixou-se cair para o canto do cupê, rompeu a chorar…

Que era? Que tinha? Prendera-a nos braços, beijava-a, dizia-lhe palavras loucas.

– Queres que fujamos?

As suas lagrimazinhas redondas e luminosas, rolando devagarinho sobre a aquela face mimosa, enterneciam-no, e davam aos seus desejos uma vibração quase dolorosa.

– Foge comigo, vem, levo-te! Vamos para o fim do mundo!

Ela soluçou, murmurou muito doridamente:

– Não digas tolices.

Ele calou-se; pôs a mão sobre os olhos com uma atitude melancólica, pensando:

- “Estou a dizer tolices, não há que ver!”

Luísa limpava as lágrimas, assoando-se devagarinho.

– É nervoso – disse. - É nervoso. Voltamos, sim? Não me sinto bem. Volte.

Basílio mandou bater para Lisboa.

Ela queixava-se de um ameaço de enxaqueca. Ele tinha-lhe tomado a mão, repetia-lhe as mesmas ternuras: chamava-lhe “sua pomba”, “seu ideal”. E pensava: - “Estás caída!”

Pararam na Praça da Alegria. Luísa espreitou, saltou depressa, dizendo:

– Amanhã, não faltes, hem?

Abriu o guarda solinho, carregou-o sobre o rosto, subiu rapidamente para a Patriarcal.

Basílio então desceu os vidros, e respirou com satisfação. Acendeu outro charuto, estendeu as pernas, gritou:

– Ao Grêmio, ó Pintéus!

Na sala de leitura, o seu amigo o Visconde Reinaldo, que havia anos vivia em Londres, e muito em Paris também, lia o Times languidamente, enterrado numa poltrona. Tinham vindo ambos de Paris, com a promessa de voltarem juntos por Madri. Mas o calor desolava Reinaldo; achava a temperatura de Lisboa reles; trazia lunetas defumadas; e andava saturado de perfumes, por causa “do cheiro ignóbil de Portugal”. Apenas viu Basílio deixou escorregar oTimes nu tapete, e com os braços moles, a voz desfalecida:

– E então essa questão da prima, vai ou não vai? Isto está horrível, menino! Eu morro! Preciso o Norte! Preciso a Escócia! Vamos embora! Acaba com essa prima. Viola-a. Se ela te resiste, mata-a!

Basílio, que se estendera numa poltrona, disse, estirando muito os braços:

– Oh! Está caidinha!

– Pois avia-te, menino, avia-te!

Apanhou moribundamente o Times, bocejou, pediu soda – soda inglesa!

Não havia, veio dizer o criado. Reinaldo fitou Basílio com espanto, com terror, e murmurou soturnamente:

– Que abjeção de país!

Quando Luísa entrou, Juliana, ainda vestida, disse-lhe logo à porta:

– O Sr. Sebastião está na sala. Tem estado um ror de tempo à espera… Já cá estava quando eu cheguei.

Tinha vindo com efeito havia meia hora. Quando a Joana lhe veio abrir, muito encarnada, com ar estremunhado, e resmungou que a senhora estava para fora, Sebastião ia logo descer, com o alívio delicioso de uma dificuldade adiada. Mas reagiu, retesou a vontade, entrou, pôs-se a esperar… Na véspera tinha decidido falar-lhe, avisá-la que aquelas visitas do primo, tão repetidas, com espalhafato, numa rua maligna, podiam comprometê-la… Era o diabo, dizer-lho!… Mas era um dever! Por ela, pelo marido, pelo respeito da casa! Era forçoso acautelá-la… E não se sentia acanhado. Perante as reclamações do dever, vinham-lhe as energias da decisão. O coração batia-lhe um pouco, sim, e estava pálido… Mas, que diabo havia de lho dizer!…

E passeando pela sala com as mãos nos bolsos, ia arranjando as suas frases, procurando-as muito delicadas, bem amigas…

Mas a campainha retiniu, um frufru de vestido roçou o corredor – e a sua coragem engelhou-se como um balão furado. Foi-se logo sentar ao piano, pôs-se a bater vivamente no teclado. Quando Luísa entrou, sem chapéu, descalçando as luvas, ergueu-se, disse embaraçado:

– Tenho estado aqui a trautear um bocado… Estava à espera… Então de onde vem?

Ela sentou-se, cansada. Vinha da modista – disse. Fazia um calor! Por que não tinha entrado as outras vezes? Não estava com visitas de cerimônia! Era família, era seu primo que viera de fora.

– Está bom, seu primo?

– Bom. Tem estado aqui, bastante. Aborrece-se muito em Lisboa, coitado! Ora, quem vive lá fora!

Sebastião repetiu, esfregando devagar os joelhos:

Está claro, quem vive lá fora!

– E Jorge, tem-lhe escrito? - perguntou Luísa.

– Recebi carta ontem.

Também ela. Falaram de Jorge, dos tédios da jornada, do que contava do fantástico parente de Sebastião, da demora provável…

– Faz-nos uma falta, aquele maroto! - disse Sebastião.

Luísa tossiu. Estava um pouco pálida, agora. Passava às vezes a mão pela testa, cerrando os olhos.

Sebastião, de repente, teve uma decisão:

– Pois eu vinha, minha rica amiga… - começou.

Mas viu-a ao canto do sofá com a cabeça baixa, a mão sobre os olhos.

– Que tem? Está incomodada?

– É a enxaqueca que me veio de repente. Já tinha tido ameaços na rua. E com uma força!

Sebastião tomou logo o chapéu:

– E eu a maçá-la! É necessário alguma coisa? Quer que vá chamar o médico?

– Não! Vou-me deitar um momento; passa logo.

Que não apanhasse ar, ao menos, recomendava ele. Talvez sinapismos ou limão nas fontes… E em todo o caso, se não estivesse melhor que o mandasse chamar…

– Isto passa! E apareça, Sebastião! Não se esconda…

Sebastião desceu, respirou largamente; e pensava:

- “Eu não me atrevo, Santo Deus!…” - Mas à porta, ao levantar os olhos, no fundo escuro da loja de carvão o vulto enorme da carvoeira, de chambre branco, estendendo o olhar, cocando; por cima, três das Azevedos, entre as velhas cortinas de cassa, juntavam as suas cabecinhas riçadas nalgum conciliáculo maligno! Por trás dos vidros a criada do doutor costurava, com olhares de lado, a cada momento, que lambiam a rua; e ao lado, na loja de móveis, Sentiam-se as expectorações do patriota.

- “Não passa um gato que esta gente não dê fé!” - pensou Sebastião. “E que línguas! Que línguas! Devo fazê-lo, ainda que estoure! Se ela amanhã está melhor, digo-lhe tudo!”

Estava com efeito já boa, às nove horas, no dia seguinte, quando Juliana a foi acordar, com “uma cartinha da senhora D. Leopoldina”.

A criada de Leopoldina, a Justina, uma magrita muito trigueira, de buço e esperava na sala de jantar. Era amiga de Juliana; beijocavam-se muito, diziam-se sempre finezas. E depois de ter guardado a resposta de Luísa num cabalzinho que trazia no braço, traçou o xale e muito risonha:

– Então que há por cá de novo, Sra. Juliana?

– Tudo velho, Sra. Justina. E mais baixo:

– O primo da senhora, agora, vem todos os dias. Perfeito rapaz! Tossiram ambas, baixinho, com malícia.

– E por lá, Sra. Justina, quem vai por lá?

Justina fez um aceno de desprezo.

– Um rapazola, um estudante. Fraca coisa!…

– Sempre pinga – disse Juliana com um risinho.

A outra exclamou:

– Olha quem! O pelintra! Nem cheta!

E erguendo o olhar com saudade:

– Ai, como o Gama não há! Quando era do tempo do Gama, isso sim! Nunca ia que me não desse os seus dez tostões, às vezes meia libra. Ai, devo dizê-lo, foi ele que me ajudou para o meu vestido de seda! Este agora!… E um fedelho. Eu nem sei como a senhora suporta aquilo! E amarelado, enfezado! Aquilo pode prestar para nada!

Juliana disse então:

– Pois olhe, Sra. Justina, eu agora é que começo a considerar: é onde se está bem, é em casas em que há podres! Encontrei ontem a Agostinha, a que está em casa do comendador, ao Rato… Pois senhor, não se imagina. É tudo o que se pode! Tudo! Anel, vestido de seda, sombrinha, chapéu! E de roupa branca diz que é um enxoval. E tudo o Couceiro, o que está com a ama. E pelas festas suas moedas. Diz que é um homem rasgado. Ela também, verdade seja, tem um trabalhão: fá-lo entrar pelo jardim, e para o fazer sair tem de esperar…

– Ah, lá não! - acudiu a Justina. - Lá é pela escada.

Riram baixinho, saboreando o escândalo.

– Gênios… - disse Juliana.

– Ai, lá isso, o nosso tem estômago – afirmou Justina. - Encontram na escada, e tanto se lhe dá…

E muito afetuosamente, arranjando o xale:

– E adeusinho, que se faz tarde, Sra. Juliana. Ela vem hoje cá jantar, a senhora. Estive toda a manhã a engomar uma saia; desde as sete!

– Também eu por cá – disse Juliana. - Elas é o que tem; quando há amante sempre há mais que engomar.

– Deitam mais roupa branca, deitam – observou a Justina.

– As que deitam! - exclamou Juliana, com desprezo.

Mas Luísa tocou a campainha dentro.

– Adeus, Sra. Juliana – disse logo a outra, ajeitando o chapéu.

– Adeus, Sra. Justina.

Foi acompanhá-la ao patamar. Beijocaram-se. Juliana voltou muito apressada ao quarto de Luísa; estava já a pé, vestindo-se, muito alegre, cantarolando.

O bilhete de Leopoldina dizia na sua letra torta:

Meu marido vai hoje para o campo. Eu vou-te pedir de jantar, mas não posso ir antes das seis. Convém-te?

Ficou muito contente. Havia semanas que a não via… O que iam rir, palrar! E o Basílio devia vir às duas. Era um dia divertido, bem preenchido…

Foi logo à cozinha dar as suas ordens para o jantar. Quando descia, o criadito de Sebastião tocava a campainha, com um ramo de rosas, a saber se estava melhor.

– Que sim, que sim! - gritou logo Luísa. - E para o tranquilizar, para que ele não viesse: - Que estava boa, que até talvez saísse…

As rosas, sim, é que vinham a propósito. Foi ela mesma pô-las nos vasos, olhando sempre, o olhar vivo, satisfeita de si, da sua vida que se tornava interessante, cheia de incidentes…

E às duas horas, vestida, veio para a sala, pôs-se ao piano a estudar a Medjé de Gounod, que Basílio trouxera, e que a encantava agora muito, com os seus acentos suspirados e cálidos.

– Às duas e meia, porém, começou a estar impaciente; os dedos embrulhavam-se no teclado. - “Já devia ter vindo, Basílio!” - pensava.

Foi abrir as janelas, debruçar-se para a rua; mas a criada do doutor, que costurava por dentro dos vidros, ergueu logo olhos tão sôfregos que Luísa fechou rapidamente as vidraças. Veio recomeçar a melodia, já nervosa.

Uma carruagem rolou. Ergueu-se agitada; batia-lhe o coração. A carruagem passou…

Três horas já! O calor parecia-lhe maior, insuportável; sentia-se afogueada; foi cobrir-se de pó de arroz. Se Basílio estivesse doente! E num quarto de hotel! Só, com criados desleixados! Mas não, ter-lhe-ia escrito nesse caso!… Não viera, não se importara! Que grosseiro, que egoísta!

Era bem tola em se afligir. Melhor! Mas, abafava-se, positivamente! Foi um leque, e as suas mãos enraivecidas sacudiram num frenesi a gaveta, ao se abriu logo, um pouco perra. Pois bem, não o tornaria a receber!

E o seu grande amor, de repente, como um fumo que uma rajada dissipa, desapareceu! Sentiu um alívio, um grande desejo de tranquilidade. Era absurdo, realmente, com um marido como Jorge, pensar noutro homem, um leviano, um estroina!…

Deram quatro horas. Veio-lhe uma desesperação, correu ao escritório de uma folha de papel, escreveu à pressa:

Querido Basílio.

Por que não vens? Estás doente? Se soubesse os tormentos por que me fazes passar…

A campainha retiniu. Era ele! Amarrotou o bilhete, meteu-o no bolso do ficou esperando, palpitante. Passos de homem pisaram no tapete da sala. Entrou com o olhar faiscante… Era Sebastião, um pouco pálido, que lhe apertou muito as mãos. Estava melhor? Tinha dormido bem?

Sim, obrigada, estava melhor. Sentara-se no sofá, muito vermelha. Mal sabia o que dizer.

Repetiu com um sorriso vago:

– Estou muito melhor! - E pensava: - “Não me deixa agora a casa, este maçador!”

– Então, não saiu? - perguntou Sebastião, sentado na poltrona, com o chapéu desabado nas mãos.

Não, estava um pouco fatigada ainda.

Sebastião passou devagar a mão pelos cabelos, e com uma voz que o embaraço engrossava:

– Também agora tem sempre companhia pela manhã…

– Sim, meu primo Basílio tem aparecido. Há tanto tempo que nos não víamos! Fomos criados de pequenos, quase… Tenho-o visto quase todos os dias.

Sebastião fez logo rolar um pouco a poltrona, e curvando-se, baixando a voz:

– Eu mesmo tinha vindo para lhe falar a esse respeito…

Luísa abriu um olhar surpreendido.

– A respeito de quê?

– É que se repara… A vizinhança é a pior coisa que há, minha rica amiga. Repara em tudo. Já se tem falado. A criada do lente, o Paula. Até já vieram à tia Joana. E como o Jorge não está… O Neto também reparou. Como não sabem o parentesco… E como vem todos os dias…

Luísa ergueu-se bruscamente, com o rosto alterado:

– Então eu não posso receber os meus parentes sem ser insultada? - exclamou.

Sebastião levantou-se também. Aquela cólera súbita nela, uma pessoa tão doce, atarantou-o como um trovão que estala num céu claro de verão.

Pôs-se a dizer, quase ansiosamente:

– Oh, minha rica senhora! Mas repare, eu não digo… É por causa da vizinhança!…

– Mas que pode dizer a vizinhança?

A sua voz tinha uma vibração aguda. E batendo com as mãos, apertando-as, exaltada:

– Isto é curioso! Tenho um parente único, com quem fui criada, que não vejo há uns poucos de anos, vem-me fazer três ou quatro visitas, está um momento, e já querem deitar maldade!

Falava convencida, esquecendo as palavras de Basílio, os beijos, o cupê…

Sebastião, acabrunhado, enrolava o chapéu nas mãos trêmulas. E com uma voz abafada:

– Eu, tinha-me parecido prudente avisar; o Julião também…

– O Julião? - exclamou ela. - Mas que tem o Julião com isso? Com que direito se metem no que se passa em minha casa? O Julião!

A intervenção, as decisões de Julião pareciam-lhe um acréscimo de afronta. Caiu numa cadeira, com as mãos contra o peito, os olhos no teto.

– Oh! Se o Jorge aqui estivesse! Oh! Se ele aqui estivesse, Santo Deus!

Sebastião balbuciou aniquilado:

– Era para seu bem…

– Mas que mal me pode suceder?

E erguendo-se, indo de um móvel a outro, numa excitação:

– É o meu único parente. Fomos criados ambos; brincávamos juntos. Em casa de mamã, na Rua da Madalena, estava lá sempre. Ia lá jantar todos os dias. Fôssemos irmãos. Em pequena trazia-me ao colo…

E amontoava detalhes daquela fraternidade, exagerando uns, inventando acaso, na improvisação da cólera.

– Vem aqui – acrescentava – está um bocado; fazemos música; ele toca ente, fuma um charuto, vai-se…

Instintivamente justificava-se.

Sebastião estava sem ideia, sem resolução. Parecia-lhe aquela uma outra Luísa, diferente, que o assustava; e quase curvava os ombros sob a estridência da sua voz, que nunca conhecera tão forte, vibrando numa loquacidade trapalhona.

Erguendo-se enfim, disse com uma dignidade melancólica:

– Eu entendi que era o meu dever, minha senhora.

Fez-se um silêncio grave. Aquele tom sóbrio, quase severo, obrigou-a a corar um pouco dos seus espalhafatos; baixou os olhos; disse embaraçada:

– Perdoe, Sebastião! Mas realmente!… Não, acredite, juro-lhe, estou-lhe muito obrigada em me avisar. Fez muito bem Sebastião!

Exclamou logo, vivamente:

– Para evitar qualquer calúnia dessas línguas danadas! Pois não é verdade?

Justificou então a sua intervenção, com muita amizade: às vezes por uma palavra arma-se uma intriga, e quando uma pessoa está prevenida…

– Decerto, Sebastião! - repetiu ela. - Fez perfeitamente bem em me avisar. Decerto!

Tinha-se sentado; o olhar reluzia-lhe febrilmente; e a cada momento limpava com o lenço os cantos secos da boca.

– Mas que hei de eu fazer, Sebastião! Diga!

Ele comovia-se agora de a ver assim ceder, aconselhar-se, quase lamentava gravidade das suas advertências, perturbar a alegria das suas intimidades. Disse:

– Está claro que deve ver seu primo; recebê-lo… Mas enfim, sempre é bom uma certa reserva, com esta vizinhança! Eu se fosse a si contava-lhe… explicava-lhe…

– Mas, por fim, que diz essa gente, Sebastião?

– Repararam. Quem seria? Quem não seria? Que vinha; que estava; o diabo!

Luísa ergueu-se impetuosamente:

– Eu bem tenho dito a Jorge! Tantas vezes lho tenho dito! Isto é uma rua impossível! Não se mexe um dedo que não espreitem, que não cochichem!

– Não têm que fazer…

Houve um silêncio. Luísa passeava pela sala, com a cabeça baixa, a testa franzida; e parando, olhando quase ansiosamente para Sebastião:

– O Jorge se soubesse é que tinha um desgosto! Santo Deus!

– Escusa de saber! - exclamou logo Sebastião. - Isto fica entre nós!

– Para o não afligir, não é verdade? - acudiu ela

– Está claro! Isto fica entre nós.

E Sebastião estendendo-lhe a mão, quase humildemente.

– Então não está zangada comigo, hem?

– Eu, Sebastião! Que tolice!

– Bem, bem. Acredite! - e espalmou a mão sobre o peito – eu entendi que era o meu dever. Porque enfim, a minha rica amiga não sabia nada…

– Estava bem longe!…

– Decerto. Bem, adeus. Não a quero maçar mais. - E com uma voz profunda, comovida: - Cá estou às ordens, hem!

– Adeus, Sebastião… Mas que gente! Por ver entrar o pobre rapaz três ou quatro vezes!…

– Uma canalha, uma canalha! - disse Sebastião, arregalando os olhos.

E saiu.

Apenas ele fechou a porta:

– Que desaforo! - exclamou Luísa. - Isto só a mim!

Porque a intervenção de Sebastião, no fundo, irritava-a mais que os mexericos da vizinhança! A sua vida, as suas visitas, o interior da sua casa era discutido, resolvido por Sebastião, por Julião, por tutti quanti! Aos vinte e cinco anos tinha mentores! Não estava má! E por quê, Santo Deus? Porque seu primo, o seu único parente vinha vê-la!…

Mas então, de repente, emudecia interiormente. Lembravam-lhe os olhares de Basílio, as suas palavras exaltadas, aqueles beijos, o passeio ao Lumiar. A sua alma corava baixo, mas o seu despeito seguia declamando alto: - decerto, havia um sentimento, mas era honesto, ideal, todo platônico!… Nunca seria outra coisa! Podia ter lá dentro, no fundo, uma fraqueza… Mas seria sempre uma mulher de bem, fiel, só de um!…

E esta certeza irritava-a então contra os palratórios da rua! Que de resto era lá possível, que só por verem entrar Basílio, quatro ou cinco vezes, às duas horas da tarde, começassem logo a murmurar, a cortar na pele?… Sebastião era um caturra, com terrores de ermitão! E que ideia, ir consultar Julião! Julião! Era ele, decerto, que o instigara a vir pregar, assustá-la, humilhá-la!… Por quê? Azedume, inveja! Porque Basílio tinha beleza, toalete, maneiras, dinheiro!… Se tinha!

As qualidades de Basílio apareciam-lhe então magníficas e abundantes como os atributos de um deus. E estava apaixonado por ela! E queria vir viver junto dela! O amor daquele homem, que tinha esgotado tantas sensações, abandonado decerto tantas mulheres, parecia-lhe como a afirmação gloriosa da sua beleza e a irresistibilidade da sua sedução.

A alegria que lhe dava aquele culto trazia-lhe o receio de o perder. Não o queria ver diminuído; queria-o sempre presente, crescendo, balouçando sem cessar diante dela, o murmúrio lânguido das ternuras humildes! Podia lá separar-se de Basílio! Mas se a vizinhança, as relações começavam a comentar, a cochichar… Jorge podia saber!… Aquela suposição o coração arrefecia-lhe… - Sebastião tinha razão, no fundo, era evidente!

Numa rua pequena, com doze casas, vir todos os dias, aquele lindo rapaz, e, agora que seu marido não estava… Era terrível! - Que havia de fazer, Santo Deus!…

A campainha retiniu com força; Leopoldina entrou.

Vinha furiosa com o cocheiro; que imaginasse ela, hem! Tinha parado ao Correio e o homem queria duas corridas. Uma canalha assim!…

E que calor, ufa! - Atirou a sombrinha, as luvas; agitou as mãos no ar para descer o sangue, dando-lhes palidez; e diante do toucador, compondo ligeiramente os frisados do cabelo, com uma cor na pele, muito espartilhada, admirável corpete couraçado:

– Que tens tu, filha? Estás toda no ar!

Nada. Tinha-se zangado com as criadas…

– Ai! Estão insuportáveis! - Contou as exigências da Justina, os seus desmazelos. - E muito agradecida ainda que ela se me não vá! Quando a gente depende delas… - E pondo pó-de-arroz no rosto, com uma voz lenta: - Lá o meu senhor foi para o Campo Grande. Eu estive para ir jantar fora com…- Suspendeu-se, sorriu, e voltada para Luísa, mais baixo, com um tom alegre, muito sincero: - Mas olha, a falar a verdade, nem sabia onde, nem tinha dinheiro… Que ele coitado com a sua mesada mal lhe chega. Disse comigo: nada, vou ver a Luísa. Também os homens sempre, sempre, secam!… - Que tens tu para jantar? Não fizeste cerimônia, hem?

E com uma ideia súbita:

– Tens tu bacalhau?

Devia haver, talvez. Que extravagância! Por quê?

– Ai! - exclamou. - Manda-me assar um bocadinho de bacalhau! Meu marido detesta bacalhau! Aquele animal! Eu é a minha paixão. Com azeite e alho! - Mas calou-se, contrariada – Diabo!

– O quê?

– É que hoje não posso comer alho…

E entrou para a sala a rir. Foi tirar uma rosa do ramo de Sebastião, pô-la casa do corpete. Desejava ter uma sala assim – pensava, olhando em redor. Queria-a de repes azul, com dois grandes espelhos, um lustre de gás, e o seu retrato a óleo de corpo inteiro, decotada, ao pé de um rico vaso de flores…

Sentou-se ao piano, bateu rijamente o teclado, tocou motivos do Barba Azul.

E vendo Luísa entrar:

– Mandaste arranjar o bacalhau?

– Mandei.

– Assado?

– Sim.

– E atirou, com a sua voz mordente, a sua canção querida da Grã-duquesa:

– Ouvi dizer que meu avô de vinho. Era um tal amador…

Mas Luísa achava aquela música “espalhafatona”; queria alguma coisa triste, doce… O fado! Que tocasse o fado!…

Leopoldina exclamou logo:

– Ai, o fado novo! Tu não ouviste? É lindo! Os versos são divinos!

Preludiou, cantando com um balouçar lânguido da cabeça, o olhar erguido e turvo:

– O rapaz que eu ontem vi
Era moreno e bem-feito…

– Tu não sabes isto, Luísa? Oh, filha! É o último! É de chorar! Recomeçou, com o tom muito quebrado. Era a história rimada de um amor infeliz. Falava-se nas “raivas do ciúme, nas rochas de Cascais, nas noites de luar, nos suspiros da saudade”, todo o palavreado mórbido do sentimentalismo lisboeta. Leopoldina dava tons dolentes à voz, revirava um olhar expirante; uma quadra, sobretudo enternecia-a; repetiu-a com paixão:

– Vejo-o nas nuvens do céu
Nas ondas do mar sem fim,
E por mais longe que esteia
Sinto-o sempre ao pé de mim.

– Lindo! - suspirava Luísa.

E Leopoldina terminava com ais! Em que a sua voz se arrastava numa extensão desafinada.

Luísa, de pé junto do piano, sentia o cheiro do feno que ela usava; o fado, os versos entristeciam-na um pouco; e com o olhar saudoso seguia sobre o teclado os dedos ágeis e magros de Leopoldina, onde reluziam as pedras dos anéis que lhe tinha dado o Gama.

Mas Juliana entrou, vestida de passeio, com a sua cuia nova. Estava o jantar na mesa!

Leopoldina declarou que vinha a cair de fome! E a sala de jantar com as vidraças abertas, as verduras dos terrenos vagos defronte, um azul de horizonte onde se algodoavam nuvenzinhas muito brancas – alegrou-a; a sala de jantar dela tirava-lhe até o apetite; era uma tristeza; deitava para o saguão!

Pôs-se a depenicar bagos de uvas, a trincar bocadinhos de conserva – e reparando no retrato do pai de Jorge, desdobrando o guardanapo:

– Havia de ser divertido teu sogro! Tem cara de pândego!

– E há que tempos que não jantavam juntas! Desde quando?

– Desde o meu primeiro ano de casada – lembrou Luísa.

Leopoldina fez-se um pouco vermelha. Viam-se muito nesse tempo; Jorge ir às lojas ambas, aos confeiteiros, à Graça… A lembrança daquela camaradagem levou-a às recordações mais distantes do colégio. Tinha visto, havia dias, a Rita Pessoa, com o sobrinho. - Lembraste dele?

– O Espinafre?

- “Espinafre” ou não era no colégio o homem, o ideal, o herói; todas lhe escreviam bilhetes, desenhavam-lhe corações de onde saia uma fogueira; metiam-lhe no boné muito sebento ramos de flores de papel… E quando a Micaela foi apanhada, no cacifo dos baús, a devorá-lo de beijos!…

Luísa disse:

– Que horror!

– Não que a Micaela era doida!

Coitada! Tinha casado com um alferes, um homem que a espancava. Estava cheia de filhos…

– Isto é um vale de lágrimas! - resumiu Leopoldina, recostando-se.

Estava loquaz. Servia-se muito, com gula; depois picava um bocadinho na ponta do garfo, provava, deixava, punha-se a comer côdeas de pão que barrava de manteiga. E deleitava-se nas recordações do colégio! Que bom tempo!

– Lembraste quando estivemos de mal?

Luísa não se lembrava…

– Por tu teres dado um beijo na Teresa, que era o meu sentimento – disse Leopoldina.

Puseram-se a falar dos sentimentos. Leopoldina tivera quatro; a mais bonita era a Joaninha, a Freitas. Que olhos! E que bem-feita! Tinha-lhe feito a corte um mês.

– Tolices! - disse Luísa corando um pouco.

– Tolices! Por quê?

Ai! Era sempre com saudades que falava dos sentimentos. Tinham sido as primeiras sensações, as mais intensas. Que agonia de ciúmes! Que delírio de reconciliações! E os beijos furtados! E os olhares! E os bilhetinhos, e todas as palpitações do coração, as primeiras da vida!

– Nunca – exclamou –, nunca, depois de mulher, senti por um homem o que senti pela Joaninha!… Pois podes crer…

Um olhar de Luísa deteve-a. - A Juliana! Diabo! Tinha-se esquecido! Constrangia-se muito, com o seu sorrisinho torcido, a figura de peito chato, o tique-taque dos metálicos dos tacões.

– E que foi feito da Joaninha? - perguntou Luísa.

– Morrera tísica – e a voz de Leopoldina fez-se saudosa. Uma doença bem triste, não era? Mas não lhe tinha medo, ela! Batia no seio, bem formado:

– Isto é rijo, isto é são!

Juliana saiu, e Luísa observou logo:

– Vê no que falas, filha! Tem cuidado!

Leopoldina curvou-se:

– Ah! A respeitabilidade da casa! Tens razão! - murmurou.

E como Juliana entrava com o bacalhau assado, fez-lhe uma ovação!

– Bravo! Está soberbo!

Tocou-lhe com a ponta do dedo, gulosa; vinha louro, um pouco toscado, abrindo em lascas.

– Tu verás – dizia ela. - Não te tentas? Fazes mal!

Teve então um movimento decidido de bravura, disse:

– Traga-me um alho, Sra. Juliana! Traga-me um bom alho!

E apenas ela saiu:

– Eu vou ter logo com o Fernando, mas não me importa!… Ah! Obrigada, Sra. Juliana! Não há nada como o alho!…

Esborrachou-o em roda do prato, regou as lascas do bacalhau de um fio mole de azeite, com gravidade. - Divino! - exclamou. Tornou a encher o copo; achava aquilo uma pândega.

– Mas que tens tu?

Luísa com efeito parecia preocupada. Tinha suspirado baixo. Duas vezes, endireitando-se na cadeira, dissera a Juliana, inquieta:

– Parece que tocaram a campainha, vá ver.

Não era ninguém.

– Quem havia de ser? Não esperas teu marido, decerto.

– Ah! Não!

E então Leopoldina, com os olhos no prato, partindo devagar, muito atenta, lascazinhas de bacalhau:

– E teu primo veio ver-te?

Luísa fez-se vermelha.

– Sim, tem vindo. Tem vindo várias vezes.

– Ah!

E depois de um silêncio:

– Ainda está bonito?

– Não está feio…

– Ah!

Luísa apressou-se a perguntar se tinha encomendado o vestido de xadrezinho? Não. E começaram a falar de toaletes, fazendas, lojas e preços… Depois, de conhecidas, de outras senhoras, de boatos – perdendo-se numa conversa de mulheres sós, miudinha e divagada, semelhante ao ramalhar de folhagens.

Viera o assado. Leopoldina já ia tendo uma cor quente nas faces. Pediu a Juliana que lhe fosse buscar o leque; - e recostada, abanando-se, declarou que se sentia como um príncipe. E ia bebericando golinhos de vinho. Que boa ideia, jantarem juntas!…

Apenas Juliana dispôs os pratos de fruta, Luísa disse-lhe logo que chamaria para o café, que podia ir. Foi ela mesmo fechar a porta da sala, correr o reposteiro de cretone:

– Estamos à vontade, agora! Faço-me velha só de olhar para esta criatura! Estou morta por a ver pelas costas!

– Mas por que a não pões na rua?

Jorge que não queria, senão…

Leopoldina protestou. Boa! Os maridos não deviam ter vontade!… Era o que faltava!…

– E o teu, então? - disse Luísa, rindo.

– Obrigada! - exclamou Leopoldina. - Um homem que faz quarto à parte!…

De resto detestava os homens que se ocupam de criadas, de róis, de azeites e vinagres…

– Que lá o meu cavalheiro até pesa a carne! - Sorriu, com ódio. - Também é o que vale, senão!… Eu só de ir à cozinha me dão enjoos…

Quis deitar vinho, mas a garrafa estava vazia.

Luísa acudiu:

– Queres, tu champanhe? - Tinha-o muito bom, que o mandava a Jorge um proprietário de minas.

Foi ela mesmo buscar a garrafa, desembrulhou-a do seu papel azul; - e com risinhos, sustos, fizeram estalar a rolha. A espuma encantou-as; olhavam os copos, caladas, com um bem-estar feliz. Leopoldina gabou-se de saber abrir muito bem o champanhe; falava vagamente de ceias passadas…

– Em terça-feira gorda, há dois anos!…

E toda recostada na cadeira, com um sorriso cálido, as asas do nariz dilatadas, a pupila úmida, olhava com sensualidade os globulozinhos vivos que subiam, sem cessar, no copo esguio.

– Se fosse rica, bebia sempre champanhe – disse.

Luísa não, ambicionava um cupê; e queria viajar, ir a Paris, a Sevilha, a Roma… Mas os desejos de Leopoldina eram mais vastos: invejava uma larga vida, com carruagens, camarotes de assinatura, uma casa em Sintra, ceias, bailes, toaletes, jogo… Porque gostava do monte. - dizia – fazia-lhe bater o coração.

E estava convencida que havia de adorar a roleta.

– Ah! - exclamou. - Os homens são bem mais felizes que nós! Eu nasci para homem! O que eu faria!

Levantou-se, foi-se deixar cair muito languidamente na voltaire, ao pé da janela. A tarde descia serenamente; por trás das casas, para lá dos terrenos vagos, nuvens arredondavam-se, amareladas, orladas de cores sanguíneas ou de tons alaranjados.

E voltando-lhe a mesma ideia de ação, de independência:

– Um homem pode fazer tudo! Nada lhe fica mal! Pode viajar, correr aventuras… Sabes tu, fumava agora um cigarrito…

O pior é que Juliana podia sentir o cheiro. E parecia tão mal!…

– É um convento, isto! - murmurou Leopoldina. - Não tens má prisão, minha filha!

Luísa não respondeu; tinha encostado a cabeça à mão: e com o olhar vago, como continuando alguma ideia.

– São tolices, no fim, andar, viajar! A única coisa neste mundo é a gente estar na sua casa, com o seu homem, um filho ou dois…

Leopoldina deu um salto na voltaire. Filhos! Credo, que nem falasse em semelhante coisa! Todos os dias dava graças a Deus em os não ter!

– Que horror! - exclamou com convicção. - O incômodo todo o tempo que se está!… As despesas! Os trabalhos, as doenças! Deus me livre! É uma prisão! E depois quando crescem, dão fé de tudo, palram, vão dizer… Uma mulher com filhos está inútil para tudo, está atada de pés e mãos! Não há prazer na vida. E estar ali a aturá-los… Credo! Eu? Que Deus não me castigue, mas se tivesse essa desgraça parece-me que ia ter com a velha da Travessa da Palha!

– Que velha? - perguntou Luísa.

Leopoldina explicou. Luísa achava uma infâmia. A outra encolheu os ombros, acrescentou:

– E depois, minha rica, é que uma mulher estraga-se; não há beleza de corpo que resista. Perde-se o melhor. Quando se é como a tua amiga, a D. Felicidade, enfim!… Mas quando se é direitinha e arranjadinha!… Nada, minha rica! Embaraços não faltam!

Por baixo, na rua, o realejo do bairro, no seu giro da tarde, veio tocar o final da Traviata; ia escurecendo; já as verduras dos quintais tinham uma igual cor parda; e as casas para além esbatiam-se na sombra.

A Traviata lembrou a Luísa a Dama das camélias; falaram do romance; recordaram episódios…

– Que paixão que eu tive por Armando em rapariga! - disse Leopoldina.

– E eu foi por D'Artagnan – exclamou ingenuamente Luísa.

Riram muito.

– Começamos cedo – observou Leopoldina. - Dá-me uma gotinha mais.

Bebeu, pousou o cálice – e encolhendo os ombros:

– Oh! Começamos cedo? Começam todas! Aos treze anos já a gente vai na sua quarta paixão. Todas são mulheres, todas sentem o mesmo! - E batendo o compasso com o pé, cantou, no tom do fado:

– O amor é uma doença
Que costuma andar no ar;
Só d'ir à janela às vezes
S’apanha a febre d'amar!

– Estou hoje com uma telha! - E espreguiçando-se muito languidamente: - No fim de contas é o que há de melhor neste mundo; o resto é uma sensaboria! Não é verdade? Dize, tu! Não é verdade?

Luísa murmurou:

– Se é! - E acrescentou logo: - Creio eu!

Leopoldina ergueu-se, e escarnecendo-a:

– Crê ela! Pobre inocentinha! Vejam o anjinho!

Foi-se encostar à janela; ficou a olhar pelos vidros o descer do crepúsculo; de repente pôs-se a dizer devagar:

– Realmente vale bem a pena estar uma pobre de Cristo a privar-se, a passar uma vida de coruja, a mortificar-se, para vir um dia uma febre, um ar, uma soalheira e boas noites, vai-se para o alto de São João! Tó rola!

A sala agora estava um pouco escura.

– Pois não te parece? - perguntou ela.

Aquela conversa embaraçava Luísa; sentia-se corar, mas o crepúsculo, as palavras de Leopoldina davam-lhe como o enfraquecimento de uma tentação. Declarou todavia imoral semelhante ideia.

– Imoral, por quê?

Luísa falou vagamente nos deveres, na religião. Mas os deveres irritavam Leopoldina. Se havia uma coisa que a fizesse sair de si – dizia – era ouvir falar em deveres!…

– Deveres? Para com quem? Para um maroto como meu marido?

Calou-se, e passeando pela sala excitada:

– E em quanto à religião, histórias! A mim me dizia o Pe, Estêvão, o de luneta, que tem os dentes bonitos, que me dava todas as absolvições, se eu fosse com ele a Carriche!

– Ah, os padres… - murmurou Luísa.

– Os padres quê? São a religião! Nunca vi outra. Deus, esse, minha rica, está longe, não se ocupa do que fazem as mulheres.

Luísa achava horrível aquele modo de pensar. A felicidade, a verdadeira, segundo ela, era ser honesta…

– E a bisca em família! - resmungou Leopoldina, com ódio.

Luísa disse, animada:

– Pois olha que com as tuas paixões, umas atrás das outras...

Leopoldina estacou:

– O quê?

– Não te podem fazer feliz!

– Está claro que não! - exclamou a outra. - Mas… - procurou a palavra; não a quis empregar decerto; disse apenas com um tom seco: - Divertem-me!

Calaram-se. Luísa pediu o café.

Juliana entrou com a bandeja, trouxe luz; daí a pouco foram para a sala.

– Sabes quem me falou ontem de ti? - disse Leopoldina, indo estender-se no divã,

– Quem?

– O Castro.

– Que Castro?

– O de óculos, o banqueiro.

– Ah!

– Muito apaixonado por ti sempre.

Luísa riu.

– Doido, palavra! - afirmou Leopoldina.

A sala estava às escuras, com as janelas abertas; a rua esbatia-se num crepúsculo pardo, um ar lânguido e doce amaciava a noite.

Leopoldina esteve um momento calada; mas o champanhe, a meia obscuridade deram-lhe bem depressa a necessidade de cochichar confidenciazinhas. Estirou-se mais no divã, numa atitude toda abandonada; pôs-se a falar dele. Era ainda o Fernando, o poeta. Adorava-o.

– Se tu soubesses! - murmurava com um ar de êxtase. - É um amor de rapaz!

A sua voz velada tinha inflexões de uma ternura cálida. Luísa sentia-lhe o hálito e o calor do corpo, quase deitada também, enervada; a sua respiração alta tinha por vezes um tom suspirado; e a certos detalhes mais picantes de Leopoldina soltava um risinho quente e curto, como de cócegas… Mas passos fortes de botas de tachas subiram a rua, e no candeeiro defronte o gás saltou com um jato vivo. Uma branda claridade pálida penetrou na sala.

Leopoldina ergueu-se logo. - Tinha de ir já, já, ao acender do gás. Estava à espera, o pobre rapaz! Entrou no quarto, mesmo às escuras, a pôr o chapéu, buscar a sombrinha. - Tinha-lhe prometido, coitado, não podia faltar. Mas realmente embirrava de ir só. Era tão longe! Se a Juliana pudesse vir acompanhá-la…

– Vai, sim, filha! - disse Luísa.

Ergueu-se preguiçosamente com um grande ai!, foi abrir a porta, e deu de cara com Juliana, na sombra do corredor.

– Credo, mulher, que susto!

– Vinha saber se queriam luz…

– Não. Vá por um xale para acompanhar a senhora D. Leopoldina! Depressa!

Juliana foi correndo.

– E quando apareces tu, Leopoldina? - perguntou Luísa.

Logo que pudesse. Para a semana estava com ideias de ir ao Porto ver a tia Figueiredo, passar quinze dias na Foz…

A porta abriu-se.

– Quando a senhora quiser… - disse Juliana.

Fizeram grandes adeuses, beijaram-se muito. Luísa disse rindo ao ouvido de Leopoldina: - Sê feliz!

Ficou só. Fechou as janelas, acendeu as velas, começou a passear pela sala, esfregando devagar as mãos. E, sem querer, não podia desprender a ideia de Leopoldina que ia ver o seu amante! O seu amante!…

Seguia-a mentalmente: caminhava depressa decerto falando com Juliana; chegava; subia a escada, nervosa; atirava com a porta – e que delicioso, que ávido, que profundo o primeiro beijo! Suspirou. Também ela amava – e um mais belo, mais fascinante. Por que não tinha vindo?

Sentou-se ao piano preguiçosamente; pôs-se a cantar baixo, triste, o fado de Leopoldina:

– E por mais longe que esteia.
Vejo-o sempre ao pé de mim!…

Mas um sentimento de solidão, de abandono, veio impacientá-la. Que seca, estar ali tão sozinha! Aquela noite cálida, bela e doce, atraía-a, chamava-a para fora, passeios sentimentais, ou para contemplações do céu, num banco de jardim, com as mãos entrelaçadas. Que vida estúpida, a dela! Oh! Aquele Jorge! Que ideia ir para o Alentejo!

As conversas de Leopoldina e a lembrança das suas felicidades voltavam-lhe a cada momento; uma pontinha de champanhe agitava-se no sangue. O relógio do quarto começou lentamente a dar nove horas – e de repente a campainha retiniu.

Teve um sobressalto; não podia ser ainda Juliana! Pôs-se a escutar assustada. Vozes falavam à cancela.

– Minha senhora – veio dizer Joana baixo – é o primo da senhora que se vem despedir…

Abafou um grito, balbuciou:

– Que entre!

Os seus olhos dilatados cravavam-se febrilmente na porta. O reposteiro franziu-se; Basílio entrou, pálido, com um sorriso fixo.

– Tu partes! - exclamou ela surdamente, precipitando-se para ele.

– Não! - E prendeu-a nos braços. - Não! Imaginei que me não recebias a esta hora, e tomei este pretexto.

Apertou-a contra si, beijou-a; ela deixava, toda abandonada; os seus lábios prendiam-se aos dele. Basílio deitou um olhar rápido, em redor, pela sala, e foi-a levando abraçado, murmurando: - Meu amor! Minha filha! - Mesmo tropeçou na pele de tigre, estendida ao pé do divã.

– Adoro-te!

– Que susto que tive! - suspirou Luísa.

– Tiveste?

Ela não respondeu; ia perdendo a percepção nítida das coisas; sentia-se como adormecer; balbuciou: - Jesus! Não! Não! - Os seus olhos cerraram-se.

Quando a campainha retiniu fortemente às dez horas, Luísa, havia momentos, sentara-se à beira do divã. Mal teve força de dizer a Basílio:

– Há de ser a Juliana, tinha ido fora…

Basílio cofiou o bigode, deu duas voltas na sala, foi acender um charuto. Para quebrar o silêncio sentou-se ao piano, tocou alguns compassos ao acaso, e, erguendo um pouco a voz, começou a cantarolar a ária do terceiro ato do Fausto.

Al pallido chiarore.
Dei ostri d'oro…

Luísa, através das últimas vibrações dos seus nervos, ia entrando na realidade; os seus joelhos tremiam. E então, ouvindo aquela melodia, uma recordação foi-se formando no seu espírito, ainda estremunhado: era uma noite, havia anos, em São Carlos, num camarote com Jorge; uma luz elétrica dava ao jardim, no palco, um tom lívido de luar legendário; e numa atitude extática e suspirante o tenor invocava as estrelas; Jorge tinha-se voltado, dissera-lhe: “Que lindo!” E o seu olhar devorava-a. Era no segundo mês do seu casamento. Ela estava com um vestido azul-escuro. E à volta, na carruagem, Jorge, passando-lhe a mão pela cinta, repetia:

Al pallido chiarore.
Dei astri d'oro…

E apertava-a contra si…

Ficara imóvel à beira do divã, quase a escorregar, os braços frouxos, o olhar fixo, a face envelhecida, o cabelo desmanchado. Basílio então veio sentar-se devagarinho junto dela. Em que estava a pensar?

– Nada.

Ele passou-lhe o braço pela cinta, começou a dizer que havia de procurar uma casinha para se verem melhor, estarem mais à vontade; não era mesmo prudente ali em casa dela…

E falando, voltava a cada momento o rosto, soprava para o lado o fumo do charuto.

– Não te parece que vir eu aqui, todos os dias, pode ser reparado?

Luísa ergueu-se bruscamente; lembrara-lhe Sebastião!… E com uma voz um pouco desvairada:

– Já é tão tarde! - disse.

– Tens razão.

Foi buscar o chapéu em bicos de pés, veio beijá-la muito, saiu.

Luísa sentiu-o acender um fósforo, fechar devagarinho a cancela.

Estava só; pôs-se a olhar em roda, como idiota. O silêncio da sala parecia-lhe enorme. As velas tinham uma chama avermelhada. Piscava os olhos, tinha a boca seca. Uma das almofadas do divã estava caída, apanhou-a.

E com um ar sonâmbulo entrou no quarto. Juliana veio trazer o rol. E já vinha com a lamparina, estava a arranjá-la…

Tinha tirado a cuia; subiu à cozinha quase a correr. A Joana, que estivera dormitando, espreguiçava-se com bocejos enormes.

Juliana pôs-se a arranjar a torcida da lamparina; os dedos tremiam-lhe; tinha no olhar um brilho agudo; e depois de tossir, devagarinho, com um sorriso para Joana:

– E então a que horas veio o primo da senhora?

– Veio logo que vossemecê saiu, estavam a dar as nove.

– Ah!

Desceu com a lamparina; e sentindo Luísa na alcova despir-se:

– A senhora não quer chá? - perguntou, com muito interesse.

– Não.

Foi à sala, fechou o piano. Havia um forte cheiro de charuto. Pôs-se a olhar em redor, devagar, andando com um passo sutil… De repente agachou-se, ansiosamente: ao pé do divã uma coisa reluzia. Era uma travessa de Luísa, de tartaruga, com o aro dourado. Tornou a entrar no quarto em pontas de pés, pousou-a no toucador, entre os rolos de cabelo.

– Quem anda aí? - perguntou da alcova a voz sonolenta de Luísa.

– Sou eu, minha senhora, sou eu; estive a fechar a sala. Muito boas noites, minha senhora!

Àquela hora Basílio entrava no Grêmio. Procurou pelas salas. Estavam desertas. Dois sujeitos, com os rostos entre os punhos, curvados em atitudes lúgubres, ruminavam os jornais; aqui, além, junto a mesinhas redondas, pessoas de calça branca mastigavam torradas com uma satisfação plácida; as janelas estavam fechadas, a noite quente, e o calor mole do gás abafava. Ia descer quando de uma saleta de jogo, de repente, saiu o ruído irritado de uma altercação; trocavam-se injúrias, gritava-se: - Mente! O asno é você!

Basílio estacou, escutando. Mas subitamente, fez-se um grande silêncio; uma das vozes disse com brandura:

– Paus!

A outra respondeu com benevolência:

– É o que devia ter feito há pouco.

E imediatamente a questão rebentou de novo, estridente. Praguejavam, obscenidades.

Basílio foi ao bilhar. O Visconde Reinaldo, de pé, apoiado ao taco, seguia com uma imobilidade grave o jogo do seu parceiro; mas apenas viu Basílio, veio para ele rapidamente, e muito interessado:

– Então?

– Agora mesmo – disse Basílio mordendo o charuto.

– Enfim, hem? - exclamou Reinaldo, arregalando os olhos, com uma grande alegria.

– Enfim!

– Ainda bem, menino! Ainda bem!

Batia-lhe no ombro, comovido.

Mas chamaram-no para jogar; e todo estirado sobre o bilhar, com uma perna no ar, para dar com mais segurança o efeito, dizia com a voz constrangida pela atitude:

– Estimo, estimo, porque essa coisa começava a arrastar…

– Taque! Falhou a carambola.

– Não dou meia! - murmurou com rancor.

E chegando-se a Basílio, a dar giz no taco:

– Ouve cá…

Falou-lhe ao ouvido.

– Como um anjo, menino! - suspirou Basílio.

CAPÍTULO VI

Foi Juliana que na manhã seguinte veio acordar Luísa, dizendo à porta da alcova com a voz abafada, em confidência:

– Minha senhora! Minha senhora! É um criado com esta carta; diz que vem do hotel.

Foi abrir uma das janelas, em bicos de pés; e voltando à alcova com uma cautela misteriosa:

– E está à espera da resposta, está à porta.

Luísa, estremunhada, abriu o largo envelope azul com um monograma – dois BB, uma púrpura, outro ouro, sob uma coroa de conde.

– Bem, não tem resposta.

– Não tem resposta – foi dizer Juliana ao criado, que esperava encostado ao corrimão, fumando um grande charuto, e cofiando as suíças pretas.

– Não tem resposta? Bem, muito bom dia. - Levou o dedo secamente à aba do coco, e desceu, gingando.

Perfeito homem, foi pensando Juliana, pela escada da cozinha.

– Quem bateu, Sra. Juliana? - perguntou-lhe logo a cozinheira.

Juliana resmungou:

– Ninguém; um recado da modista.

Desde pela manhã a Joana achava-lhe o ar esquisito. Sentira-a desde as sete horas varrer, espanejar, sacudir, lavar as vidraças da sala de jantar, arrumar as louças no aparador. E com uma azáfama! Ouvira-a cantar a Carta adorada, ao mesmo tempo que os canários, nas varandas abertas, chilreavam estridentemente ao sol. Quando veio tomar o seu café à cozinha não palestrou como de costume; parecia preocupada e ausente.

Joana até lhe perguntou:

– Sente-se pior, Sra. Juliana?

– Eu? Graças a Deus, nunca me senti tão bem.

– Como a veio tão calada…

– A malucar cá por dentro… A gente nem sempre está para grulhar.

Apesar de serem nove horas não quisera acordar a senhora. Deixa-a descansar, coitada! - disse. Foi em pontas de pés encher devagarinho a bacia grande do banho, no quarto; para não fazer ruído, sacudiu no corredor as saias, o vestido da véspera: e os seus olhos brilharam avidamente quando sentiu na algibeirinha um papel amarrotado! Era o bilhete que Luísa escrevera a Basílio: “Por que não vens?… Se soubesses o que me fazes sofrer!…” Teve-o um momento na mão, o beiço, o olhar fixo num cálculo agudo; por fim tornou a metê-lo na algibeira de Luísa, dobrou o vestido, foi estendê-lo com muito cuidado na causeuse.

Enfim, mais tarde, sentindo o cuco dar horas, decidiu-se a ir dizer a Luísa, com uma voz meiga:

– São dez e meia, minha senhora!

Luísa, na cama, tinha lido, relido o bilhete de Basílio: Não pudera – escrevia ele – estar mais tempo sem lhe dizer que a adorava. Mal dormira! se de manhã muito cedo para lhe jurar que estava louco, e que punha a sua vida aos pés dela. Compusera aquela prosa na véspera, no Grêmio, às três horas, depois de alguns rubbers de uíste, um bife, dois copos de cerveja e uma leitura preguiçosa da ilustração. E terminava, exclamando: - “Que outros desejem a fortuna, a glória as honras, eu desejo-te a ti! Só a ti, minha pomba, porque tu és o único laço que me prende à vida, e se amanhã perdesse o teu amor, juro-te que punha um termo, com uma boa bala, a esta existência inútil!” - Pedira mais cerveja, e levara a carta para a fechar em casa, num envelope com o seu monograma, porque sempre fazia mais efeito.

E Luísa tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saia delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!

Ergueu-se de um salto, passou rapidamente um roupão, veio levantar os transparentes da janela… Que linda manhã! Era um daqueles dias do fim de agosto em que o estio faz uma pausa; há prematuramente, no calor e na luz, uma tranquilidade outonal; o sol cai largo, resplandecente, mas pousa de leve, o ar não tem o embaciado canicular, e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais livremente; e já não se vê na gente que passa o abatimento mole da calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha dormido a noite de um sono são, contínuo, e todas as agitações, as impaciências dos dias passados pareciam ter-se dissipado naquele repouso. Foi-se ver ao espelho; achou a pele mais clara, mais fresca, e um enternecimento úmido no olhar – seria verdade então o que dizia Leopoldina, que não havia como uma maldadezinha para fazer a gente bonita? Tinha um amante, ela!

E imóvel no meio do quarto, os braços cruzados, o olhar fixo, repetia: “Tenho um amante!” Recordava a sala na véspera, a chama aguçada das velas, e certos silêncios extraordinários em que lhe parecia que a vida parara, enquanto os olhos do retrato da mãe de Jorge, negros na face amarela, lhe estendiam da parede o seu olhar fixo de pintura. Mas Juliana entrou com um tabuleiro de roupa passada. Eram horas de se vestir…

Que requintes teve nessa manhã! Perfumou a água com um cheiro de Lubio, escolheu a camisinha que tinha melhores rendas. E suspirava por ser rica! Queria as bretanhas e as holandas mais caras, as mobílias mais aparatosas, grossas joias inglesas, um cupê forrado de cetim… Porque nos temperamentos sensíveis as alegrias do coração tendem a completar-se com as sensualidades do luxo; o primeiro erro que se instala numa alma até aí defendida, facilita logo aos outros, entradas tortuosas – assim, um ladrão que se introduz numa casa vai abrindo sutilmente as portas à sua quadrilha esfomeada.

Subiu para o almoço, muito fresca, com o cabelo em duas tranças, em roupão branco. Juliana precipitou-se logo a fechar as janelas, porque apesar de não estar calor, as portadas cerradas sempre davam mais frescura! E, vendo que lhe esquecera o lenço, correu a buscar-lhe um, que perfumou com água-de-colônia. Servia-a com ternura. Viu-a comer muitos figos:

– Não lhe vão fazer mal, minha senhora! - exclamou quase lacrimosamente.

Andava em redor dela com um sorriso servil, sem ruído; ou defronte da mesa, com os braços cruzados, parecia admirá-la com orgulho, como um ser precioso e querido, todo seu, a sua ama! O seu olhar esbugalhado apossava-se dela.

E dizia consigo:

- “Grande cabra! Grande bêbeda!”

Luísa, depois do almoço, veio para o quarto estender-se na causeuse com o seu Diário de Notícias. Mas não podia ler. As recordações da véspera redemoinhavam-lhe na alma a cada momento, como as folhas que um vento de outono levanta a espaços de um chão tranquilo; certas palavras dele, certos ímpetos, toda a sua maneira de amar… E ficava imóvel, o olhar afogado num fluido, sentindo aquelas reminiscências vibrarem-lhe muito tempo, docemente, nos nervos da memória. Todavia a lembrança de Jorge não a deixava; tivera-a sempre no espírito, desde a véspera; não a assustava, nem a torturava; estava ali, imóvel mas presente, sem lhe fazer medo, nem lhe trazer remorso; era como se ele tivesse morrido, ou estivesse tão longe que não pudesse voltar, ou a tivesse abandonado! Ela mesma se espantava de se sentir tão tranquila. E todavia impacientava-a ter constantemente aquela ideia no espírito, impassível, com uma obstinação espectral; punha-se instintivamente a acumular as justificações: não fora culpa sua. Não abrira os braços a Basílio voluntariamente!… Tinha sido uma fatalidade; fora o calor da hora, o crepúsculo, uma pontinha de vinho talvez… Estava doida, decerto. E repetia consigo as atenuações tradicionais: não era a primeira que enganara seu marido; e muitas era apenas por vício; ela fora por paixão… Quantas mulheres viviam num amor ilegítimo e eram ilustres, admiradas! Rainhas mesmo tinham amantes. E ele amava-a tanto!… Seria tão fiel, tão discreto! As suas palavras eram tão cativantes, os seus beijos tão estonteadores!… E enfim que lhe havia de fazer agora? Já agora!…

E resolveu ir responder-lhe. Foi ao escritório. Logo ao entrar o seu olhar deu com a fotografia de Jorge – a cabeça de tamanho natural – no seu caixilho envernizado de preto. Uma comoção comprimiu-lhe o coração; ficou como tolhida – como uma pessoa encalmada de ter corrido, que entra na frieza de um subterrâneo; e examinava o seu cabelo frisado, a barba negra, a gravata de pontas, as duas espadas encruzadas que reluziam por cima. Se ele soubesse matava. Fez-se muito pálida. Olhava vagamente em redor o casaco de veludo de trabalho dependurado num prego; a manta em que ele embrulhava os pés dobrada a um lado; as grandes folhas de papel de desenho na outra mesa ao fundo, e o potezinho de tabaco, e a caixa das pistolas!… Matava-a decerto!

Aquele quarto estava tão penetrado da personalidade de Jorge, que lhe parecia que ele ia voltar, entrar daí a bocado. Se ele viesse de repente!… Havia três dias que não recebia carta - e quando ela estivesse ali a escrever ao seu num momento o outro podia aparecer e apanhá-la!… Mas eram tolices, pensou. O vapor do Barreiro só chegava às cinco horas; e depois ele dizia na carta que ainda se demorava um mês, talvez mais…

Sentou-se, escolheu uma folha de papel, começou a escrever na sua letra um pouco gorda:

Meu adorado Basílio.

Mas um terror importuno tolhia-a; sentia como um palpite de que ele vinha, Era melhor não se pôr a escrever, talvez!… Ergueu-se, foi à sala devagar, sentou-se no divã; e, como se o contato daquele largo sofá e o ardor das recordações que ele lhe trazia da véspera lhe tivesse dado a coragem das ações amorosas e culpadas, voltou muito decidida ao escritório, escreveu rapidamente:

Não imaginas com que alegria recebi esta manhã a tua carta…

A pena velha escrevia mal; molhou-a mais, e ao sacudi-la, como lhe tremia um pouco a mão, um borrão negro caiu no papel. Ficou toda contrariada; pareceu-lhe aquilo um mau agouro. Hesitou um momento – e coçando a cabeça, os cotovelos sobre a mesa, sentia Juliana varrer fora o patamar, cantarolando a Carta Adorada. Enfim, impaciente, rasgou a folha muitas vezes em pedacinhos miúdos – e atirou-os para um caixão de pau envernizado com duas argolas de metal, que estava ao canto junto à mesa, onde Jorge deitava os rascunhos velhos e os papéis inúteis; chamavam-lhe “o sarcófago”; Juliana decerto, descuidara-se de o esvaziar no lixo, porque transbordava de papelada:

Escolheu outra folha, recomeçou:

Meu adorado Basílio.

Não imaginas como fiquei quando recebi tua carta, esta manhã, ao acordar. Cobri-a de beijos…

Mas o reposteiro franziu-se numa prega mole, a voz de Juliana disse discretamente:

– Está ali a costureira, minha senhora.

Luísa, sobressaltada, tinha tapado a folha de papel com a mão.

– Que espere.

E continuou:

… Que tristeza que fosse a carta e que não fosses tu que ali estivesses! Estou pasmada de mim mesma, como em tão pouco tempo te apossaste do meu coração, mas a verdade é que nunca deixei de te amar. Não me julgues por isto leviana, nem penses mal de mim, porque eu desejo a tua estima, mas é que nunca deixei de te amar e ao tornar a ver-te, depois daquela estúpida viagem para tão longe, não tu superior ao sentimento que me impelia para ti, meu adorado Basílio. Era mais forte que eu, meu Basílio. Ontem, quando aquela maldita criada me veio dizer que tu te vinhas despedir, Basílio, fiquei como morta; mas quando vi que não, nem eu sei, adorei-te! E se tu me tivesses pedido a vida dava-te, porque te amo, que eu mesma, me estranho… Mas para que foi aquela mentira, e para que vieste tu? Mau! Tinha vontade de te dizer adeus para sempre, mas não posso, meu adorado Basílio! É superior a mim. Sempre te amei, e agora que sou tua, que te pertenço corpo e alma, pareço-me que te amo mais, se é possível…

– Onde está ela? Onde está ela? - disse uma voz na sala.

Luísa ergueu-se, com um salto, lívida. Era Jorge! Amarrotou convulsivamente a carta, quis escondê-la no bolso, - o roupão não tinha bolso! E desvairada, sem reflexão, arremessou-a para o sarcófago. Ficou de pé, esperando, as duas mãos apoiadas à mesa, a vida suspensa.

O reposteiro ergueu-se – e reconheceu logo o chapéu de veludo azul de D. Felicidade.

– Aqui metida, sua brejeira! Que estavas tu aqui a fazer? Que tens tu, filha, estás como a cal…

Luísa deixou-se cair no fauteuill, branca e fria; disse com um sorriso cansado:

-`Estava a escrever, deu-me uma tontura…

– Ai! Tonturas, eu! - acudiu logo D. Felicidade. - É uma desgraça, a cada momento a agarrar-me aos móveis; até tenho medo de andar só. Falta de purgas!

– Vamos para o quarto! - disse logo Luísa. - Estamos melhor no quarto.

Ao erguer-se, as pernas tremiam-lhe.

Atravessaram a sala; Juliana começava a arrumar. Luísa ao passar, viu na pedra da consola, debaixo do espelho oval, uma pouca de cinza; era da véspera, do charuto dele! Sacudiu-a – e ao erguer os olhos, ficou pasmada de se ver tão pálida.

A costureira vestida de preto, com um chapéu de fitas roxas, esperava sentada à beira da causeuse, com um olhar infeliz e o seu embrulho nos joelhos; vinha provar o corpete de um vestido composto; assentou, pregou, alinhavou, falando baixo, com uma humildade triste e uma tossinha seca; e apenas ela saiu, leve, com o seu andar de sombra, o xale tinto muito cingido às omoplatas magras – D. Felicidade começou logo a falar dele, do Conselheiro. Tinha-o encontrado no Moinho de Vento. Pois, senhores, nem lhe viera falar! Fizera-lhe uma cortesia muito seca, por demais, e tique-taque por ali fora, que se diria que ia fugido! Que te parece? Ai! Aquelas indiferenças matavam-na. E não as compreendias, não realmente não as compreendias…

– Porque enfim – exclamava – eu bem me conheço, não sou nenhuma criança, mas também não sou nenhum caco! Pois não é verdade?

– Certamente – disse Luísa distraída. Lembrava-lhe a carta.

– Olha que aqui onde me vês com os meus quarenta, decotada, ainda valho. O que são ombros e colo é do melhor!

– Luísa ia erguer-se. Mas D. Felicidade repetiu:

– Do melhor! Tomaram-no muitas novas!

– Creio bem – concordou Luísa, sorrindo vagamente.

– E ele também não é nenhum rapazinho novo…

– Não…

– Mas muito bem conservado! - E os olhos luziam-lhe. Uma mulher muito feliz!

– Muito…

– Um homem de apetecer! - suspirou D. Felicidade. E Luísa então:

– Tu esperas um instantinho? Vou lá dentro e volto já.

– Vai, filha, vai.

Luísa correu ao escritório, direita ao sarcófago. Estava vazio! E a carta dela, Santo Deus?

Chamou logo Juliana, aterrada.

– Você despejou o caixão dos papéis?

– Despejei, sim, minha senhora – respondeu muito tranquilamente.

E com interesse:

– Por quê, perdeu-se algum papel?

Luísa fazia-se pálida.

– Foi um papel que eu atirei para o caixão. Onde o despejou você?

– No barril do lixo, como é costume, minha senhora; imaginei que nada servia…

– Ah! Deixe ver!

Subiu rapidamente à cozinha. Juliana atrás, ia dizendo:

– Ora esta! Pois ainda não há cinco minutos! O caixão estava mais cheio… Andei a dar uma arrumadela no escritório… Valha-me Deus, se a senhora tem dito…

Mas o barril do lixo estava vazio, Joana tinha-o ido despejar abaixo naquele instantinho; e vendo a inquietação de Luísa:

– Por quê, perdeu-se alguma coisa?

– Um papel – disse Luísa, que olhava em redor, pelo chão, muito branca.

– Iam uns poucos de papéis, minha senhora – disse a rapariga –, eu deitei tudo ao despejo.

– Podia ter ficado algum caído por fora, Sra. Joana – lembrou timidamente Juliana.

– Vá ver, vá ver, Joana – acudiu Luísa com uma esperança.

Juliana parecia aflita:

– Jesus, senhor! Eu podia lá adivinhar! Mas para que não disse a senhora?…

– Bem, bem, a culpa não é sua, mulher…

– Credo, que até se me está a embrulhar o estômago… E é coisa de importância, minha senhora?

– Não, é uma conta…

– Valha-me Deus!…

Joana voltou, sacudindo um papel enxovalhado. Luísa agarrou-o, leu:-"… o diâmetro do primeiro poço de exploração…"

– Não, não é isto! - exclamou toda contrariada.

– Então foi pra baixo pra o cano, minha senhora; não está! Mais nada.

– Viu bem?

– Esquadrinhei tudo…

E Juliana continuava, desolada:

– Antes queria perder dez tostões! Uma assim! Eu, minha senhora, podia lá adivinhar…

– Bem, bem! - murmurou Luísa descendo.

Mas estava assustada; sentia mesmo uma suspeita indefinida… Lembrou-lhe o bilhete que escrevera na véspera a Basílio, e que metera, todo amarrotado, no bolso do vestido… Entrou no quarto, agitada.

D. Felicidade tirara o chapéu, acomodara-se na causeuse.

– Tu desculpas, hem? - fez Luísa.

– Anda, filha, anda! Que é?

– Perdi uma conta – respondeu.

Foi ao guarda-vestidos; achou logo o bilhete na algibeira… Aquilo serenou-a. A carta tinha ido para o lixo, decerto. Mas que imprudência!

– Bem, acabou-se! - disse sentando-se resignada.

E D. Felicidade imediatamente, baixando a voz muito confidencialmente:

– Ora, eu vinha-te falar numa coisa. Mas vê lá! Olha que é segredo.

Luísa ficou logo sobressaltada.

– Tu sabes – continuou D. Felicidade, devagar, com pausas – que a minha criada, a Josefa, está para casar com o galego… O homem é de ao pé de Tui, e diz que na terra dele há uma mulher que tem virtude para fazer casamentos que é uma coisa milagrosa… Diz que é o mais que há… Em deitando a sorte a um o homem entra-lhe uma tal paixão que se arranja logo o casamento e é a maior felicidade.

Luísa tranquilizada, sorriu.

– Escuta – acudiu D. Felicidade –, não te ponhas já com as tuas coisas…

No seu tom grave havia um respeito supersticioso.

– Diz que tem feito milagres. Homens que tinham desamparado raparigas, outros que não faziam caso delas, maridos que tinham amigas; enfim toda a sorte de ingratidão… Em a mulher deitando o encanto, os homens começam a esmorecer, a arrepender-se, a apaixonar-se, e estão pelo beiço… A rapariga contou-me isso. Eu lembrei-me logo…

– De deitar uma sorte ao Conselheiro! - exclamou Luísa.

– Que te parece?

Luísa deu uma risada sonora. Mas D. Felicidade quase se escandalizou. Contou outros casos: um fidalgo que desonrara uma lavadeira; um homem que abandonou a mulher e os filhos, fugira com uma bêbeda… Em todos a sorte operara de um modo fulminante, produzindo um amor súbito e fogoso pela pessoa desprezada. Apareciam logo rendidos, se estavam perto; se estavam longe, voltavam, ávidos, a pé, a cavalo, na mala-posta, apressando-se, ardendo… E entregavam-se, mansos e humildes como escravos acorrentados…

– Mas o galego – continuava ela muito excitada – diz que para ir à terra, falar à mulher, levar o retrato do Conselheiro, é necessário o retrato dele, o meu, é necessário o meu; ir falar, voltar – quer sete moedas!…

– Oh! D. Felicidade! - fez Luísa repreensivamente.

– Não me digas, não venhas com as tuas! Olha que eu sei de casos…

E erguendo-se:

– Mas são sete moedas! Sete moedas! - exclamou, arregalando os olhos.

Juliana apareceu à porta, e muito baixinho, com um sorriso:

– A senhora faz favor?

Chamou-a para o corredor, em segredo:

– Esta carta. Que vem do hotel.

Luísa fez-se escarlate.

– Credo, mulher! Não é necessário fazer mistérios!

Mas não entrou no quarto, abriu-a logo no corredor; era a lápis, escrita à pressa:

“Meu amor” - dizia Basílio - "por um feliz acaso descobri o que precisávamos, um ninho discreto para nos vermos…

E indicava a rua, o número, os sinais, o caminho mais perto.

…Quando vens, meu amor? Vem amanhã. Batizei a casa com o nome de Paraíso; para mim, minha adorada, é com efeito o Paraíso. Eu espero-te lá desde o meio-dia; logo que te aviste, desço.

Aquela precipitação amorosa em arranjar o ninho – provando uma paixão impaciente, toda ocupada dela – produziu-lhe uma dilatação doce do orgulho; ao mesmo tempo que aquele Paraíso secreto, como num romance, lhe dava a esperança de felicidades excepcionais; e todas as suas inquietações, os sustos da carta perdida se dissiparam de repente sob uma sensação cálida, como flocos de névoa sob o sol que se levanta.

Voltou ao quarto, com o olhar risonho.

– Que te parece, hem? - perguntou logo D. Felicidade, a quem a sua ideia ocupava tiranicamente.

– O quê?

– Achas que mande o homem a Tui?

Luísa encolheu os ombros; veio-lhe um tédio de tais enredos de bruxaria, misturados a amores caturras. Na vaidade da sua intriga romântica, achava repugnante aquele sentimentalismo senil.

– Tolices! - disse com muito desdém.

– Oh, filha! Não me digas, não me digas! - acudiu desolada D. Felicidade.

– Bem, então manda, manda! - fez Luísa, já impaciente.

– Mas são sete moedas! - exclamou D. Felicidade, quase chorosa.

Luísa pôs-se a rir.

– Por um marido? Acho barato…

– E se a sorte falha?

– Então é caro!

D. Felicidade deu um grande “ai!” Estava muito infeliz, naquela hesitação entre os impulsos da concupiscência e as prudências da economia. Luísa teve pena dela, e, tirando um vestido do guarda-roupa:

– Deixa lá, filha! Não hão de ser necessárias bruxarias!…

D. Felicidade ergueu os olhos ao céu.

– Vais sair? - perguntou melancolicamente.

– Não.

D. Felicidade propôs-lhe então que viesse com ela à Encarnação. Visitavam a Silveira, coitada, que tinha um furúnculo! E viam a armação da igreja para a festa; estreava-se o frontal novo, um primor!

– E estou também com vontade de ir rezar uma estaçãozinha, para aliviar cá por dentro – ajuntou, suspirando.

Luísa aceitou. Apetecia-lhe ir ver altares alumiados, ouvir o ciciar de rezas no coro, como se os requintes devotos dissessem bem com as suas disposições sentimentais. Começou a vestir-se depressa.

– Como tu estás gorda, filha! - exclamou D. Felicidade admirada, vendo-lhe os ombros, o colo.

Luísa diante do espelho olhava-se, sorria com o seu sorriso quente, contente das suas linhas, acariciando devagarinho, voluptuosamente, a pele branca e fina.

– Redondinha – disse, namorando-se.

– Redondinha? Vais-te a fazer uma bola!

E acrescentou, tristemente:

– Também com a tua vida, um marido como o teu, regaladinha, sem filhos, sem cuidados…

– Vamos lá, minha rica – disse Luísa –, que as tristezas não te têm feito emagrecer.

– Pois sim, pois sim! Mas… - e parecia desolada, como curvada sob as suas próprias ruínas – cá por dentro é uma desgraça, estômago, fígado…

– Se a mulher de Tui faz o milagre, põe tudo isso como novo!

Felicidade sorriu, com uma dúvida desconsolada.

– Sabes que tenho um chapéu lindo? - exclamou de repente Luísa. - Não viste? Lindo!

Foi logo buscá-lo ao guarda-vestidos. Era de palha fina, guarnecido de miosótis.

– Que te parece?

– É um primor!

Luísa mirava-o dando pancadinhas com as pontas dos dedos nas florzinhas azuis.

– Dá frescura – fez D. Felicidade.

– Não é verdade?

Pô-lo com muito cuidado, toda séria. Ficava-lhe bem! Basílio se a visse havia gostar, pensou. Era bem possível que o encontrassem…

– Veio-lhe, sem motivo, uma felicidade exuberante; achava tão delicioso viver, sair, ir à Encarnação, pensar no seu amante!… E toda no ar, procurava pelas chavinhas do toucador.

Onde tinha deixado as chaves? Na sala de jantar, talvez! Ia ver! Saiu correndo, tontinha, cantarolando:

– Amici, ta notte e bella…

La ra la la…

Quase topou com Juliana, que varria o corredor.

– Não deixe de engomar a saia bordada para amanhã, Juliana!

– Sim, minha senhora. Está em goma!

E seguindo-a com um olhar feroz:

– Canta, piorrinha; canta, cabrazinha; canta, bebedazinha!…

E ela mesma, tomada subitamente de um júbilo agudo, atirou vassouradas rápidas, soltando na sua voz rachada:

– Além de amanhã termina a campanha,

P-o-o-or aqui se diz…

Se tal for verdade, se não for patranha…

E com um espremido enfático:

– Se-e-rei bem feliz!

Ao outro dia, pelas duas horas da tarde, Sebastião e Julião passeavam em São Pedro de Alcântara.

Sebastião estivera contando a sua cena com Luísa, e como desde então a sua estima por ela crescera. Ao princípio escabreara-se, sim…

– Mas teve razão! Assim de surpresa, ouvir uma daquelas! E eu levei a coisa mal, fui muito à bruta…

Depois, coitadinha, concordara logo, mostra-se muito desgostosa, toda zelosa do seu pudor, pedira-lhe conselhos… Até tinha as lágrimas nos olhos.

– Eu disse-lhe logo que o melhor era falar ao primo, dizer o que se passava… Que te parece?

– Sim – disse vagamente Julião.

Tinha-o escutado distraído, chupando a ponta do cigarro. O seu rosto térreo cavava-se, com uma cor mais biliosa.

– Então achas que fiz bem, hem?

E depois de uma pausa:

– Que ela é uma senhora de bem às direitas! As direitas, Julião!

Continuaram calados. O dia estava encoberto e abafado, com um ar de trovoada; grossas nuvens pesadas e pardas iam-se acumulando, enegrecendo para o lado da Graça por trás das colinas; um vento rasteiro passava por vezes, pondo um arrepio nas folhas das árvores.

– De maneira que agora estou descansado – resumiu Sebastião. - Não te parece?

Julião encolheu os ombros com um sorriso triste:

– Quem me dera os teus cuidados, homem! - disse.

E falou então com amargura nas suas preocupações. - Havia uma semana que se abrira concurso para uma cadeira de substituto na Escola, e preparava-se para ele. Era a sua tábua de salvação, dizia; se apanhasse a cadeira, ganhava logo nome, a clientela podia vir, e a fortuna… E, que diabo, sempre era estar de dentro!… Mas a certeza da sua superioridade não o tranquilizava – porque enfim em Portugal, não é verdade? Nestas questões a ciência, o estudo, o talento é uma história; o principal são os padrinhos! Ele não os tinha – e o seu concorrente, um sensaborão, era sobrinho de um diretor-geral, tinha parentes na Câmara; era um colosso! Por isso ele trabalhava a valer, mas parecia-lhe indispensável meter também as suas cunhas! Mas quem?

– Tu não conheces ninguém, Sebastião?…

Sebastião lembrava-se de um primo seu, deputado pelo Alentejo, um gordo da maioria, um pouco fanhoso. Se Julião queria, falava-lhe… Mas sempre ouvira dizer que a Escola não era gente de empenhos e de intriga… De resto tinham o Conselheiro Acácio…

– Uma besta! - fez Julião. - Um parlapatão. Quem faz lá caso daquilo? O teu primo, hem! O teu primo parece-me bom! E necessário alguém que fale, trabalhe… - Porque acreditava muito nas influências dos empenhos, no domínio dos “personagens”, nas docilidades da fortuna quando dirigida pelas habilidades da intriga. E com um orgulho raiado de ameaça: - Que eu hei de lhes mostrar o que é saber as coisas, Sebastião!

Ia explicar-lhe o assunto da tese, mas Sebastião interrompeu-o:

– Ela aí vem.

– Quem?

– A Luísa.

Passava com efeito, por fora do Passeio, toda vestida de preto, só. - Respondeu à cortesia dos dois homens com um sorriso, adeusinhos da mão, um pouco corada.

E Sebastião imóvel, seguindo-a devotamente com os olhos:

– Se aquilo não respira mesmo honestidade! Vai às lojas… Santa rapariga!

Ia encontrar Basílio no Paraíso pela primeira vez. E estava muito nervosa: não dominar, desde pela manhã, um medo indefinido que lhe fizera pôr um véu muito espesso, e bater o coração ao encontrar Sebastião. Mas ao mesmo uma curiosidade intensa, múltipla, impelia-a, com um estremecimentozinho de prazer. - Ia, enfim, ter ela própria aquela aventura que lera tantas vezes nos romances amorosos! Era uma forma nova do amor que ia experimentar, sensações excepcionais! Havia tudo – a casinha misteriosa, o segredo ilegítimo, todas as palpitações do perigo! Porque o aparato impressionava-a mais que o sentimento; e a casa em si interessava-a, atraía-a mais que Basílio! Como seria? Era os lados de Arroios, adiante do Largo de Santa Bárbara; lembrava-se vagamente que havia ali uma correnteza de casas velhas… Desejaria antes que fosse numa quinta, com arvoredos murmurosos e relvas fofas; passeariam as mãos enlaçadas, num silêncio poético; e depois o som da água que cai nas bacias de pedra daria um ritmo lânguido aos sonhos amorosos… Mas era num terceiro andar – quem sabe como seria dentro? Lembrava-lhe um romance de Paulo Féval em que o herói, poeta e duque, forra de cetins e tapeçarias o interior de uma choça; encontra ali a sua amante; os que passam, vendo aquele casebre arruinado, dão um pensamento compassivo à miséria que decerto o habita – enquanto dentro, muito secretamente, as flores se esfolham nos vasos de Sevres e os pés nus pisam gobelins veneráveis! Conhecia o gosto de Basílio – e o Paraíso decerto era como no romance de Paulo Féval.

Mas no Largo de Camões reparou que o sujeito de pera comprida, o do Passeio, a vinha seguindo, com uma obstinação de galo; tomou logo um cupê. E ao descer o Chiado, sentia uma sensação deliciosa em ser assim levada rapidamente para o seu amante, e mesmo olhava com certo desdém os que passavam no movimento da vida trivial – enquanto ela ia para uma hora tão romanesca da vida amorosa! Todavia à maneira que se aproximava vinha-lhe uma timidez, uma contração de acanhamento, como um plebeu que tem de subir, entre alabardeiros solenes, a escadaria de um palácio. Imaginava Basílio esperando-a estendido num divã de seda; e quase receava que a sua simplicidade burguesa, pouco experiente, não achasse palavras bastante finas ou carícias bastante exaltadas. Ele devia ter conhecido mulheres tão belas, tão ricas, tão educadas no amor! Desejava chegar num cupê seu, com rendas de centos de mil réis, e ditos tão espirituosos como um livro…

A carruagem parou ao pé de uma casa amarelada, com uma portinha pequena. Logo à entrada um cheiro mole e salobre enojou-a. A escada, de degraus gastos, subia incremente, apertada entre paredes onde a cal caía, e a umidade fizera nódoas. No patamar da sobreloja, uma janela com um gradeadozinho de arame, parda do pó acumulado, coberta de teias de aranha, coava a luz suja do saguão. E por trás de uma portinha, ao lado, sentia-se o ranger de um berço, o chorar doloroso de uma criança.

Mas Basílio desceu logo, com o charuto na boca, dizendo baixo:

– Tão tarde! Sobe! Pensei que não vinhas. O que foi?

A escada era tão esguia, que não podiam subir juntos. E Basílio, caminhando adiante, de esguelha:

– Estou aqui desde a uma hora, filha! Imaginei que te tinhas esquecido da rua…

Empurrou uma cancela, fê-la entrar num quarto pequeno, forrado de papel às listras azuis e brancas.

Luísa viu logo, ao fundo, uma cama de ferro com uma colcha amarelada, feita de remendos juntos de chitas diferentes; e os lençóis grossos, de um branco encardido e mal lavado, estavam impudicamente entreabertos…

Fez-se escarlate, sentou-se, calada, embaraçada. E os seus olhos muito abertos, iam-se fixando – nos riscos ignóbeis da cabeça dos fósforos, ao pé da cama; na esteira esfiada, comida, com uma nódoa de tinta entornada; nas bambinelas da janela, de uma fazenda vermelha, onde se viam passagens; numa litografia, onde uma figura, coberta de uma túnica azul flutuante, espalhava flores voando… Sobretudo uma larga fotografia, por cima do velho canapé de palhinha, fascinava-a: era um indivíduo atarracado, de aspecto hílare e alvar, com a barba em colar, o feitio de um piloto ao domingo; sentado, de calças brancas, com as pernas muito afastadas, pousava uma das mãos sobre um joelho, e a outra muito estendida assentava sobre uma coluna truncada; e por baixo do caixilho, como sobre a pedra de um túmulo, pendia de um prego de cabeça amarela, uma coroa de perpétuas!

– Foi o que se pode arranjar – disse-lhe Basílio. - E foi um acaso; é muito retirado, é muito discreto… Não é muito luxuoso…

– Não – fez ela, baixo. - Levantou-se, foi à janela, ergueu uma ponta da cortininha de cassa fixada à vidraça; defronte eram casas pobres; um sapateiro grisalho, batia a sola a uma porta; à entrada de uma lojita balouçava-se um ramo de carqueja ao pé de um maço de cigarros pendentes de um barbante; e, a uma janela, uma rapariga esguedelhada embalava tristemente no colo uma criança doente que tinha crostas grossas de chagas na sua cabecinha cor de melão.

Luísa mordia os beiços; sentia-se entristecer. Então nós de dedos bateram discretamente à porta. Ela assustou-se, desceu rapidamente o véu. Basílio foi abrir. Uma voz adocicada, cheia de ss melífluos, ciciou baixo. Luísa ouviu vagamente: - Sossegadinhos, suas chavezinhas…

– Bem, bem! - disse Basílio apressado, batendo com a porta.

– Quem é?

– É a patroa.

O céu pusera-se a enegrecer; já a espaços grossas gotas de chuva se esmagavam nas pedras da rua; e um tom crepuscular fazia o quarto mais melancólico.

– Como descobriste tu isto? - perguntou Luísa, triste.

– Inculcaram-mo.

Outra gente, então, tinha vindo ali, amado ali? - pensou ela. E a cama pareceu-lhe repugnante.

– Tira o chapéu – disse Basílio, quase impaciente –, estás-me a fazer aflição com esse chapéu na cabeça.

Ela soltou devagar o elástico que o prendia, foi pô-lo no canapé de desconsoladamente.

Basílio tomou-lhe as mãos, e atraindo-a, sentando-se na cama:

– Estás tão linda! - Beijou-lhe o pescoço, encostou a cabeça ao peito dela. E com a vista muito quebrada:

– O que eu sonhei contigo esta noite!

Mas de repente, uma forte pancada de chuva fustigou os vidros. E imediatamente bateram à porta, com pressa.

– Que é? - bradou Basílio furioso.

A voz cheia de ss explicou que esquecera um cobertor na varanda que estava a secar. Se se encharcasse, que perdição!…

– Eu lhe pagarei o cobertor, deixe-me! - berrou Basílio.

– Dá-lhe o cobertor…

– Que a leve o diabo!

E Luísa, sentindo um arrepio de frio nos seus ombros nus, abandonava-se com uma vaga resignação, entre os joelhos de Basílio – vendo constantemente voltada para si a face alvar do piloto.

Assim um iate que aparelhou nobremente para uma viagem romanesca vai encalhar, ao partir, nos lodaçais do rio baixo; e o mestre aventureiro, que sonhava com os incensos e os almíscares das florestas aromáticas, imóvel sobre o seu tombadilho, tapa o nariz aos cheiros dos esgotos.

Apenas Luísa começou a sair todos os dias, Juliana pensou logo: “bem, vai o gajo!”

E a sua atitude tornou-se ainda mais servil. Era com um sorriso de baixeza a abrir a porta, alvoroçada, quando Luísa voltava às cinco horas. E que zelo! Que exatidões! Um botão que faltasse, uma fita que se extraviava, e eram mil perdões, minha senhora", “desculpe por esta vez”, muitas lamentações humildes. Interessava-se com devoção pela saúde dela, pela sua roupa, pelo que tinha para jantar…

Todavia, desde as idas ao Paraíso, o seu trabalho aumentara: todos os dias agora tinha de engomar; muitas vezes era preciso ensaboar à noite colares, rendinhas, punhos, numa bacia de latão, até as onze horas. As seis da manhã, mais cedo, já estava com o ferro às voltas. E não se queixava; até dizia a Joana:

– Ai! É um regalo ver assim uma senhora asseada!… Que as há! Credo! Não, não é por dizer, mas até me dá gosto. Depois, graças a Deus, agora tenho saúde; o trabalho não me assusta!

Não tornara a resmungar da patroa. Afirmava mesmo à Joana repetidamente:

– A senhora, ai, é uma santa! Muito boa de aturar… Não a há melhor!

O seu rosto perdera alguma coisa do tom bilioso, da contração amarga. As vezes, ao jantar ou à noite, costurando calada ao pé de Joana, à luz do petróleo, vinham-lhe sorrisos súbitos, o olhar clareava-se lhe numa dilatação jovial.

– A Sra. Juliana tem o ar de quem está a pensar em coisas boas…

– A malucar cá por dentro, Sra. Joana! - respondia com satisfação.

Parecia perder a inveja; ouviu mesmo falar com tranquilidade do vestido de seda que estreou num dia de festa, em setembro, a Gertrudes do doutor. Disse apenas:

– Também um dia hei de estrear vestidos, e dos bons! Dos da modista!

Já outras vezes revelara por palavras vagas a ideia de uma abundância próxima. Joana até lhe dissera:

– A Sra. Juliana espera alguma herança?

– Talvez! - respondeu secamente.

E cada dia detestava mais Luísa. Quando pela manhã a via arrebicar-se, perfumar-se com água-de-colônia, mirar-se ao toucador cantarolando, saía do quarto porque lhe vinham venetas de ódio, tinha medo de estourar! Odiava-a pelos toaletes, pelo ar alegre, pela roupa branca, pelo homem que ia ver, por todos os seus regalos de senhora. “A cabra!” Quando ela saía ia espreitar, vê-la subir a rua, e fechando a vidraça com um risinho rancoroso:

– Diverte-te, piorrinha, diverte-te, que o meu dia há de chegar! Oh, se há de!

Luísa com efeito divertia-se. Saía todos os dias às duas horas. Na rua já se dizia que a do Engenheiro tinha o seu São Miguel.

Apenas ela dobrava a esquina o conciliábulo juntava-se logo a cochichar. Tinham a certeza que se ia encontrar com o peralta. Onde seria? - era a grande curiosidade da carvoeira.

– No hotel – murmurava o Paula. - Que nos hotéis é escândalo bravio. Ou talvez – acrescentava com tédio – nalguma dessas pocilgas da Baixa!

A estanqueira lamentava-a: uma senhora que era tão apropositada!

– Vaca solta lambe-se toda, Sra. Helena! - rosnava o Paula. - São todas o mesmo!

– Menos isso! - protestava a estanqueira. - Que eu sempre fui uma mulher honesta!

– E ela? - reclamava a carvoeira – ninguém tinha que lhe dizer!

– Falo da alta sociedade, das fidalgas, das que arrastam sedas! É uma cambada. Eu é que o sei! - E acrescentava gravemente: - No povo há mais moralidade. O povo é outra raça! - E com as mãos enterradas nos bolsos, as pernas muito abertas, ficava absorto, com a cabeça baixa, o olhar cravado no chão. - Se é! - murmurava. - Se é! - Como se estivesse positivamente achando as pedrinhas da calçada menos numerosas que as virtudes do povo!

Sebastião que tinha estado na quinta de Almada quase duas semanas, ficou aterrado quando, ao voltar, a Joana lhe deu as grandes “novidades”: que a Luisinha agora saía todos os dias às duas horas, que o primo não voltara; a Gertrudes é que lho dissera; não se falava na rua noutra coisa…

– Então a pobre senhora nem sequer pode ir às lojas, aos seus arranjos! - exclamou Sebastião. - A Gertrudes é uma desavergonhada, e nem sei como a tia Joana consente que ela ponha aqui os pés. Vir com esses mexericos!…

– Cruzes! Olha o destempero! - replicou muito escandalizada tia Joana. - Oh, menino, realmente… A pobre mulher disse o que ouviu na rua! Que ela até a defende; até ela é que a defende! Até se esteve a queixar que se fala! Que se fala! Boa! - E a tia Joana saiu, resmungando: - Olha o destempero, credo!

Sebastião chamou-a, aplacou-a:

– Mas quem fala, tia Joana?

– Quem? - E muito enfaticamente: - Toda a rua! Toda a rua! Toda a rua!

Sebastião ficou aniquilado. Toda a rua! Pudera! Se ela agora se punha a sair os dias; uma senhora, que quando estava Jorge não saía do buraco! A vizinhança que murmurara das visitas do outro naturalmente começava a comentar as saídas dela! Estava-se a desacreditar! E ele não podia fazer nada! Ir adverti-ta? Ter outra cena? Não podia.

Procurou-a. Não lhe queria decerto tocar em nada; ia só vê-la. Não estava. Voltou dai a dois dias. Juliana veio-lhe dizer à cancela, com o seu sorriso amarelado: “Foi-se agora mesmo, há um instantinho. Ainda a apanha à Patriarcal”. Enfim, um dia encontrou-a ao princípio da Rua de São Roque. Luísa pareceu muito contente em o ver: - Por que se tinha demorado tanto em Almada? Que deserção!

Trazia carpinteiros; era necessário vigiar as obras. E ela?

– Bem. Um bocado aborrecida. O Jorge diz que ainda se demora. Tenho do muito só. Nem Julião, nem Conselheiro; ninguém. A D. Felicidade é que aparecido às vezes de fugida. Está agora sempre metida na Encarnação… Isto devota! - E riu.

Então onde ia?

– A umas comprazitas, à modista depois… - E apareça agora, Sebastião, hem?

– Hei de aparecer.

– À noite. Estou tão só! Tenho tocado muito, e o que me vale é o piano!

Nessa mesma tarde Sebastião recebeu uma carta de Jorge.

Tens visto a Luísa? Estive quase com cuidado, porque estive mais de cinco dias sem carta dela. De resto está preguiçosa como uma freira; quando escreve são quatro linhas porque está o correio a partir. Vai dizer ao correio que espere, que diabo! Queixa-se de se aborrecer, de estar só, que todos a abandonaram; que tem vivido como num deserto. Vê se lhe vais fazer companhia, coitada, etc.

No dia seguinte ao anoitecer foi à casa dela. Apareceu-lhe muito vermelha, com os olhos estremunhados, de roupão branco. Tinha chegado muito cansada de fora; tinha-lhe dado o sono depois de jantar; adormecera sobre a causeuse… Que havia de novo? E bocejava.

Falaram das obras de Almada, do Conselheiro, de Julião; e ficaram calados. Havia um constrangimento.

Luísa então acendeu as velas no piano, mostrou-lhe a nova música que estudava, a Medgé de Gounod; mas havia uma passagem em que se embrulhava sempre; pediu a Sebastião que a tocasse, e junto do piano, batendo o compasso com o pé, acompanhava baixo a melodia, a que a execução de Sebastião dava um encanto penetrante. Quis tentar depois, mas enganou-se, zangou-se; atirou a música para o lado, veio sentar-se no sofá, dizendo:

– Quase nunca toco! Estão-se me a enferrujar os dedos!…

Sebastião não se atrevia a perguntar pelo primo Basílio. Luísa não lhe pronunciou sequer o nome. E Sebastião, vendo naquela reserva uma diminuição de confiança ou um resto persistente de despeito, disse que tinha de ir à Associação Geral da Agricultura; e saiu muito desconsolado.

Cada dia que se seguiu trouxe-lhe a sua inquietação diferente. As vezes era a tia Joana que lhe dizia à tarde: A Luisinha lá saiu hoje outra vez! Por este calor, até pode apanhar alguma! Credo!" Outras, era o conciliábulo dos vizinhos, que avistava de longe, e que decerto estavam a cortar na pele da pobre senhora! Parecia-lhe tudo aquilo exatamente a "Ária da calúnia" no Barbeiro de Sevilha: a calúnia ao princípio leve como o frêmito das asas de um pássaro, subindo num crescendo aterrador até estalar como um trovão!

Dava agora voltas para não passar na rua, diante do Paula e da estanqueira; tinha vergonha deles! Encontrara o Teixeira Azevedo, que lhe perguntara:

– Então o Jorge quando vem? Que diabo! O rapaz fica por lá!

E aquela observação trivial aterrou-o.

Enfim, um dia, mais apoquentado, foi procurar Julião. Encontrou-o no seu quarto andar, em mangas de camisa e em chinelas, enxovalhado e esguedelhado rodeado de papelada, com uma chocolateirinha de café ao pé, trabalhando. O soalho negro estava cheio de pontas de cigarros; ao canto estava embrulhada roupa suja; sobre a cama desfeita havia livros abertos; - e um cheiro relentado saía do desmazelo das coisas. A janela de peitoril dava para o saguão, de onde vinha o cantar estridente de uma criada, e o ruído areado do esfregar de tachos.

Julião, apenas ele entrou, ergueu-se, espreguiçou-se, enrolou um cigarro, e declarou que estava a trabalhar desde as sete!… Hem? Era bonito! Para que soubesse o Sr. Sebastião!

– De resto chegaste a propósito. Estava para mandar à tua casa… Devia receber aí um dinheiro e não veio. Dá cá uma libra.

E imediatamente começou a falar da tese. A coisa saía!

Leu-lhe parágrafos do prólogo com uma deleitação paternal, e, muito satisfeito, na abundância de confiança que dá a excitação do trabalho, com grandes passadas pelo quarto:

– Hei de lhes mostrar que ainda há portugueses em Portugal, Sebastião! Hei de os deixar de boca aberta! Tu verás!

Sentou-se; pôs-se a numerar as folhas escritas, assobiando. Sebastião, então, com timidez, quase vexado de perturbar com as suas preocupações domésticas aqueles interesses científicos, disse baixo:

– Pois eu vim-te falar por causa lá da nossa gente…

Mas a porta abriu-se com força, e um rapaz de barba desleixada, e olhar um pouco doido, entrou; era um estudante da Escola, amigo de Julião, e quase imediatamente os dois recomeçaram uma discussão que tinham travado de manhã, e que fora interrompida às onze horas, quando o rapaz de olhar doido a almoçar à Áurea.

– Não, menino! - exclamava o estudante, exaltado. - Estou na minha! A Medicina é uma meia ciência; a Fisiologia é outra meia ciência! São ciências conjeturais, porque nos escapa a base, conhecer o princípio da vida!

E cruzando os braços diante de Sebastião, bradou-lhe:

– Que sabemos nós do princípio da vida?

Sebastião, humilhado, baixou os olhos.

Mas Julião indignava-se:

– Estás desmoralizado pela doutrina vitalista, miserável! - Trovejou contra o Vitalismo, que declarou “contrário ao espírito científico”. Uma teoria que pretende que as leis que governam os corpos brutos não são as mesmas que governam os corpos vivos – é uma heresia grotesca – exclamava. - E Bichat que a proclama é uma besta!

O estudante, fora de si, bradou – que chamar a Bichat uma besta era simplesmente de um alarve.

Mas Julião desprezou a injúria, e continuou, exaltado nas suas ideias:

– Que nos importa a nós o princípio da vida? Importa-me tanto como a primeira camisa que vesti! O princípio da vida é como outro qualquer princípio: um segredo! Havemos de ignorá-lo eternamente! Não podemos saber nenhum princípio. A vida, a morte, as origens, os fins, mistérios! São causas primárias com que não temos nada a fazer, nada! Podemos batalhar séculos, que não avançamos uma polegada. O fisiologista, o químico, não têm nada com os princípios das coisas; o que lhes importa são os fenômenos! Ora, os fenômenos e as suas causas imediatas, meu caro amigo, podem ser determinadas com tanto rigor nos corpos brutos, como nos corpos vivos – numa pedra, como num desembargador! E a Fisiologia e a Medicina são ciências tão exatas como a Química! Isto já vem de Descartes!

Travaram então um berreiro sobre Descartes. E imediatamente, sem que Sebastião atônito tivesse descoberto a transição, encarniçaram-se sobre a ideia de Deus.

O estudante parecia necessitar Deus para explicar o Universo. Mas Julião atacava Deus com cólera: chamava-lhe uma hipótese safada", “uma velha caturrice do partido miguelista”! E começaram a assaltar-se sobre a questão social, como dois galos inimigos.

O estudante, com os olhos esgazeados, sustentava, dando punhadas sobre a mesa, o princípio da autoridade! Julião berrava pela “anarquia individual!” E depois de citarem com fúria Proudhon, Bastiat, Jouffroy romperam em personalidades. Julião, que dominava pela estridência da voz, censurou violentamente ao estudante – as suas inscrições a seis por cento, o ridículo de ser filho de um corretor de fundos, e o bife de proprietário que vinha de comer na Áurea!

Olharam-se, então, com rancor.

Mas daí a momentos o estudante deixou cair com desdém algumas palavras sobre Claude Bernard, e a questão recomeçou, furiosa.

Sebastião tomou o chapéu.

– Adeus – disse baixo.

– Adeus, Sebastião, adeus – disse prontamente Julião.

Acompanhou-o ao patamar.

– E quando quiseres que eu fale a meu primo… - murmurou Sebastião.

– Pois sim, veremos, eu pensarei – disse Julião com indiferença, como se o orgulho do trabalho lhe tivesse dissipado o terror da injustiça.

Sebastião foi descendo as escadas, pensando: “Não se lhe pode falar em nada, agora!”

De repente veio-lhe uma ideia: se fosse ter com D. Felicidade, abrir-se com ela! D. Felicidade era espalhafatona, um pouco tonta, mas era uma mulher de idade, íntima de Luísa; tinha mais autoridade, mais habilidade mesmo…

Decidiu-se logo; tomou um trem, foi à Rua de São Bento.

A criada de D. Felicidade apareceu-lhe, desolada e lacrimosa:

– Pois não sabe?

– Ai! Até admira!

– Mas o quê?

– A senhora! Uma desgraça assim! Torceu um pé na Encarnação, deu uma n estado muito mal, muito mal.

– Aqui?

– Na Encarnação. Nem pode sair. Está com a senhora D. Ana Silveira. Uma desgraça assim! E está num frenesi!

– Mas quando foi?

– Anteontem à noite.

Sebastião saltou para o trem, mandou bater para casa de Luísa. D. Felicidade, doente, na Encarnação! Mas então Luísa podia bem sair todos os dias! Ia vê-la, fazer-lhe companhia, tratar dela!…

A vizinhança não tinha que rosnar! Ia ver a pobre doente!…

Eram duas horas quando a parelha estacou à porta de Luísa. Encontrou-a, que descia a escada, vestida de preto, de luva gris-perle, com um véu negro.

– Ah! Suba, Sebastião, suba! Quer subir?

Parara nos degraus, com uma corzinha no rosto, um pouco embaraçada.

– Não, obrigado. Vinha dizer-lhe… Não sabe? A D. Felicidade…

– O quê?

– Torceu um pé. Está mal.

– Que me diz?

Sebastião deu os pormenores.

– Vou lá já.

– Deve ir. Eu não posso ir, não entram homens. Coitada! Diz que está mal. - Acompanhou-a até a esquina da rua, ofereceu-lhe mesmo a tipoia: - E muitos recados que tenho pena de a não ver!… Pobre senhora! E diz que está num frenesi!

Viu-a afastar para a Patriarcal, e, admirando a graça da sua figura, esfregava as mãos satisfeito.

Estavam justificadas, santificadas mesmo aquelas passeatas todos os dias! Ia ser a enfermeira da pobre D. Felicidade! Era necessário que todos soubessem: o Paula, a estanqueira, a Gertrudes, as Azevedos, todos, de modo que quando a vissem de manhã subir a rua, dissessem: “Lá vai fazer companhia à doente! Santa senhora”.

O Paula estava à porta da loja – e Sebastião com uma ideia súbita, entrou. Estava-se estimando de se sentir tão fecundo em expedientes, tão hábil!

Deitou um pouco O chapéu para a nuca, e mostrando com o guarda-sol o painel que representava D. João VI:

– Quanto quer vossemecê por isto, ó Sr. Paula?

O Paula ficou surpreendido:

– O Sr. Sebastião está a brincar?

Sebastião exclamou:

– A brincar? - Falava muito sério! Queria uns quadros para a sala de entrada, em Almada; mas velhos, sem caixilho, para dizerem bem sobre um papel escuro. - Como isto! Estou a brincar! Ora essa, homem!

– Desculpe, Sr. Sebastião… Pois nesse caso há por aí alguns painéis a calhar.

– Este D. João VI agrada-me. Quanto custa isto?

O Paula disse, sem hesitar:

– Sete mil e duzentos. Mas é obra de mestre.

Era uma tela desbotada de tom defumado, onde uns restos de face avermelhada, com uma cabeleira em cachos, sobressaíam vagamente sobre um fundo sombrio. Um vermelhão baço indicava o veludo de uma casaca de corte; a pança saliente e ostentosa enchia um colete esverdeado. E a parte mais conservada da tela era, ao lado sobre um coxim, a coroa real, que o artista trabalhara com uma minuciosidade entusiasta, ou por preocupação de idiota, ou por adulação de cortesão.

Sebastião achava caro; mas o Paula mostrou-lhe o preço escrito por trás, numa tirinha de papel; espanejou a tela com amor; indicou as belezas, falou na sua honestidade; deprimiu outros vendedores de móveis, que tinham a consciência nas palmilhas; jurou que o retrato pertencera ao Paço de Queluz, e ia atacar as questões públicas – quando Sebastião disse resumindo:

– Bem, pois mande-mo logo, fico com ele. E mande a conta.

– Leva uma rica obra!

Sebastião agora olhava em redor. Queria falar do pé torcido de D. Felicidade, e procurava uma transição. Examinou umas jarras da Índia, um tremó; e avistando uma poltrona de doente:

– Aquilo é que era bom para a D. Felicidade! - exclamou logo – aquela cadeira! Boa cadeira!

O Paula arregalou os olhos.

– Para a D. Felicidade Noronha – repetiu Sebastião. - Para estar deitada… Pois não sabia, homem? Partiu um pé; tem estado muito mal.

– A D. Felicidade, a amiga de cá? - e indicou com o polegar a casa do Engenheiro.

– Sim, homem! Quebrou um pé na Encarnação. Até lá ficou. A D. Luísa vai para lá fazer-lhe companhia todos os dias. Agora ia ela para lá…

– Ah! - fez o Paula lentamente. E depois de uma pausa: - Mas eu ainda a vi entrar para cá há de haver oito dias.

– Foi anteontem. - Tossiu e acrescentou, voltando o rosto, olhando muito umas gravuras: - De resto a D. Luísa já ia todos os dias à Encarnação, mas era para ver a Silveira, a D. Ana Silveira, que esteve mal. Coitada, há três semanas que tem passado uma vida de enfermeira. Não sai da Encarnação! E agora é a D.

Felicidade. Não é má maçada!

– Pois não sabia, não sabia – murmurava o Paula, com as mãos enterradas nos bolsos.

– Mande-me o D. João VI, hem?

– Às ordens, Sr. Sebastião.

Sebastião foi para casa. Subiu à sala; e atirando o chapéu para o sofá: “Bem, pensou, agora ao menos estão salvas as aparências!” - Passeou algum com a cabeça baixa; sentia-se triste; porque o ter conseguido, por um justificar aqueles passeios para com a vizinhança, fazia-lhe parecer mais cruel a ideia de que os não podia justificar para consigo. Os comentários dos vizinhos iam findar por algum tempo, mas os seus?… Queria achá-los falsos, pueris, injustos; e, contra sua vontade, o seu bom senso e a sua retidão estavam sempre a revolvê-los baixo. Enfim, tinha feito o que devia! E com um gesto triste, falando só, no silêncio da sala:

– O resto é com a sua consciência!

Nessa tarde, na rua, sabia-se já que a D. Felicidade Noronha torcera um pé na Encarnação (outros diziam quebrara uma perna), e que a D. Luísa não lhe saia da cabeceira… O Paula declarara com autoridade:

– É de boa rapariga, é de muito boa rapariga!

A Gertrudes do doutor foi logo, à noitinha, perguntar à tia Joana, se era verdade da perna quebrada. A tia Joana corrigiu: era o pé, torcera o pé! E a Gertrudes veio dizer ao doutor, ao chá, que a D. Felicidade dera uma queda, que ficara em pedaços. - Foi na Encarnação – acrescentou. - Diz que anda tudo lá numa roda viva. A Luisinha até lá tem dormido…

– Pieguices de beatas! - rosnou com tédio o doutor.

Mas na rua todos a elogiavam. Mesmo, daí a dias, o Teixeira Azevedo (que apenas cumprimentava Luísa), tendo-a encontrado na Rua de São Roque, parou, e com uma cortesia profunda:

– Desculpe Vossência. Como vai a sua doente?

– Melhor, agradecida.

– Pois, minha senhora, tem sido de muita caridade, ir todos os dias por calor à Encarnação…

Luísa corou.

– Coitada! Não lhe falta companhia, mas…

– É de muita caridade, minha senhora – exclamou com ênfase. - Tenho-o dito por toda a parte. É de muita caridade. Um criado de Vossência!

E afastou-se comovido.

Luísa fora logo, com efeito, ver D. Felicidade. Tinha uma luxação simples; nos quartos da Silveira, com o pé em compressas de arnica, cheia de terror de perder a perna, passava o dia rodeada de amigas, chorando-se, saboreando os mexericos do recolhimento, e debicando petiscos.

Apenas alguém entrava para a ver, redobrava de exclamações e de queixas; vinha logo a história miúda, incidentada, prolixa da desgraça; ia a descer, a pôr o pé no degrau; escorregara; sentiu que ia a cair; ainda se sustentou, e pôde dizer: “Ai, Nossa Senhora da Saúde!” Ao princípio a dor não foi grande; mas podia ter morrido; tinha sido um milagre!

Todas as senhoras concordavam que era realmente um milagre. Olhavam-na compungidas, e iam ao coro alternadamente prostrar-se, e pedir aos santos especiais o alívio da Noronha!

A primeira visita de Luísa foi para D. Felicidade uma consolação; deu-lhe melhoras; porque se ralava de estar ali de cama, sem saber notícias dele, sem poder falar dele!

E nos dias seguintes, apenas ficava só no quarto com Luísa, chamava-a logo para a cabeceira, e num murmúrio misterioso: tinha-o visto? Sabia dele? - A sua aflição era que o Conselheiro não soubesse que ela estava doente, e não lhe pudesse dar aqueles pensamentos compassivos a que o seu pé tinha direito, e que seriam um conforto para o seu coração! Mas Luísa não o vira – e D. Felicidade, remexendo a chazada, exalava suspiros agudos.

As duas horas Luísa saía da Encarnação e ia tomar um trem ao Rossio: para não parar à porta do Paraíso com espalhafato de tipoia, apeava-se ao Largo de Santa Bárbara; e fazendo-se pequenina, cosida com a sombra das casas, apressava-se com os olhos baixos, e um vago sorriso de prazer.

Basílio esperava-a deitado na cama, em mangas de camisa; para não se enfastiar, só, tinha trazido para o Paraíso uma garrafa de conhaque, açúcar, limões – e com a porta entreaberta fumava, fazendo grogues frios. O tempo arrastava-se; via a todo o momento as horas, e sem querer ia escutando, notando os ruídos íntimos da família da proprietária que vivia nos quartos interiores: a rabugem de uma criança, uma voz acatarroada que ralhava, e de repente uma cadelinha que começava a ladrar furiosa. Basílio achava aquilo burguês e reles; impacientava-se. Mas um frufru de vestido roçava a escada e os tédios dele, bem como os receios dela, dissipavam-se logo no calor dos primeiros beijos. Luísa vinha sempre com pressa; queria estar em casa às cinco horas, e era um estirão depois! Entrava um pouco suada, e Basílio gostava da transpiraçãozinha tépida que havia nos seus ombros nus.

– E teu marido? - perguntava ele. - Quando vem?

– Não fala em nada. - Ou então: - Não recebi carta, não sei nada.

Parecia ser aquela a preocupação de Basílio, na alegria egoísta da posse recente. Tinha então carícias muito extáticas; ajoelhava-se aos pés dela; fazia voz de criança:

– Lili não ama Bibi…

Ela ria, meio despida, com um riso cantado e libertino.

– Lili adora Bibi!… É doida por Bibi!

E queria saber se pensava nela; o que tinha feito na véspera. Fora ao Grêmio; jogara uns robbers, viera para casa cedo; sonhara com ela…

– Vivo para ti, meu amor, acredita!

– E deixava-lhe cair a cabeça no regaço, como sob uma felicidade excessiva.

Outras vezes, mais sério, dava-lhe certos conselhos de gosto, de toalete: pedira-lhe que não trouxesse postiços no cabelo, que não usasse botinas de elástico.

Luísa admirava muito a sua experiência do luxo; obedecia-lhe, amoldava-se suas ideias: - até afetar, sem o sentir, um desdém pela gente virtuosa, para imitar as suas opiniões libertinas.

E lentamente, vendo aquela docilidade, Basílio não se dava ao incômodo de se constranger; usava dela, como se a pagasse! Acontecera uma manhã escrever-lhe duas palavras a lápis que não podia ir ao Paraíso, sem outras explicações! Uma ocasião mesmo não foi, sem a avisar – e Luísa achou a porta fechada. Bateu timidamente, olhou pela fechadura, esperou palpitante – e voltou muito desconsolada, quebrada do calor, com a poeirada nos olhos, e vontade de chorar.

Não aceitava o menor incômodo, nem para lhe causar um contentamento. Luísa tinha-lhe pedido que fosse de vez em quando aos domingos à sua casa, passar a noite; viriam Sebastião, o Conselheiro, D. Felicidade quando estivesse melhor; era uma alegria para ela, e depois dava às suas relações um ar mais parente, mais legítimo.

Mas Basílio pulou:

– O quê! Ir cabecear de sono com quatro caturras… Ah! Não!…

– Mas conversa-se, faz-se música…

Merci! Conheço-a, a música das soirées de Lisboa! A Valsa do Beijo e o Trovador. Safa!

Depois duas ou três vezes falara de Jorge com desdém. Aquilo ofendera-a.

Ultimamente mesmo, quando ela entrava no Paraíso, já não tinha a delicadeza amorosa de se levantar alvoroçado: sentava-se apenas na cama, e tirando preguiçosamente o charuto da boca:

– Ora viva a minha flor! - dizia.

E um ar de superioridade quando lhe falava! Um modo de encolher os ombros, de exclamar: “Tu não percebes nada disso!” Chegava a ter palavras cruas, gestos brutais. E Luísa começou a desconfiar que Basílio não a estimava, apenas a desejava!

Ao princípio chorou. Resolveu explicar-se com ele, romper se fosse necessário. Mas adiou, não se atrevia: a figura de Basílio, a sua voz, o seu olhar dominavam-na; e acendendo-lhe a paixão tiravam-lhe a coragem de a perturbar com queixas. Porque estava convencida então que o adorava; o que lhe dava tanta exaltação no desejo, se não era a grandeza do sentimento?… Gozava tanto, o amava muito!… E a sua honestidade natural, os seus pudores refugiavam-se neste raciocínio sutil.

Ele tinha às vezes uma secura áspera de maneiras, era verdade; certos tons de indiferença, era certo… Mas noutros momentos, quantas denguices, que tremuras na voz, que frenesi nas carícias!… Amava-a também, não havia dúvida. Aquela certeza era a sua justificação. E como era o amor que os produzia, não se envergonhava dos alvoroços voluptuosos com que ia todas as manhãs ao Paraíso!

Duas ou três vezes, ao voltar, tinha encontrado Juliana que subia também apressada o Moinho de Vento.

– De onde vinha você? - perguntara-lhe em casa.

– Do médico, minha senhora, fui ao médico.

Queixava-se de pontadas, palpitações, faltas de ar.

– Flatos! Flatos!

Com efeito, Juliana agora fazia todos os arranjos pela manhã; depois apenas Luísa, por uma hora, dobrava a esquina, ia-se vestir, e muito espartilhada no seu vestido de merino, de chapéu e sombrinha, vinha dizer a Joana:

– Até logo, vou ao médico.

– Até logo, Sra. Juliana – dizia a cozinheira radiante.

E ia logo fazer sinal ao carpinteiro.

Juliana descia por São Pedro de Alcântara, e tomando para o Largo do Carmo ia à ruazita, defronte do quartel. Ali morava num terceiro andar a sua íntima amiga, a tia Vitória.

Era uma velha que fora inculcadeira. Ainda tinha mesmo na cancela, numa placa de metal, com letras negras: “VITÓRIA SOARES, INCULCADEIRA”. Mas nos últimos anos a sua indústria tornou-se mais complicada, muito tortuosa.

Exercia-a numa saleta esteirada, com mosquiteiros de papel pendentes do teto encardido, alumiada por duas tristes janelas de peito. Um vasto sofá ocupava quase a parede do fundo; fora decerto de repes verde, mas o estofo coçado, comido, remendado, tinha agora, sob largas nódoas, uma vaga cor parda; as molas partidas, rangiam com estalidos melancólicos; a um dos cantos, numa cova que o uso cavara, dormia todo o dia um gato; e um dos lados da madeira queimada revelava que fora salvo de um incêndio. Sobre o sofá pendia a litografia do senhor D. Pedro IV. Entre as duas janelas havia uma cômoda alta; e em cima, entre um Santo Antônio e um cofre feito de búzios, um macaquinho empalhado, com olhos de vidro, equilibrava-se sobre um galho de árvore. Ao entrar via-se logo, junto da janela fronteira à porta, a uma mesa coberta de oleado, um dorso magro e curvado, e um barretinho de seda com uma borla arrebitada. Era do Sr. Gouveia, o escriturário!

O ar abafado tinha um cheiro complexo, indefinido – em que se sentia a cavalariça, a graxa e o refogado. Havia sempre gente: grossas matronas de capote e lenço, face gordalhufa e buço; cocheiros com o cabelo acamado, muito lustroso de óleo, e blusa de riscadinho; pesados galegos cor de greda, de passadas retumbantes e formas lorpas; criadinhas de dentro, amareladas, de olheiras, sombrinha de cabo de osso, e as luvas de pelica com passagens nas pontas dos dedos.

Defronte da sala abria-se um quarto que deitava para o saguão, por cuja portinha verde se viam às vezes desaparecer dorsos respeitáveis de proprietários, ou caudas espalhafatosas de vestidos suspeitos.

Em certas ocasiões, aos sábados, juntavam-se cinco, seis pessoas; velhas falavam baixo, com gestos misteriosos; uma altercação mal abafada roncava no patamar, de repente desatavam a chorar; e, impassível, o Sr. Gouveia escrevinhava os seus registos, arremessando para o lado jatos melancólicos de saliva.

A tia Vitória, no entanto, com a sua touca de renda negra, um vestido roxo – ia, vinha, cochichava, gesticulava, fazia tilintar dinheiro, tirando a cada momento da algibeira rebuçados de avenca para o catarro.

A tia Vitória era uma grande utilidade; tornara-se um centro! A criadagem reles, mesmo a criadagem fina, tinha ali para tudo o seu despacho. Emprestava dinheiro aos desempregados; guardava as economias dos poupados; fazia escrever pelo Sr Gouveia as correspondências amorosas ou domésticas dos que não tinham ido a escola; vendia vestidos em segunda mão; alugava casaca; aconselhava colocações, recebia confidências, dirigia intrigas, entendia de partos. Nenhum criado era inculcado por ela; mas, arranjados ou despedidos, nunca deixavam de subir, descer as escadas da tia Vitória. Tinha além disso muitas relações, infinitas condescendências; celibatários maduros iam entender-se com ela, para o confortozinho de uma sopeira gordita e nova; era ela quem inculcava as serventes às mulheres policiadas; sabia de certos agiotas discretos. E dizia-se: “a tia Vitória tem mais manhas que cabelos!”

Mas, ultimamente, apesar dos seus afazeres, apenas Juliana entrava, levava – a para o quarto nas traseiras, fechava a porta, e havia para meia hora!

E Juliana saia sempre vermelha, os olhos acesos, feliz! Voltava depressa para casa e mal entrava:

– A senhora ainda não voltou, Sra. Joana?

– Ainda não.

– Está na Encarnação. Coitada! Não tem má cruz, ir aturar a velha! E depois naturalmente vai dar o seu passeio! Faz ela muito bem! Espairecer!

Joana era decerto espessa e obtusa; além disso a paixão animal pelo rapazola emparvecia-a. Todavia, percebera que a Sra. Juliana andava muito derretida pela senhora; disse lho mesmo um dia:

– Vossemecê agora, Sra Juliana, parece mais na bola da senhora!

– Na bola?

– Sim, quero dizer, mais aquela, mais…

– Mais apegada à senhora?

– Mais apegada.

– Sempre o estive. Mas então! Às vezes a gente tem os seus repentes… Que olhe, Sra Joana, não se acha melhor que aqui. Senhora de muito bom gênio, nada se esquisitices, nenhumas prisões… Ai, é dar louvores ao céu de estarmos neste descanso.

– E é!

A casa com efeito tinha um aspecto jovial de felicidade tranquila: Luísa saía todos os dias e achava tudo bom; nunca se impacientava; a sua antipatia por Juliana parecia dissipada; considerava-a uma pobre de Cristo! Juliana tomava os seus caldinhos, dava os seus passeios, ruminava. Joana, muito livre, muito só em casa, regalava-se com o carpinteiro. Não vinham visitas. D. Felicidade, na Encarnação, inundava-se de arnica. Sebastião fora para a Almada vigiar as obras. O Conselheiro partira para Sintra, “dar umas férias ao espírito”, tinha ele dito a Luísa, e deliciar-se nas maravilhas daquele Éden. O Sr. Julião, “o doutor”, como dizia a Joana, trabalhava a sua tese. As horas eram muito regulares; havia sempre um silêncio pacato. Juliana, um dia, na cozinha, impressionada por aquele recolhimento satisfeito de toda a casa, exclamou para Joana:

– Não se pode estar melhor! A barca vai num mar de rosas!

E acrescentou, com uma risadinha:

– E eu ao leme!

CAPÍTULO VII

Por esse tempo, uma manhã que Luísa ia para o Paraíso viu de repente sair de um portal, um pouco adiante do Largo de Santa Bárbara, a figura azafamada de Ernestinho.

– Por aqui, prima Luísa! - exclamou ele logo muito surpreendido. - Por estes bairros! Que faz por aqui? Grande milagre!

Vinha vermelho; trazia as bandas do casaco de alpaca todas deitadas para trás, e agitava com excitação um rolo grosso de papéis.

Luísa ficou um pouco embaraçada; disse que viera fazer uma visita a uma amiga. - Oh! Ele não conhecia; tinha chegado do Porto…

– Ah, bem! Bem! E que é feito, como tem passado? Quando vem o Jorge? - Desculpou-se logo de a não ter ido ver; mas é que não tinha uma migalha livre! De manhã a alfândega; à noite os ensaios…

– Então sempre vai? - perguntou Luísa.

– Vai.

E entusiasmado:

– E como vai! Um primor! Mas que trabalhão, que trabalhão! - Agora vinha ele de casa do ator Pinto, que fazia o papel de amante, de Conde de Monte Redondo; tinha-o ouvido dizer as palavras finais do terceiro ato: “Maldição, a sorte funesta esmaga-me! Pois bem arcarei braço a braço com a sorte! À luta!” Era uma maravilha! Vinha também de lhe dar parte que alterara o monólogo do segundo ato. O empresário achava-o longo…

– Então continua a implicar, o empresário?

Ernestinho fez uma visagem de hesitação.

– Implica um bocado… - E com um rosto radioso: - Mas está delirante! Estão todos delirantes! Ontem me dizia ele: “Lesminha”… E o nome que me dão por pândega. Tem graça, não é verdade? Dizia-me ele “Lesminha, na primeira representação cai aí Lisboa em peso! Você enterra-os a todos!” É bom homem! E agora vou-me a casa do Bastos, o folhetinista da Verdade. Não conhece?

Luísa não se lembrava bem.

– O Bastos, o da Verdade! - insistia ele.

E vendo que Luísa parecia alheia ao nome, ao indivíduo:

– Ora não conhece outra coisa! - Ia descrever-lhe as feições, citar-lhe as obras...

Mas Luísa, impaciente, para findar:

– Ah, sim! Lembro-me agora. Perfeitamente… Bem sei!

– Pois é verdade, vou à casa dele. - Tomou um tom compenetrado: - Somos muito amigos, é muito bom rapaz; e tem um pequerrucho lindo!… - E apertando-lhe muito a mão: - Adeusinho, prima Luísa, que não posso perder um momento. Quer que a vá acompanhar?

– Não, é aqui perto.

– Adeus, recados ao Jorge!

– Ia a afastar-se, atarefado, mas voltando-se rapidamente, correu atrás dela.

– Ah! Esquecia-me dizer-lhe, sabe que lhe perdoei?

Luísa abriu muito os olhos.

– À condessa, à heroína! - exclamou Ernestinho.

– Ah!

– Sim, o marido perdoa-lhe, obtém uma embaixada, e vão viver no estrangeiro. É mais natural…

– Decerto! - disse vagamente Luísa.

– E a peça acaba, dizendo o amante, o Conde de Monte Redondo: “E eu irei para a solidão morrer desta paixão funesta!” É de muito efeito! - Esteve um momento a olhá-la, e bruscamente: - Adeus, prima Luísa, recadinhos ao Jorge!

E abalou.

Luísa entrou no Paraíso muito contrariada. Contou o encontro a Basílio. Ernestinho era tão tolo! Podia mais tarde falar naquilo, citar a hora, perguntarem-lhe quem era a amiga do Porto…

E tirando o véu, o chapéu:

– Não; realmente é imprudente vir assim tantas vezes. Era melhor não vir tanto. Pode-se saber…

Basílio encolheu os ombros, contrariado:

– Se queres não venhas.

Luísa olhou-o um momento, e curvando-se profundamente:

– Obrigada!

Ia a pôr o chapéu, mas ele veio prender-lhe as mãos; abraçou-a, murmurando:

– Pois tu falas em não vir! E eu, então? Eu que estou em Lisboa por tua causa…

– Não, realmente dizes às vezes coisas… tens certos modos…

Basílio abafou-lhe as palavras com beijos.

– Ta, ta, ta! Nada de questões! Perdoa. Estás tão linda…

Luísa, ao voltar para casa, veio a refletir naquela cena. Não – pensava –, já não era a primeira vez que ele mostrava um desprendimento muito seco por ela, pela sua reputação, pela sua saúde! Queria-a ali todos os dias, egoistamente. Que as más-línguas falassem; que as soalheiras a matassem, que lhe importava? E para quê?… Porque enfim, saltava aos olhos, ele amava-a menos… As suas palavras, os seus beijos arrefeciam cada dia, mais e mais!… Já não tinha aqueles arrebatamentos do desejo em que a envolvia toda numa carícia palpitante, nem aquela abundância de sensação que o fazia cair de joelhos com as mãos trêmulas como as de um velho!… Já se não arremessava para ela, mal ela aparecia à porta, como sobre uma presa estremecida!… Já não havia aquelas conversas pueris, cheias de risos, divagadas e tontas, em que se abandonavam, se esqueciam, depois da hora ardente e física, quando ela ficava numa lassitude doce, com o sangue fresco, a cabeça deitada sobre os braços nus! - Agora! Trocado o último beijo, acendia o charuto, como num restaurante ao fim do jantar! E ia logo a um espelho pequeno que havia sobre o lavatório dar uma penteadela no cabelo com um pentezinho de algibeira. (O que ela odiava o pentezinho!) As vezes até olhava o relógio!… E enquanto ela se arranjava não vinha, como nos primeiros tempos, ajudá-la, pôr-lhe o colarinho, picar-se nos seus alfinetes, rir em volta dela, despedir-se com beijos apressados da nudez dos seus ombros antes que o vestido se apertasse. Ia rufar nos vidros – ou sentado, com um ar macambúzio, bamboleava a perna!

E depois positivamente não a respeitava, não a considerava… Tratava-a por cima do ombro, como uma burguesinha, pouco educada e estreita, que apenas conhece o seu bairro. E um modo de passear, fumando, com a cabeça alta, falando no “espírito de madame de tal”, nas “toaletes da condessa de tal”! Como se ela fosse estúpida, e os seus vestidos fossem trapos! Ah, era secante! E parecia, Deus me perdoe, parecia que lhe fazia uma honra, uma grande honra em a possuir… Imediatamente lembrava-lhe Jorge, Jorge que a amava com tanto respeito! Jorge, para quem ela era decerto a mais linda, a mais elegante, a mais inteligente, a mais cativante!… E já pensava um pouco que sacrificara a sua tranquilidade tão feliz a um amor bem incerto!

Enfim, um dia que o viu mais distraído, mais frio, explicou-se abertamente com ele. Direita, sentada no canapé de palhinha, falou com bom senso, devagar, com um ar digno e preparado: Que percebia bem que ele se aborrecia; que o seu grande amor tinha passado; que era portanto humilhante para ela verem-se nessas condições, e que julgava mais digno acabarem…

Basílio olhava-a, surpreendido da sua solenidade; sentia um estudo, uma afetação naquelas frases; disse muito tranquilamente, sorrindo:

– Trazias isso decorado!

Luísa ergueu-se bruscamente; encarou-o, teve um movimento desdenhoso dos lábios.

– Tu estás doida, Luísa?

– Estou farta. Faço todos os sacrifícios por ti; venho aqui todos os dias; comprometo-me, e para quê? Para te ver muito indiferente, muito secado…

– Mas meu amor…

Ela teve um sorriso de escárnio.

– Meu amor! Oh! São ridículos esses fingimentos!

Basílio impacientou-se.

– Já isso cá me faltava, essa cena! - exclamou impetuosamente. E cruzando os braços diante dela: - Mas que queres tu? Queres que te ame como no teatro, em São Carlos? Todas sois assim! Quando um pobre-diabo ama naturalmente, como todo o mundo, com o seu coração, mas não tem gestos de tenor, aqui del-rei que é frio, que se aborrece, é ingrato… Mas que queres tu? Queres que me atire de joelhos, que declame, que revire os olhos, que faça juras, outras tolices?

– São tolices que tu fazias…

– Ao princípio! - respondeu ele brutalmente. - Já nos conhecemos muito para isso, minha rica.

E havia apenas cinco semanas!

– Adeus! - disse Luísa.

– Bem. Vais zangada?

Ela respondeu, com os olhos baixos, calçando nervosamente as luvas:

– Não.

Basílio pôs-se diante da porta, e estendendo os braços:

– Mas sê razoável, minha querida. Uma ligação como a nossa não é o dueto do Fausto. Eu amo-te; tu, creio, gostas de mim; fazemos os sacrifícios necessários; encontramo-nos, somos felizes… Que diabo queres tu mais? Por que te queixas?

Ela respondeu com um sorriso irônico e triste:

– Não me queixo. Tens razão.

– Mas não vás zangada, então.

– Não…

– Palavrinha?

– Sim…

Basílio tomou-lhe as mãos.

– Dê então um beijinho em Bibi…

Luísa beijou-o de leve na face.

– Na boquinha, na boquinha! - E ameaçando-a com o dedo, fitando-a muito: - Ah, geniozinho! Tens bem o sangue do Sr. Antônio de Brito, nosso extremoso tio, que arrepelava as criadas pelos cabelos! - E sacudindo-lhe o queixo: - E vens amanhã?

Luísa hesitou um momento:

– Venho.

Entrou em casa exasperada, humilhada. Eram seis horas. Juliana veio dizer-lhe logo muito quizilada: que a Joana tinha saído às quatro horas; não tinha voltado; o jantar estava por acabar…

– Onde foi?

Juliana encolheu os ombros com um sorrisinho.

Luísa percebeu. Tinha ido a algum amante, a algum amor… Teve um gesto de piedade desdenhosa.

– Há de lucrar muito com isso. Boa tola! - disse.

Juliana olhou-a espantada.

- "Está bêbeda! - pensou.

– Bem, que se lhe há de fazer? - exclamou Luísa. - Esperarei…

E passeando pelo quarto, excitada, revolvendo o seu despeito:

– Que egoísta, que grosseiro, que infame! E é por um homem assim que uma mulher se perde! É estúpido!

Como ele suplicava, se fazia pequenino, humilde ao princípio! O que são os amores dos homens! Como têm a fadiga fácil!

E imediatamente lhe veio a ideia de Jorge! Esse não! Vivia com ela havia três anos – e o seu amor era sempre o mesmo, vivo, meigo, dedicado. Mas o outro! Que indigno! Já a conhecia há muito! Ah! Estava bem certa agora, nunca a amara, ele! Quisera-a por vaidade, por capricho, por distração, para ter uma mulher em Lisboa! É o que era! Mas amor? Qual!

E ela mesma, por fim! Amava-o, ela? Concentrou-se, interrogou-se… Imaginou casos, circunstâncias; se ele a quisesse levar para longe, para França, iria? Não! Se por um acaso, por uma desgraça enviuvasse, antevia alguma felicidade casando com ele? Não!

Mas então!… E como uma pessoa que destapa um frasco muito guardado, e se admira vendo o perfume evaporado, ficou toda pasmada de encontrar o seu coração vazio. O que a levara então para ele?… Nem ela sabia; não ter nada que fazer, a curiosidade romanesca e mórbida de ter um amante, mil vaidadezinhas inflamadas, um certo desejo físico… E sentira-a, porventura, essa felicidade, que dão os amores ilegítimos, de que tanto se fala nos romances e nas óperas, que faz esquecer tudo na vida, afrontar a morte, quase fazê-la amar? Nunca! Todo o prazer que sentira ao princípio, que lhe parecera ser o amor – vinha da novidade, do saborzinho delicioso de comer a maçã proibida, das condições do mistério do Paraíso, de outras circunstâncias talvez, que nem queria confessar a si mesma, que a faziam corar por dentro!

Mas que sentia de extraordinário agora? Bom Deus, começava a estar menos comovida ao pé do seu amante, do que ao pé do seu marido! Um beijo de Jorge perturbava-a mais, e viviam juntos havia três anos! Nunca se secara ao pé de Jorge, nunca! E secava-se positivamente ao pé de Basílio! Basílio, no fim, o que se tornara para ela? Era como um marido pouco amado, que ia amar fora de casa! Mas então, valia a pena?…

Onde estava o defeito? No amor mesmo talvez! Porque enfim, ela e Basílio estavam nas condições melhores para obterem uma felicidade excepcional: eram novos, cercava-os o mistério, excitava-os a dificuldade… Por que era então que quase bocejavam? E que o amor é essencialmente perecível, e na hora em que nasce começa a morrer. Só os começos são bons. Há então um delírio, um entusiasmo, um bocadinho do céu. Mas depois!… Seria pois necessário estar sempre a começar, para poder sempre sentir?… Era o que fazia Leopoldina. E aparecia-lhe então nitidamente a explicação daquela existência de Leopoldina, inconstante, tomando um amante, conservando-o uma semana, abandonando-o como um limão espremido, e renovando assim constantemente a flor da sensação! - E, pela lógica tortuosa dos amores ilegítimos, o seu primeiro amante fazia-a vagamente pensar no segundo!

Logo no dia seguinte pôs-se a dizer consigo que era bem longe o Paraíso! Que maçada, por aquele calor, vestir-se, sair! Mandou saber de D. Felicidade por Juliana e ficou em casa, de roupão branco, preguiçosa, saboreando a sua preguiça.

Nessa tarde recebeu uma carta de Jorge: que ainda se demorava, mas que a sua viuvez começava a pesar-lhe. Quando se veria enfim na sua casinha, na sua alcovinha?…

Ficou muito comovida. Um sentimento de vergonha, de remorso, uma compaixão terna por Jorge, tão bom, coitado! Um indefinido desejo de o ver e de o beijar, a recordação de felicidades passadas perturbaram-na até as profundidades do seu ser. Foi logo responder-lhe, jurando-lhe que também já estava farta de estar só, que viesse, que era estúpida semelhante separação… E era sincera naquele momento.

Tinha fechado o envelope, quando Juliana lhe veio trazer “uma carta do hotel”. Basílio mostrava-se desesperado: … Como não vieste, vejo que estás zangada; mas é decerto o teu orgulho, não o teu amor que te domina; não imaginas o que senti quando vi que não vinhas hoje. Esperei até as cinco horas; que suplício! Fui talvez seco, mas tu também estavas implicativa. Devemos perdoar-nos ambos, ajoelharmos um diante do outro, e esquecer todo o despeito no mesmo amor… Vem amanhã. Adoro-te tanto! Que outra prova queres, que esta que te dou de abandonar os meus interesses, as minhas relações, os meus gostos, e enterrar-me aqui em Lisboa, etc.

Ficou muito nervosa, sem saber o que havia de fazer, o que havia de querer. Aquilo era verdade. Por que estava ele em Lisboa? Por ela. Mas se reconhecia agora – que o não amava, ou tão pouco! E depois era vil trair assim Jorge, tão bom, tão amoroso, vivendo todo para ela. Mas se Basílio realmente estivesse tão apaixonado!… As suas ideias redemoinhavam, como folhas de outono, violentadas por ventos contraditórios. Desejava estar tranquila, que a não perseguissem. Para que voltara aquele homem? Jesus! Que havia de fazer? Tinha os seus pensamentos, os seus sentimentos numa dolorosa trapalhada.

E na manhã seguinte estava na mesma hesitação. Iria, não iria? O calor fora, a poeirada da rua faziam-lhe apetecer mais a casa! Mas que desapontamento, o do pobre rapaz também! Atirou ao ar uma moeda de cinco tostões. Era cunho, devia ir. Vestiu-se sem vontade, secada – tendo todavia um certo desejo dos refinamentos de prazer que dão as expansões da reconciliação…

Mas que surpresa! Esperava encontrá-lo humilde e de joelhos; achou-o com a testa franzida e muito áspero.

– Luísa, parece incrível; por que não vieste ontem?

Na véspera, Basílio, quando viu que ela faltava, teve um grande despeito e medo maior; a sua concupiscência receou perder aquele lindo corpo de rapariga, e o seu orgulho escandalizou-se de ver libertar-se aquela escravazinha dócil. Resolveu portanto, a todo o custo, chamá-la ao rego. Escreveu-lhe; e mostrando-se submisso para a atrair, decidiu ser severo para a castigar. - E acrescentou:

– É uma criancice ridícula. Por que não vieste?

Aquele modo enraiveceu-a:

– Porque não quis.

Mas emendou logo:

– Não pude.

– Ah! É essa a maneira por que respondes à minha carta, Luísa?

– E tu, é esse o modo com que me recebes?

Olharam-se um momento, detestando-se.

– Bem; queres uma questão? És como as outras.

– Que outras?

E toda escandalizada:

– Ah! É demais! Adeus!

Ia sair.

– Vais-te, Luísa?

– Vou. É melhor acabarmos por uma vez…

Ele segurou o fecho da porta rapidamente.

– Falas sério, Luísa?

– Decerto. Estou farta!

– Bem. Adeus.

Abriu a porta para a deixar passar, curvou-se silenciosamente. Ela deu um passo, e Basílio com a voz um pouco trêmula:

– Então, é para sempre? Nunca mais?

Luísa parou, branca. Aquela triste palavra nunca mais deu-lhe uma saudade, uma comoção. Rompeu a chorar.

As lágrimas tornavam-na sempre mais linda. Parecia tão dolorida, tão frágil, tão desamparada!…

Basílio caiu-lhe aos pés; tinha também os olhos úmidos.

– Se tu me deixares, morro!

Os seus lábios uniram-se num beijo profundo, longo, penetrante. A excitação dos nervos deu-lhes momentaneamente a sinceridade da paixão; e foi uma manhã deliciosa.

Ela prendia-o nos braços nus, pálida como cera, balbuciava:

– Não me deixes nunca, não?

– Juro-to! Nunca, meu amor!

Mas fazia-se tarde; era necessário ir-se! E a mesma ideia decerto acudiu-lhes – porque se olharam avidamente, e Basílio murmurou:

– Se pudesses aqui passar a noite!

Ela disse aterrada, quase suplicante:

– Oh! Não me tentes, não me tentes…

Basílio suspirou, disse:

– Não, é uma tolice. Vai.

Luísa começou a arranjar-se, à pressa. E de repente, parando, com um sorriso:

– Sabes tu uma coisa?

– O quê, meu amor?

– Estou a cair com fome! Não almocei nada, estou a cair!

Ele ficou desolado:

– Coitadinha, minha pobre filha! Se eu soubesse…

– Que horas são, filho?

Basílio viu o relógio; disse quase envergonhado:

– Sete!

– Ai, Santo Deus!

Punha o chapéu, o véu, atrapalhadamente:

– Que tarde! Jesus! Que tarde!

– E amanhã, quando?

– A uma.

– Com certeza?

– Com certeza.

– Ao outro dia foi muito pontual. Basílio veio esperá-la ao fundo da escada; e apenas entraram no quarto, devorando-a de beijos:

– Que me fizeste tu? Desde ontem que estou doido!

Mas Luísa estava muito intrigada com um cesto que via em cima da cama.

– Que é aquilo?

Ele sorriu, levou-a pela mão junto da barra de ferro, e destapando o cesto, com uma cortesia grave:

– Provisões, festins, bacanais! Não dirás depois que tens fome!

Era um lanche. Havia sanduíches, um patê de foie gras, fruta, uma garrafa de champanhe, e, envolto em flanela, gelo.

– É brilhante! - disse ela, com um sorriso quente, rubra de prazer.

– Foi o que se pode arranjar, minha querida prima! Já vê que pensei em si!

Pôs o cesto no chão, e vindo para ela com os braços abertos:

– E tu pensaste em mim, meu amor? Os olhos dela responderam – e a pressão apaixonada dos seus braços. As três horas lancharam. Foi delicioso; tinham estendido um guardanapo sobre a cama; a louça tinha a marca do Hotel Central; aquilo parecia a Luísa muito estroina, adorável – e ria de sensualidade, fazendo tilintar os pedacinhos de gelo contra o vidro do copo, cheio de champanhe. Sentia uma felicidade que transbordava em gritinhos, em beijos, em toda a sorte de gestos buliçosos. Comia com gula; e eram adoráveis os seus braços nus movendo-se por cima dos pratos.

Nunca achara Basílio tão bonito; o quarto mesmo parecia-lhe muito conchegado para aquelas intimidades da paixão; quase julgava possível viver ali, naquele cacifo, anos, feliz com ele, num amor permanente, e lanches às três horas… Tinham as pieguices clássicas; metiam-se bocadinhos na boca; ela ria com os seus dentinhos brancos; bebiam pelo mesmo copo, devoravam-se de beijos – e ele quis lhe ensinar então a verdadeira maneira de beber champanhe. Talvez ela não soubesse!

– Como é? - perguntou Luísa erguendo o copo.

– Não é com o copo! Horror! Ninguém que se preza bebe champanhe por um copo. O copo é bom para o Colares…

Tomou um gole de champanhe e num beijo passou-o para a boca dela. Luísa riu muito, achou “divino”; quis beber mais assim. Ia-se fazendo vermelha, o olhar luzia-lhe.

Tinham tirado os pratos da cama; e sentada à beira do leito, os seus pezinhos calçados numa meia cor-de-rosa pendiam, agitavam-se, enquanto um pouco dobrada sobre si, os cotovelos sobre o regaço, a cabecinha de lado, tinha em toda a sua pessoa a graça lânguida de uma pomba fatigada.

Basílio achava-a irresistível; quem diria que uma burguesinha podia ter tanto chique, tanta queda? Ajoelhou-se, tomou-lhe os pezinhos entre as mãos, beijou-lhos; depois, dizendo muito mal das ligas “tão feias, com fechos de metal”, beijou-lhe respeitosamente os joelhos; e então fez-lhe baixinho um pedido. Ela corou, sorriu, dizia: “não! não!” E quando saiu do seu delírio tapou o rosto com as mãos, toda escarlate; murmurou repreensivamente:

– Oh, Basílio!

Ele torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinara-lhe uma sensação nova; tinha-a na mão!

Só às seis horas se desprendeu dos seus braços. Luísa fez-lhe jurar que havia de pensar nela toda a noite: - Não queria que ele saísse; tinha ciúme do Grêmio, do ar, de tudo! E já no patamar voltava, beijava-o, louca, repetia:

– E amanhã mais cedo, sim? Para estarmos todo o dia.

– Não vais ver a D. Felicidade?

– Que me importa a D. Felicidade! Não me importa ninguém! Quero-te a ti! Só a ti!

– Ao meio-dia?

– Ao meio-dia!

Quanto lhe pesou à noite a solidão do seu quarto! Tinha uma impaciência que a impelia a prolongar a excitação da tarde, agitar-se. Ainda quis ler, mas bem depressa arremessou o livro; as duas velas acesas sobre o toucador pareciam-lhe lúgubres; foi ver a noite; estava tépida e serena. Chamou Juliana:

– Vá pôr um xale, vamos à casa da senhora D. Leopoldina.

Quando chegaram foi a Justina que veio abrir, depois de uma grande demora, esguedelhada, em chambre branco. Pareceu muito espantada:

– A senhora foi pra o Porto!

– Para o Porto!

– Sim. Demorava-se quinze dias.

Luísa ficou muito desconsolada. Mas não queria voltar; o seu quarto solitário aterrava-a.

– Vamos um bocado até ali abaixo, Juliana. A noite está tão bonita!

– Rica, minha senhora!

Foram pela Rua de São Roque. E como guiadas pelas duas linhas de pontos de gás que desciam a Rua do Alecrim, o seu pensamento, o seu desejo foram logo para o Hotel Central.

Estaria em casa? Pensaria nela? Se pudesse ir surpreendê-lo de repente, atirar-lhe aos braços, ver as suas malas… Aquela ideia fazia-a arfar. Entraram na Praça de Camões. Gente passeava devagar; sobre a sombra mais escura que faziam as árvores cochichava-se pelos bancos; bebia-se água fresca; claridades cruas de vidraças, de portas de lojas destacavam em redor no tom escuro da noite; e no rumor lento das ruas em redor, sobressaíam as vozes agudas dos vendedores de jornais.

Então um sujeito com um chapéu de palha passou tão rente dela, tão intencionalmente que Luísa teve medo. - Era melhor voltarem – disse.

Mas ao meio da Rua de São Roque o chapéu de palha reapareceu, roçou quase o ombro de Luísa; dois olhos repolhudos dardejaram sobre ela.

Luísa ia desesperada; o tique-taque das suas botinas batia vivamente a laje do passeio; de repente, ao pé de São Pedro de Alcântara, de sob o chapéu de palha saiu uma voz adocicada e brasileira, dizendo-lhe junto ao pescoço:

– Aonde mora, ó menina?

Agarrou aterrada o braço de Juliana.

A voz repetiu:

– Não se agaste, menina, onde mora?

– Seu malcriado! - rugiu Juliana.

O chapéu de palha imediatamente desapareceu entre as árvores.

Chegaram a casa a arquejar. Luísa tinha vontade de chorar; deixou-se cair na causeuse, esfalfada, infeliz. Que imprudência, pôr-se a passear pelas ruas de noite, com uma criada! Estava doida, desconhecia-se. Que dia aquele! E recordava-o desde pela manhã: o lanche, o champanhe bebido pelos beijos de Basílio, os seus delírios libertinos; que vergonha! E ir a casa de Leopoldina, de noite, e ser tomada na rua por uma mulher do Bairro Alto!… De repente lembrou-lhe Jorge no Alentejo trabalhando por ela, pensando nela… Escondeu o rosto entre as mãos, detestou-se; os seus olhos umedeceram-se.

Mas na manhã seguinte acordou muito alegre. Sentia, sim, uma vaga vergonha de todas as suas tolices da véspera, e com a sensação indefinida, palpite ou pressentimento, de que não devia ir ao Paraíso. O seu desejo, porém, que a impelia para lá vivamente, forneceu-lhe logo razões; era desapontar Basílio; a não ir hoje não devia voltar, e então romper… Além disso a manhã muito linda atraía a rua; chovera de noite, o calor cedera; havia nos tons da luz e do azul uma frescura lavada e doce.

E às onze e meia descia o Moinho de Vento, quando viu a figura digna do Conselheiro Acácio que subia da Rua da Rosa, devagar, com o guarda-sol fechado, a cabeça alta.

Apenas a avistou apressou-se, curvou-se profundamente:

– Que encontro verdadeiramente feliz!…

– Como está, Conselheiro? Ditosos olhos que o veem!

– E Vossa Excelência, minha senhora? Vejo-a com excelente aspecto!

Passou-lhe à esquerda com um movimento solene; pôs-se a caminhar ao lado dela.

– Permite-me decerto que a acompanhe na sua excursão?

– Decerto, com o maior prazer. Mas que tem feito? Tenho muito que lhe ralhar…

– Estive em Sintra, minha querida senhora. - E parando: - Não sabia? O Diário de Notícias especificou-o!

– Mas depois de vir de Sintra?

Ele acudiu:

– Ah! Tenho estado ocupadíssimo! Ocupadíssimo! Inteiramente absorvido na compilação de certos documentos que me eram indispensáveis para o meu livro… - E depois de uma pausa: - Cujo nome não ignora, creio.

Luísa não se recordava inteiramente. O Conselheiro então expôs o título, os fins, alguns nomes de capítulos, a utilidade da obra: era a descrição pitoresca dos principais cidades de Portugal e seus mais famosos estabelecimentos.

– É um guia, mas um guia científico. Ilustrarei com um exemplo: Vossa Excelência quer ir a Bragança: sem o meu livro é muito natural (direi, é certo) que volta sem ter gozado das curiosidades locais; com o meu livro percorre os edifícios mais notáveis, recolhe um fundo muito sólido de instrução, e tem ao mesmo tempo o prazer.

Luísa mal o escutava, sorrindo vagamente sob o seu véu branco.

– Está hoje muito agradável! - disse ela.

– Agradabilíssimo! Um dia criador!

– Que bom fresco aqui!

Tinham entrado em São Pedro de Alcântara; um ar doce circulava entre as árvores mais verdes; o chão compacto, sem pó, tinha ainda uma ligeira umidade; e, apesar do sol vivo, o céu azul parecia leve e muito remoto.

O Conselheiro então falou do estio; tinha sido tórrido! Na sua sala de jantar tinha havido quarenta e oito graus à sombra! Quarenta e oito graus! - E com bonomia, querendo logo desculpar a sala daquela exageração canicular: - Mas é que está exposta ao sul! Façamos essa justiça! Está muito exposta ao sul! Hoje, porém, está verdadeiramente restaurador.

Convidou-a mesmo a dar uma volta embaixo no jardim. Luísa hesitava. E o Conselheiro puxando o relógio, fitando-o de longe, declarou logo que ainda não era meio-dia. Estava certo pelo Arsenal; era um relógio inglês. - Muito preferíveis aos suíços! - acrescentou com ar profundo.

Cobardemente, por inércia, enervada pela voz pomposa do Conselheiro, Luísa foi descendo, contrariada, as escadinhas para o jardim. De resto – pensava – tinha tempo, tomaria um trem…

Foram encostar-se às grades. Através dos varões viam, descendo num declive, telhados escuros, intervalos de pátios, cantos de muro com uma ou outra magra verdura de quintal ressequido; depois, no fundo do vale, o Passeio estendia a sua massa de folhagem prolongada e oblonga, onde a espaços branquejavam pedaços da rua areada. Do lado de lá erguiam-se logo as fachadas inexpressivas da Rua Oriental, recebendo uma luz forte que fazia faiscar as vidraças; por trás iam-se elevando no mesmo plano terrenos de um verde crestado fechados por fortes muros sombrios; a cantaria da Encarnação de um amarelo triste; outras construções separadas, até ao alto da Graça coberta de edifícios eclesiásticos, com renques de janelinhas conventuais e torres de igrejas, muito brancas sobre o azul; e a Penha de França, mais para além, punha em relevo o vivo do muro caiado, de onde sobressaia uma tira verde negra de arvoredo. À direita, sobre o monte pelado, o castelo assentava, atarracado, ignobilmente sujo; e a linha muito quebrada de telhados, de esquinas de casas da Mouraria e da Alfama descia com ângulos bruscos até as duas pesadas torres da Sé, de um aspecto abacial e secular. Depois viam um pedaço do rio, batido da luz; duas velas brancas passavam devagar; e na outra banda, à base de uma colina baixa que o ar distante azulava, estendia-se a correnteza de casarias de uma povoaçãozinha de um branco de crê luzidio. Da cidade um rumor grosso e lento subia, onde se misturavam o rolar dos trens, o pesado rodar dos carros de bois, a vibração metálica das carretas que levam ferraria, e algum grito agudo de pregão.

– Grande panorama! - disse o Conselheiro com ênfase. - E encetou logo o elogio da cidade. Era uma das mais belas da Europa, decerto, e como entrada, só Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na imenso. Fora outrora um grande empório, e era uma pena que a canalização fosse tão má, e a edilidade tão negligente!

– Isto devia estar na mão dos ingleses, minha rica senhora! - exclamou.

Mas arrependeu-se logo daquela frase impatriótica. Jurou que era uma maneira de dizer. Queria a independência do seu país; morreria por ela, se fosse necessário; nem ingleses nem castelhanos!… Só nós, minha senhora! - E acrescentou com uma voz respeitosa: - E Deus!

– Que bonito está o rio! - disse Luísa.

Acácio afirmou-se, e murmurou em tom cavo:

– O Tejo!

Quis então dar uma volta pelo jardim. Sobre os canteiros borboletas brancas, amarelas, esvoaçavam; um gotejar de água fazia no tanque um ritmozinho de jardim burguês; um aroma de baunilha predominava; sobre a cabeça dos bustos de mármore, que se elevam dentre os maciços e as moitas de dálias, pássaros pousavam.

Luísa gostava daquele jardinzinho, mas embirrava com as grades tão altas…

– Por causa dos suicídios! - acudiu logo o Conselheiro. - E todavia, segundo a sua opinião, os suicídios em Lisboa diminuíam consideravelmente; atribuía isso à maneira severa e muito louvável como a imprensa os condenava…

– Porque em Portugal, creia isto, minha senhora, a imprensa é uma força!

– Se fôssemos andando?… - lembrou Luísa.

O Conselheiro curvou-se, mas vendo-a, a ir colher uma flor, reteve-lhe vivamente o braço:

– Ah, minha rica senhora, por quem é! Os regulamentos são muito explícitos! Não os infrinjamos, não os infrinjamos! - E acrescentou: - O exemplo deve vir de cima.

Foram subindo, e Luísa pensava: - “Vai para casa; larga-me ao Loreto.”

Na Rua de São Roque espreitou o relógio de uma confeitaria: era meia hora depois do meio-dia! Já Basílio esperava!

Apressou o passo, ao Loreto parou. O Conselheiro olhou-a, sorrindo, esperando.

– Ah! Pensei que ia para casa, Conselheiro!

– Já agora quero acompanhá-la, se Vossa Excelência mo permite. Decerto não sou indiscreto?

– Ora essa! De modo nenhum.

Uma carruagem da Companhia passava, seguida de um correio a trote.

O Conselheiro, com um movimento ansioso, tirou profundamente o chapéu.

– É o presidente do conselho. Não viu? Fez-me um sinal de dentro. - Começou logo o seu elogio: era o nosso primeiro parlamentar; vastíssimo talento, uma linguagem muito castigada! - E ia decerto falar das coisas públicas, mas Luísa atravessou para os Mártires, erguendo um pouco o vestido por causa de uns restos de lama. Parou à porta da igreja, e sorrindo:

– Vou aqui fazer uma devoçãozinha. Não o quero fazer esperar. Adeus, Conselheiro, apareça. - fechou a sombrinha, estendeu-lhe a mão.

– Ora essa, minha rica senhora! Esperarei, se vir que não se demora muito. Esperarei, não tenho pressa. - E com respeito: - Muito louvável esse zelo!

Luísa entrou na igreja desesperada. Ficou de pé debaixo do coro, calculando: - “Demoro-me aqui, ele cansa-se de esperar e vai-se!” Por cima reluziam vagamente os pingentes de cristal dos lustres. Havia uma luz velada, igual, um pouco fosca. E as arquiteturas caiadas, a madeira muito lavada do soalho, as balaustradas laterais de pedra davam uma tonalidade clara e alvadia, onde destacavam os dourados da capela, os frontais roxos dos púlpitos, ao fundo dois reposteiros de um roxo mais escuro, e sob o dossel cor de violeta os ouros do trono. Um silêncio fresco e alto repousava. Diante do batistério um rapaz de joelhos, com um balde de zinco ao pé, esfregava o chão com uma rodilha, discretamente; dorsos de beatas, encapotados ou cobertos de xales tingidos, curvavam-se, aqui e além, diante de um altar; e um velho, de jaqueta de saragoça, prostrado no meio da igreja, rosnava rezas numa melopeia lúgubre; via-se a sua cabeça calva, as tachas enormes dos sapatos, e a cada momento, dobrando-se, batia no peito com desespero.

Luísa subiu ao altar-mor. Basílio impacientava-se, decerto, pobre rapaz! Perguntou então, timidamente, as horas a um sacristão que passava. O homem ergueu a sua face cor de cidra para uma janela na cúpula, e olhando Luísa de lado:

– Vai indo para as duas.

Para as duas! Era capaz de não esperar, Basílio! Veio-lhe um receio de perder a sua manhã amorosa, um desejo áspero de se achar no Paraíso, nos braços dele! E olhava vagamente os santos, as virgens trespassadas de espadas, os Cristos chagados – cheia de impaciências voluptuosas, revendo o quarto, a caminha de ferro, o pequeno bigode de Basílio!… Mas demorou-se, queria “fatigar o Conselheiro, deixá-lo ir”. Quando pensou que ele teria partido, saiu devagarinho. - Viu-o logo à porta, direito, com as mãos atrás das costas, lendo a pauta dos jurados.

Começou imediatamente a louvar a sua devoção. Não entrara porque não quisera perturbar o seu recolhimento. Mas aprovava-a muito! A falta de religião era a causa de toda a imoralidade que grassava…

– E além disso é de boa educação. Vossa Excelência há de reparar que toda a nobreza cumpre…

Calou-se; aprumava a estatura, todo satisfeito de descer o Chiado com aquela linda senhora, tão olhada. Mesmo, ao passar por um grupo, curvou-se para ela misteriosamente; disse-lhe ao ouvido, sorrindo:

– Está um dia apreciável!

E ofereceu-lhe bolos à porta do Baltresqui. Luísa recusou.

– Sinto. Todavia acho muito sensata a regularidade nas comidas.

A sua voz vinha agora a Luísa com a impertinência de um zumbido; apesar de não fazer calor, abafava, picava-lhe o sangue no corpo; tinha vontade de deitar a correr, de repente; e todavia caminhava devagar, infeliz, como sonâmbula, cheia de necessidade de chorar.

Sem razão, ao acaso, entrou no Valente. Era hora e meia! Depois de hesitar pediu gravatas de fular a um caixeiro louro e jovial.

– Brancas? De cor? De riscas? Com pintinhas?

– Sim, verei, sortidas.

Não lhe agradavam. Desdobrava-as, sacudia-as, punha-as de lado; e olhava em roda vagamente, pálida… O caixeiro perguntou-lhe se estava incomodada: ofereceu-lhe água, qualquer coisa…

Não era nada; o ar é que lhe fazia bem; voltaria. Saiu. O Conselheiro, muito solícito, prontificou-se a acompanhá-la a uma boa farmácia tomar água de flor de laranja… Desciam então a Rua Nova do Carmo, e o Conselheiro ia afirmando que o caixeiro fora muito polido; não se admirava, porque no comércio havia filhos de boas famílias; citou exemplos.

Mas vendo-a calada:

– Ainda sofre?

– Não, estou bem.

– Temos dado um delicioso passeio!

Foram ao comprido do Rossio, até ao fim. Voltaram, atravessaram-no em diagonal. E pelo lado do Arco do Bandeira, aproximaram-se para a Rua do Ouro.

Luísa olhava em redor, aflita; procurava uma ideia, uma ocasião, um acontecimento – e o Conselheiro, grave a seu lado, dissertava. A vista do Teatro de D. Maria levara-o para as questões da arte dramática; tinha achado que a peça do Ernestinho era talvez demasiado forte. De resto só gostava de comédias. Não que se não entusiasmasse com as belezas de um Frei Luís de Sousa!, mas a sua saúde não lhe permitia as agitações fortes. Assim por exemplo…

Mas Luísa tivera uma ideia, e imediatamente:

Ah! Esquecia-me! Tenho de ir ao Vitry. Vou fazer chumbar um dente.

O Conselheiro, interrompido, fitou-a. E Luísa, estendendo-lhe a mão, com a voz rápida:

– Adeus, apareça, hem? - E precipitou-se para o portal do Vitry.

Subiu até ao primeiro andar, correndo, com os vestidos apanhados; parou, arquejando; esperou: desceu devagar, espreitou à porta… A figura do Conselheiro afastava-se direita, digna, para os lados das secretarias.

Chamou um trem.

– A quanto puder! - exclamou.

A carruagem entrou quase a galope na ruazinha do Paraíso. Figuras pasmadas apareceram à janela. Subiu, palpitante. A porta estava fechada – e logo a cancela do lado abriu-se, e a voz doce da patroa segredou:

– Já saiu. Há de haver meia hora.

Desceu. Deu a sua morada ao cocheiro, e atirando-se para o fundo do cupê, rompeu num choro histórico. Correu os estores para se esconder; arrancou o véu, rasgou uma luva, sentindo em si violências inesperadas. Então veio-lhe um desejo frenético de ver Basílio! Bateu nos vidros desesperadamente, gritou:

– Ao Hotel Central!

Porque estava num daqueles momentos em que os temperamentos sensíveis têm impulsos indomáveis; há uma delícia colérica em espedaçar os deveres e as conveniências; e a alma procura sofregamente o mal com estremecimentos de sensualidade!

A parelha estacou, resvalando à porta do hotel. O Sr. Basílio de Brito não estava, o senhor Visconde Reinaldo, sim.

– Bem, para casa, para onde eu disse!

O cocheiro bateu. E Luísa, sacudida por uma irritabilidade febril, insultava o Conselheiro, o estafermo, o imbecil! Maldizia a vida que lhos fizera conhecer, a ele e a todos os amigos da casa! Vinha-lhe uma vontade acre de mandar o casamento ao diabo, de fazer o que lhe viesse à cabeça!…

À porta não tinha troco para o cocheiro. - Espere! - disse, subindo furiosa. - Eu lhe mandarei pagar!

"Que bicha!, pensou o cocheiro.

Foi Joana que veio abrir; e quase recuou, vendo-a tão vermelha, tão excitada.

Luísa foi direita ao quarto: o cuco cantava três horas. Estava tudo desarrumado; vasos de plantas no chão, o toucador coberto com um lençol velho, roupa suja pelas cadeiras. E Juliana, com um lenço amarrado na cabeça, varria tranquilamente, cantarolando.

– Então você ainda não arrumou o quarto! - gritou Luísa.

Juliana estremeceu àquela cólera inesperada.

– Estava agora, minha senhora!

– Que estava agora vejo eu! - rompeu Luísa. - São três horas da tarde e ainda o quarto neste estado!

Tinha atirado o chapéu, a sombrinha.

– Como a senhora costuma vir sempre mais tarde… - disse Juliana. E seus beiços faziam-se brancos.

– Que lhe importa a que horas eu venho? Que tem você com isso? A sua obrigação é arrumar logo que eu me levante. E não querendo, rua, fazem-se lhe as contas!

Juliana fez-se escarlate e cravando em Luísa os olhos injetados:

– Olhe, sabe que mais? Não estou para a aturar! E arremessou violentamente a vassoura.

– Saia! - berrou Luísa. - Saia imediatamente! Nem mais um momento em casa!

Juliana pôs-se diante dela, e com palmadas convulsivas no peito a voz rouca:

– Hei de sair se eu quiser! Se eu quiser!

– Joana! - bradou Luísa.

Queria chamar a cozinheira, um homem, um polícia, alguém! Mas Juliana descomposta, com o punho no ar, toda a tremer:

– A senhora não me faça sair de mim! A senhora não me faça perder a cabeça! - E com a voz estrangulada através dos dentes cerrados: - Olhe que nem todos os papéis foram pra o lixo!

Luísa recuou, gritou:

– Que diz você?

– Que as cartas que a senhora escreve aos seus amantes, tenho-as eu aqui! E bateu na algibeira, ferozmente.

Luísa fitou-a um momento com os olhos desvairados e caiu no chão, junto à causeuse, desmaiada.

CAPÍTULO VIII

A primeira impressão, mal acordada, de Luísa foi que duas figuras, que não conhecia, estavam debruçadas sobre ela. Uma, a mais forte, afastou-se; o som frio de um frasco de vidro, pousado sobre o mármore do toucador, despertou-a. Sentiu então uma voz dizer abafadamente:

– Está muito melhor. Mas deu-lhe de repente, Sra. Juliana?

– De repente.

– Eu vi-a entrar tão afogueada…

Passos sutis pisaram o tapete; a voz de Joana perguntou-lhe junto do rosto:

– Está melhor, minha senhora?

Abriu os olhos; a percepção nítida das coisas foi-lhe voltando; estava estendida na causeuse; tinham-lhe desapertado o vestido, e havia no quarto um forte cheiro de vinagre. Ergueu-se sobre o cotovelo, devagar, com um olhar errante, vago:

– E a outra?…

– A Sra. Juliana? Foi-se deitar. Também se não achava bem. Foi de ver a senhora, coitada… Está melhorzinha?

Sentou-se. Sentia uma fadiga em todo o corpo; tudo no quarto lhe parecia oscilar brandamente:

– Pode ir, Joana, pode ir – disse.

– A senhora não precisa mais nada? Talvez um caldinho lhe fizesse bem…

Luísa, só, pôs-se a olhar em roda, espantada. Estava já tudo arrumado, as janelas cerradas. Uma luva ficara caída no chão; ergueu-se, ainda trôpega; foi apanhá-la; esteve a esticar-lhe os dedos maquinalmente, como sonâmbula, pô-la na gaveta do toucador. Alisou o cabelo; achava-se mudada, com outra expressão, como se fosse outra; e o silêncio do quarto impressionava-a, como extraordinário.

– Minha senhora – disse a voz tímida de Joana.

– Que é?

– É o cocheiro.

Luísa voltou-se, sem compreender:

– Que cocheiro?

– Um cocheiro; diz que a senhora que não tinha troco, que o mandou esperar…

– Ah!

E como a uma luz de gás que salta subitamente e alumia uma decoração, viu, num relance, toda a sua desgraça.

Ficou tão trêmula que mal podia abrir a gavetinha da cômoda:

Tinha-me esquecido, tinha-me esquecido… - balbuciava. Deu o dinheiro a Joana; e vindo cair sobre a causeuse:

– Estou perdida! - murmurou, apertando as mãos na cabeça.

Tudo descoberto! E representaram-se-lhe logo no espírito, com a intensidade de desenhos negros sobre um muro branco, o furor de Jorge, o espanto dos seus amigos, a indignação de uns, o escárnio dos outros; e estas imagens caindo com ruído na sua alma, como combustíveis numa fogueira, ateavam-lhe desesperadamente o terror.

Que lhe restava? - Fugir com Basílio!

Aquela ideia, a primeira, a única, apossou-se dela impetuosamente, traspassou-a – como a água de uma inundação que subitamente alaga um campo.

Ele tinha-lhe tantas vezes jurado que seriam tão felizes em Paris, no seu apartamento da Rua Saint Florentin! Pois bem, iria! Não levaria malas; poria no seu pequeno saco de marroquim alguma roupa branca, as joias da mamã… E os criados? A casa? Deixaria uma carta a Sebastião para que viesse, fechasse tudo!… Levaria na viagem o vestido de riscadinho azul – ou o preto! Mais nada. O resto comprá-lo-ia longe, noutras cidades…

– Se a senhora quer vir jantar… - disse Joana à porta do quarto.

Tinha posto um avental branco, e acrescentou:

A Sra. Juliana está deitada, diz que está com a dor, não pode servir à mesa.

– Já vou.

Tomou apenas uma colher de sopa, bebeu um grande gole de água; e erguendo-se:

– Que tem ela?

– Diz que é uma dor muito forte no coração.

Se morresse! Estava salva, ela! Podia ficar, então! E com uma esperança perversa:

– Vá ver, Joana, vá ver como está!

Tinha ouvido de tantas pessoas que morrem de uma dor! Iria logo ao quarto dela rebuscar-lhe a arca, apossar-se da carta! E não teria medo do silêncio da morte, fiem da lividez do cadáver…

– Está mais descansada, minha senhora – veio dizer a Joana – diz que logo que se levanta. Então a senhora não come mais nada? Credo!

– Não.

E entrou para o quarto, pensando: - "De que serve estar a imaginar coisas? Só me resta fugir…

Decidiu-se logo a escrever a Sebastião; mas não pode acertar com outras palavras além do começo, no alto, numa letra muito trêmula: “Meu amigo!”

Para que havia de escrever? Quando ao outro dia ela não voltasse, nem à tarde, nem à noite – as criadas, a outra, a infame! Iriam logo a Sebastião. Era o íntimo da casa. Que espanto o dele! Imaginaria algum acidente, correria à Encarnação, depois à polícia, esperaria numa angústia até de madrugada! Todo o dia seguinte seriam outras esperanças de a ver chegar, decepções aterradas até que telegrafaria a Jorge! E a essa hora decerto, ela, encolhida no canto do vagão, rolaria, ao ruído ofegante da máquina, para um destino novo!…

Mas por que se afligia, por fim? Quantas invejariam a sua desgraça! O que havia de infeliz em abandonar a sua vida estreita entre quatro paredes, passada a examinar róis de cozinha e a fazer croché, e partir com um homem novo e amado, ir para Paris! Para Paris! Viver nas consolações do luxo, em alcovas de seda, com um camarote na Ópera!… Era bem tola em se afligir! Quase fora uma felicidade aquele “desastre”! Sem ele nunca teria tido a coragem de se desembaraçar da sua vida burguesa; mesmo quando um alto desejo a impelisse, haveria sempre uma timidez maior para a reter!

E depois, fugindo, o seu amor tornava-se digno! Seria só de um homem; não teria de amar em casa e amar fora de casa!

Veio-lhe mesmo a ideia de ir ter imediatamente com Basílio, acabar com aquilo por uma vez. Mas era tarde para ir ao hotel; temia as ruas escuras, a noite, e os bêbedos…

Foi logo arranjar o saco de marroquim. Meteu lenços, alguma roupa branca, o estojo das unhas, o rosário que lhe dera Basílio, pós de arroz, algumas joias que tinham pertencido à mamã… Quis levar as cartas de Basílio também… Tinha-as guardadas num cofre de sândalo, no gavetão do guarda-vestidos. Espalhou-as no regaço; abriu uma, de onde caiu uma florzinha seca; outra que tinha, na dobra, a fotografia de Basílio. De repente, pareceu-lhe que não estavam completas! Tinha sete; cinco bilhetes curtos, e duas cartas – a primeira que ele lhe escrevera, tão terna! E a última no dia do arrufo! Contou-as… Faltava, com efeito, a primeira, e dois bilhetes! Tinha-lhas roubado, também!… Ergueu-se lívida. Ah, que infame! Veio-lhe uma raiva de subir ao sótão, lutar com ela, arrancar-lhas, esganá-la!… Que lhe importava, por fim! - E deixou-se cair na causeuse, aniquilada. - Que ela tivesse uma, duas, todas – era a mesma desgraça!

E muito excitada, foi preparar o vestido preto que devia levar, o chapéu, um xale-manta…

O cuco cantou dez horas. Entrou então na alcova; pôs o castiçal sobre a mesinha, ficou a olhar o largo leito com o seu cortinado de fustão branco. Era a última vez que ali dormia! Fora ela que bordara aquela coberta de crochê no primeiro ano de casada; não havia um malha que não correspondesse a uma alegria. Jorge às vezes vinha vê-la trabalhar, e, calado, considerava-a com um sorriso, ou falava-lhe baixo enrolando devagar nos dedos o fio de algodão grosso! Ali dormira com ele três anos: o seu lugar era de lá, do lado da parede… Fora naquela cama que ela estivera doente, com a pneumonia. Durante semanas ele não se deitara – a velá-la, a conchegar-lhe a roupa, a dando-lhe os caldos, os remédios, com toda a sorte de palavras doces que lhe faziam tão bem!… Falava-lhe como a criancinha pequena; dizia-lhe: “Isso vai passar, amanhã estás boa, vamos passear”. Mas o seu olhar ansioso estava marejado de lágrimas! Ou então pedia-lhe: “Melhora, sim? Faze-me a vontade, minha querida, melhora!…” E ela queria tanto melhorar, que sentia como uma ligeira onda de vida que lhe voltava, lhe refrescava o sangue!

Nos primeiros dias da convalescença era ele que a vestia; ajoelhava-se para lhe calçar os sapatos, embrulhava-a no roupão, vinha estendê-la na causeuse, sentava-se ao pé dela a ler-lhe romances, desenhar-lhe paisagens, recortar-lhe soldados de papel. E dependia toda dele; não tinha mais ninguém no mundo para a tratar, para sofrer, chorar por ela – senão ele! Adormecia sempre com as mãos nas suas, porque a doença deixara-lhe um vago medo dos pesadelos da febre; e o pobre Jorge, para a não acordar, ali ficava com a mão presa, horas, sem se mover. Deitava-se vestido num colchãozito ao pé dela. Muitas vezes, acordando de noite, o tinha visto a limpar as lágrimas; de alegria, decerto, porque ela então estava salva! O médico, o bom Dr. Caminha, tinha-o dito: “Está livre de perigo; agora é refazer esse corpinho”. E Jorge, o pobre Jorge, coitado, sem dizer nada, tinha tomado as mãos do velho – tinha-as coberto de beijos!

E agora, quando ele soubesse, quando ele voltasse! Quando ao entrar ali na alcova – visse os dois travesseirinhos, ainda! Ela iria longe, com outro, por caminhos estranhos, ouvindo outra língua. Que horror! E ele ali estaria, naquela casa só, chorando, abraçado a Sebastião. Quantas memórias dela para o torturar! Os seus vestidos, as suas chinelinhas, os seus pentes, toda a casa! Que vida triste, a dele! Dormiria ali só! Já não teria ninguém para o acordar de manhã com um beijinho, passar-lhe o braço pelo pescoço, dizer-lhe: "É tarde, Jorge!" Tudo acabará para ambos. Nunca mais! - Rompeu a chorar, de bruços sobre a cama…

Mas a voz de Juliana falou alto no corredor com Joana. Ergueu-se aterrada. Viria ter com ela, aquela infame? Os passos achinelados afastaram-se devagar, e Joana entrou com o rol e com a lamparina.

– A Sra. Juliana – disse – levantou-se um momento, mas diz que ainda está mal, coitada. Foi-se deitar. A senhora não precisa mais nada?

– Não – disse da alcova.

Despiu-se; e, prostrada, adormeceu profundamente.

Juliana em cima não dormia. A dor passara-lhe – e agitava-se sobre o enxergão, “com o diabo da espertina”! Como tantas outras noites, nas últimas semanas. Porque desde que apanhara a carta no sarcófago vivia numa febre; mas a alegria era tão aguda, a esperança tão larga que a sustentavam, lhe davam saúde! Deus enfim tinha-se lembrado dela! Desde que Basílio começara a vir a casa, tivera logo um palpite, uma coisa que lhe dizia que tinha chegado enfim a sua vez! A primeira satisfação fora naquela noite em que achara, depois de Basílio sair às dez horas, a travessinha de Luísa caída ao pé do sofá. Mas que explosão de felicidade, quando, depois de tanta espionagem, de tanta canseira, apanhou enfim a carta no sarcófago! Correu ao sótão, leu-a avidamente, e quando viu a importância da “coisa” arrasaram-se-lhe os olhos de lágrimas; arremessou a sua alma perversa para as alturas, bradando em si, num triunfo:

– Bendito seja Deus! Bendito seja Deus!

E que havia de fazer aquilo? - foi então a sua inquietação. Ora pensava em a vender a Luísa por uma forte soma… Mas onde tinha ela o dinheiro? Não; o melhor era esperar a volta de Jorge, e com ameaças de a publicar, extorquir-lhe um ror de libras por meio de outra pessoa, já se vê, e ela à capa! E em certos dias em que a figura, os toaletes, as passeatas de Luísa a irritavam mais, vinham-lhe venetas de sair para a rua, chamar os vizinhos, ler o papel, pô-la mais rasa que a lama, vingar-se da cabra!

Foi a tia Vitória que a calmou, e a dirigiu. Disse-lhe logo que para a armadilha ser completa era necessário uma carta do janota. Começara então o lento trabalho de lha apanhar! Fora preciso muita finura, muita chave experimentada, duas feitas por moldes de cera, paciência de gato, habilidades de ratoneiro! Mas pilhou-a, e que carta! Tinha-a lido com a tia Vitória – que rira, rira!… Sobretudo o bilhete em que Basílio lhe dizia: “Hoje não posso ir, mas espero-te amanhã às duas; mando-te essa rosinha, e peço-te que faças o que fizeste à outra, trazê-la no seio, porque é tão bom quando vens assim, sentir-te o peitinho perfumado!…” A tia Vitória, sufocada, a quis mostrar à sua velha amiga, a Pedra, a Pedra gorda, que estava na saleta.

A Pedra torceu-se! Os seus enormes seios, pendentes como odres mal cheios tinham sacudidelas furiosas de hilaridade. E com as mãos nas ilhargas, rubra, roncando, com o seu vozeirão de trombone:

– Essa é das boas, tia Vitória! Essa é de mestre. Não, isso merece ir para os papéis. Ai os bêbedos! Raios do diabo!

A tia Vitória, então, disse muito seriamente a Juliana:

– Bem; agora tens a faca e o queijo! Com isso já podes falar do alto. E esperar a ocasião. Muito bons modos, cara prazenteira, sorrisos a fartar para ela não desconfiar, e o olho alerta. Tens o rato seguro, deixa-o dar ao rabo!

E desde esse dia Juliana saboreava com delícias, com gula, muito consigo – aquele gozo de a ter “na mão”, a Luisinha, a senhora, a patroa, a Piorrinha! Via-a aperaltar-se, ir ao homem, cantarolar, comer bem – e pensava com uma voluptuosidade felina: “Anda, folga, folga, que eu cá ta tenho armada!” Aquilo dava-lhe um orgulho perverso. Sentia-se vagamente senhora da casa. Tinha ali fechada na mão a felicidade, o bom nome, a honra, a paz dos patrões! Que desforra!

E o futuro, estava certo! Aquilo era dinheiro, o pão da velhice. Ah! Tinha-lhe chegado o seu dia! Todos os dias rezava uma salve-rainha dê graças a Nossa Senhora, mãe dos homens!

Mas agora, depois daquela cena com Luísa – não podia ficar de braços cruzados, com as cartas na algibeira. Devia sair de casa, pôr-se em campo, fazer alguma coisa. O quê? A tia Vitória é que havia de dizer…

Logo pela manhã às sete horas, sem tomar o seu café, sem falar a Joana, desceu devagar, saiu.

A tia Vitória não estava em casa. Gente na saleta esperava. O Sr. Gouveia, com a borla do barretinho muito arrebitada, escrevinhava, dobrado, cuspilhando o seu catarro. Juliana deu os bons-dias em redor, e sentou-se a um canto, direita com a sua sombrinha nos joelhos.

Conversava-se; e uma mulher de trinta anos, picada das bexigas, que estava sentada no canapé, depois de ter dado um sorriso a Juliana, continuou, voltada para uma gordita com um xale de quadrados vermelhos:

– Pois não imagina, Sra. Ana, não faz ideia! É uma desgraça! É todas as noites como um carro. As vezes até acordo com o barulho que ele faz a falar só, a tropeçar na escada… Eu, do que tenho mais medo, é que o demônio adormeça com a luz e haja um rogo. Ah! É de todo!

– Quem? - perguntou um rapazola bonito, com uma blusa de trintanário, que falava de pé a um criado alto, de suíças e gravata branca enxovalhada.

– O Cunha, o filho do meu patrão. É uma desgraça!

– Piteireiro, hem? - disse o rapazola, enrolando o cigarro.

– Um horror! Eu pela manhã nem posso entrar no quarto, que é um cheiro. A mãe, coitadinha, chora, rala-se; o rapaz já esteve para ser posto fora do emprego. Ai! Não estou nada contente, nada contente!

– Pois olhe que por lá também há desgosto grande – disse, baixando a voz, a do xale de quadrados.

Os dois homens aproximaram-se.

– O senhor – continuou ela com gestos aterrados – é um desaforo com a cunhada!… A senhora sabe, e aquilo são questões de dia e de noite! As duas irmãs andam numa bulha pegada. O homem toma as dores da rapariga; a mulher põe-se aos gritos… Ai! Aquilo vem a acabar mal!

– E então se a gente tem lá o seu descuido – disse o da gravata branca com indignação – é aqui del-rei, e daqui e dali!

– Lá a sua gente é sossegada, Sr. João – observou a picada das bexigas.

– É boa gente. As raparigas namoradeiras… Proveito das criadas, apanham o seu vestido, a sua placa… Mas os velhotes são uma santa gente, a verdade é a verdade! E come-se bem!

E voltando-se para o trintanário, batendo-lhe no ombro, com uma voz que o admirava e que o invejava:

– Mas isto sim! Isto é que é levá-la! O rapazola sorriu com satisfação:

– Ora! São mais as vozes do que as nozes!

– Vá lá, mostra lá – disse o da gravata branca tocando-lhe com o cotovelo –, mostra lá!

O rapaz fez-se rogado, e depois de gingar da cintura, arregaçando a blusa, tirou do bolso do colete de riscadinho um relógio de ouro.

– Muito bonito! Rica prenda! - disseram as duas mulheres.

– Suor do meu rosto – fez ele, acariciando o queixo.

O da gravata branca indignou-se:

– Ora seu maroto! - E baixo para as raparigas: - Suor do seu rosto, hem! - É o serafim da patroa, uma senhora da alta que aquilo são tudo sedas, muitíssimo boa mulher, um bocado entradota, mas muitíssimo boa mulher; recebe destas lembranças, um relógio de um par de moedas – e ainda fala!

O rapazola disse então, enterrando as mãos na algibeira:

– E se quiser agora, há de largar a corrente!

– Há de lhe custar muito! - exclamou o da gravata branca.

– Uma gente que tem aí pela Baixa correnteza de casas! Metade da Rua dos Retroseiros é dela!

– Mas muito agarrada! - disse o rapazola. E bamboleando o corpo, com o cigarro ao canto da boca: - Estou com ela há dois meses, e ainda se não desabotoou senão com o relógio e três libras em ouro!… Que eu, como quem diz, um dia passo-lhe o pé! - E cofiando o cabelo para a testa: - Não faltam mulheres! E das que têm Dom!

Mas a tia Vitória entrou, muito azafamada, com o xale no braço; e vendo Juliana:

– Olá! Por cá! Tive que dar umas voltas; estou na rua desde as seis. Bons dias, Sra. Teodósia; bons dias, Ana. Viva, temos por cá o alfenim! Entra cá pra dentro, Juliana! Eu já venho, meus pombinhos, é um instante!

Levou-a para o outro quarto, para o lado do saguão:

– E então, que há de novo?

Juliana pôs-se a contar longamente a cena da véspera, o desmaio…

– Pois minha rica – disse a tia Vitória –, o que está feito, está feito; não há tempo a perder; é mãos à obra! Tu vais ao Brito, ao hotel, e entendes-te com ele.

Juliana recusou-se logo; não se atrevia, tinha medo…

A tia Vitória refletiu, coçando o ouvido; foi dentro, cochichou com o tio Gouveia, e voltando, fechando a porta do quarto:

– Arranja-se quem vá. Tens tu as cartas?

Juliana tirou da algibeira uma velha carteirinha de marroquim escarlate. Mas hesitou um momento, olhou a tia Vitória com desconfiança.

– Tens medo de largar os papéis, criatura? - exclamou ofendida a velha. - Arranja-te tu; então arranja-te tu…

Juliana deu-lhas logo. Mas que as guardasse, que tivesse cautela!…

– A pessoa – disse a tia Vitória – vai amanhã à noite falar com o Brito, e pede-lhe um conto de réis!

Juliana teve um deslumbramento. Um conto de réis! A tia Vitória estava a brincar!

– Ora essa! Que pensas tu? Por uma carta, que quase não tinha mal nenhum, pagou uma pessoa que bate aí o Chiado de carruagem – ainda ontem a vi com uma pequerrucha que tem – pagou trezentos mil réis. E em belas notas. Pagou-os o janota, já se sabe; foi o janota que pagou. Se fosse outro, não digo, mas o Brito! É rico, é um mãos-rotas; cai logo…

Juliana, muito branca, agarrou-lhe o braço, trêmula:

– Oh, tia Vitória! Dava-lhe um corte de seda.

– Azul! Até já te digo a cor!

– Mas o Brito é homem muito teso, tia Vitória; se lhe tira as cartas, se lhe faz alguma!

A tia Vitória. fitou-a com desdém:

– Sais-me uma simplória! Imaginas que eu mando lá algum tolo? Nem as cartas vão; o que vai é uma cópia! Olha quem! O melro que lá há de ir!

E depois de refletir um momento:

– Tu vai-te para casa…

– Não, lá isso não volto…

– Também tens razão. Até ver em que param as modas, vem cá dormir. Jantas cá hoje; tenho uma rica pescada…

– Mas não haverá perigo, tia Vitória, se o Brito vai à polícia…

A tia Vitória encolheu os ombros, e impacientada:

– Olha, vai-te, que me estás a enfrenesiar! Polícia! Qual polícia! Essas coisas levam-se lá à polícia… Deixa a coisa comigo! Adeus – e às quatro para jantar, hem!

Juliana saiu como levada pelo ar! Um conto de réis! Era o conto de réis que voltava, o que já um dia entrevira, que lhe fugira, que lhe vinha agora cair na mão, com um tlintlim de libras e um frufru de notas! E o cérebro enchia-se-lhe confusamente de perspectivas diferentes, todas maravilhosas; um mostrador de capelista onde ela venderia! Um marido ao seu lado, às horas da ceia! Pares de botinas das boas, das chiques. Onde poria o dinheiro? No banco? Não; no fundo da arca – para estar mais seguro, mais à mão!

Para passar a sua manhã, comprou uma quarta de rebuçados, e foi-se sentar no Passeio, com a sombrinha aberta, deliciando-se, ruminando já a sua vida rica, julgando-se já senhora; mesmo fez olho a um proprietário pacífico e rubicundo que se afastou escandalizado!

Aquela hora Luísa acordava. E sentando-se bruscamente na cama: - "É hoje!" - foi o seu primeiro pensamento. Um susto, uma tristeza horrível contraíram-lhe o coração. Começou depois a vestir-se, muito nervosa com a ideia de ver Juliana! Estava mesmo imaginando fechar-se, não almoçar, sair pé ante pé às onze horas, ir procurar Basílio ao hotel, quando a voz de Joana disse à porta do quarto:

– A senhora faz favor?

Começou logo a contar, muito espantada, que a Sra. Juliana tinha saído de manhã; ainda não voltara; estava tudo por arrumar…

– Bem, arranje-me o almoço, eu já vou… - Que alívio para ela!

Calculou logo que Juliana deixara a casa. Para quê? Para lhe armar alguma, decerto! O melhor era sair imediatamente… Podia esperar Basílio no Paraíso.

Foi à sala de jantar, bebeu um gole de chá, de pé, à pressa.

– A Sra. Juliana ter-lhe-á dado alguma coisa? - veio dizer Joana assombrada.

Luísa encolheu os ombros; respondeu vagamente:

– Depois se saberá…

Era hora e meia; foi pôr o chapéu. O coração batia-lhe alto, e apesar do terror de ver entrar Juliana, não se decidia a sair; sentou-se mesmo, com o saco de marroquim nos joelhos. “Vamos!”, pensou enfim. - Ergueu-se; mas parecia que alguma coisa de sutil e de forte a prendia, a enleava… Entrou na alcova devagar; o seu roupão estava caído aos pés da cama, as suas chinelinhas sobre o tapete felpudo… - Que desgraça! - disse alto. Veio ao toucador, mexeu nos pentes, abriu as gavetas; de repente entrou na sala, foi ao álbum, tirou a fotografia de Jorge, meteu-a toda trêmula no saco de marroquim, olhou ainda em roda como desvairada, saiu, atirou com a porta, desceu a escada correndo.

À Patriarcal passava um cupê de praça. Tomou-o, mandou-o a ir ao Hotel Central.

O Sr. Brito saíra logo de manhã cedo, disse o porteiro muito azafamado. Decerto algum paquete chegara, porque entravam bagagens, fortes malas cobertas de oleado, caixas de madeira debruadas de ferro; passageiros com ar espantado da chegada, ainda entontecidos do balouço do mar, falavam, chamavam. Aquele movimento animou-a; veio-lhe um desejo de viagens, do ruído noturno das gares à claridade do gás, da agitação alegre das partidas nas manhãs frescas, sobre o tombadilho dos paquetes!

Deu ao cocheiro a adresse do Paraíso. E à maneira que o trem trotava parecia-lhe que toda a sua vida passada, Juliana, a casa, se esbatiam, se dissipavam num horizonte abandonado. A porta de um livreiro julgou entrever Julião; debruçou-se pela portinhola, precipitadamente; não o avistou, teve pena; ia-se sem ver um amigo da casa! Todos agora, Julião, Ernestinho, o Conselheiro, D. Felicidade lhe pareciam adoráveis, com qualidades nobres, que nunca percebera, que repentinamente tomavam um grande encanto. E o pobre Sebastião, tão bom! Nunca mais lhe ouviria tocar a sua malaguenha!

Ao fim da Rua do Ouro o cupê parou num embaraço de carroças, e Luísa viu no passeio ao lado o Castro, o Castro dos óculos, o banqueiro, o que Leopoldina lhe dizia que tinha uma paixão por ela; um rapazito roto ofereceu-lhe cautelas; e o Castro nédio, com os dois polegares nas algibeiras do colete branco, dizia graças ao rapaz, com um desdém ricaço, dardejando olhadelas sobre Luísa, através dos seus óculos de ouro. Ela, pelo canto do olho, observava-o; tinha uma paixão por ela, aquele homem, que horror! Achava-o medonho, com o seu ventre pançudo, a perninha curta. A lembrança de Basílio atravessou-a, a sua linda figura!… - e bateu nos vidros impaciente, com pressa de o ver.

O trem partiu enfim. O Rossio reluzia ao sol; do americano, parado à esquina, gente descia apressada, de calças brancas, vestidos leves, vinda de Belém, de Pedrouços; pregões cantavam. - Todos ali ficavam nas suas famílias, nas suas felicidades; só ela partia!

Na Rua Ocidental, viu vir a D. Camila – uma senhora casada com um velho, ilustre pelos seus amantes. Parecia grávida; e adiantava-se devagar, com a face branca satisfeita, uma lassitude do corpo arredondado, passeando um marmanjozinho de jaqueta cor de pinhão, uma pequerrucha de sainhas tufadas, e adiante uma ama, vestida de lavradeira, empurrava um carrinho de mão onde um bebê se babava. E a Camila, feliz, vinha tranquilamente pela rua expondo as suas fecundidades adúlteras! Era muito festejada; ninguém dizia mal dela; era rica, dava soirées… - “O que é o mundo!” - pensava Luísa.

O trem parou à porta do Paraíso, era meio-dia. A portinha em cima estava fechada: e a patroa apareceu logo, ciciando que sentia muitíssimo, mas só o senhor é que tinha a chavezinha; se a senhora quisesse descansar… Nesse momento outra carruagem chegou, e Basílio apareceu galgando os degraus.

– Até que enfim! - exclamou abrindo a porta. - Por que não vieste ontem?…

– Ah! Se tu soubesses…

E, agarrando-lhe os braços, cravando os olhos nele:

– Basílio, sabes, estou perdida!

– Que há?

Luísa atirara o saco de marroquim para o canapé, e, de um fôlego, contou-lhe a história da carta apanhada nos papéis; as dele roubadas, a cena no quarto…

– O que me resta é fugir. Aqui estou. Leva-me. Tu disseste que podias, tem-no dito muitas vezes. Estou pronta. Trouxe aquele saco, com o necessário, lenço, luvas… hem?

Basílio com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as chaves, seguia atônito os seus gestos, as suas palavras.

– Isso só a ti! - exclamou. - Que doida! Que mulher! E muito excitado: - Isto é lá questão de fugir! Que estás tu a falar em fugir? É uma questão de dinheiro. O que ela quer é dinheiro. É ver quanto quer, e pagar-se-lhe!

– Não, não! - fez Luísa. - Não posso ficar! - Tinha uma aflição na voz. A mulher venderia a carta, mas conservava o segredo; a todo o tempo podia falar, Jorge saber; estava perdida; não tinha coragem de voltar para casa! - Não sintoum momento de descanso, enquanto estiver em Lisboa. Partimos hoje, sim? Se não podes, amanhã. Eu vou para algum hotel, onde ninguém saiba; escondo-me esta noite. Mas, amanhã vamos. Se ele sabe, mata-me, Basílio! Sim, dize que sim!

– Agarrara-se a ele; procurava avidamente com os seus olhos o consentimento dos dele.

Basílio desprendeu-se brandamente:

– Estás doida, Luísa; tu não estás em ti! Pode lá pensar-se em fugir? Era um escândalo atroz; éramos apanhados decerto, com a polícia, com os telégrafos! Impossível! Fugir é bom nos romances! E depois, minha filha, não é um caso para isso! É uma simples questão de dinheiro…

Luísa fazia-se branca, ouvindo-o.

– E além disso – continuou Basílio, muito agitado, pelo quarto – eu não estou preparado, nem tu! Não se foge assim. Ficas desacreditada para toda a vida, sem remédio, Luísa. Uma mulher que foge, deixa de ser a senhora D. Fulana; é a fulana, a que fugiu, a desavergonhada, uma concubina! Eu tenho decerto de ir ao Brasil; onde hás de tu ficar? Queres ir também, um mês num beliche, arriscar-te à febre amarela? E se teu marido nos persegue, se formos detidos na fronteira? Achas bonito voltar entre dois políciais, e ir passar um ano ao Limoeiro? O teu caso é simplicíssimo. Entendes-te com essa criatura; dá-se lhe um par de libras, que é o que ela quer, e ficas em tua casa, sossegada, respeitada como dantes – somente mais acautelada! Aqui está!

Aquelas palavras caíam sobre os planos de Luísa, como machadadas que derrubam árvores. Às vezes a verdade que elas continham atravessava-a irresistivelmente, viva como um relâmpago, desagradável como um gume frio. Mas via naquela recusa uma ingratidão, um abandono. Depois de se ter instalado, pela imaginação, numa segurança feliz, longe, em Paris – parecia-lhe intolerável ter de voltar para casa, de cabeça baixa, sofrer Juliana, esperar a morte; e os contentamentos que entrevira naquele outro destino, agora que lhe fugiam de entre as mãos, pareciam-lhe maravilhosos, quase indispensáveis! E depois de que servia resgatar a carta a dinheiro? A criatura saberia o seu segredo! E a vida seria amarga, tendo sempre em volta de si aquele perigo a rondar!

Ficara calada, como perdida numa reflexão vaga; e de repente erguendo a cabeça, com um olhar brilhante:

– Então, dize!…

– Mas estou-te a dizer, filha…

– Não queres?

– Não! - exclamou Basílio com força. - Se tu estás doida, não estou eu!

– Oh! Pobre de mim, pobre de mim!

Deixou-se cair no sofá, tapou o rosto com as mãos. Soluços baixos sacudiam-lhe o peito.

Basílio sentou-se ao pé dela. Aquelas lágrimas mortificavam-no, impacientavam-no.

– Mas, santo nome de Deus, escuta-me!

Ela voltou para ele os olhos que reluziam sob o pranto:

– Para que dizias então, tantas vezes, que seríamos tão felizes; que se eu quisesse…

Basílio ergueu-se bruscamente:

– Pois tu pensaste em fugir, em te meter comigo num vagão, vir para Paris, viver comigo, ser a minha amante?

– Sai de casa para sempre, aí está o que eu fiz!

– Mas vais voltar para casa! - exclamou ele, quase com cólera. - Por que havias de tu fugir? Por amor? Então devíamos ter partido há um mês; não há razão agora para nos irmos. Para quê, então? Para evitar um escândalo? Com um escândalo maior, não é verdade? Um escândalo irreparável, medonho! Estou-te a falar como um amigo, Luísa! - Tomou-lhe as mãos, com muita ternura: - Tu imaginas que eu não seria feliz em ir viver contigo para Paris? Mas vejo os resultados, tenho outra experiência. O escândalo todo evita-se com umas poucas de libras. Tu imaginas que a mulher vai-se pôr a falar? O seu interesse é safar-se, desaparecer; sabe perfeitamente o que fez; que te roubou; que usou de chaves falsas. A questão é pagar-lhe.

Ela disse, com uma voz lenta:

– E o dinheiro, onde o tenho eu?

– Está claro que o dinheiro tenho-o eu! - E depois de uma pausa: - Não muito, estou mesmo um pouco atrapalhado, mas enfim… - Hesitou, disse: - se a criatura quiser duzentos mil réis, dão-se lhe!

– E se não quiser?

– Que há de ela querer, então? Se rouba a carta é para a vender! Não é para guardar um autógrafo teu!

Vinham-lhe palavras duras; passeava pelo quarto exasperado. Que pretensão querer vir com ele para Paris, embaraçar-lhe para sempre a sua vida! E que despesa tão tola, dar um ror de libras a uma ladra! Depois aquele incidente, a carta de namoro roubada nos papéis sujos, a criada, a chave falsa do gavetão dos vestidos – parecia-lhe soberanamente burguês, um pouco pulha. E parando, para acabar:

– Enfim; oferece-lhe trezentos mil réis, se quiseres. Mas pelo amor de Deus, não faças outra; não estou para pagar as tuas distrações a trezentos mil réis cada uma!

Luísa fez-se lívida, como se ele lhe tivesse cuspido no rosto.

– Se é uma questão de dinheiro, eu o pagarei, Basílio!

Não sabia como. Que lhe importava! Pediria, trabalharia, empenharia… Não o aceitaria dele!

Basílio encolheu os ombros:

– Está-te a dar ares; onde o tens tu?

– Que te importa? - exclamou.

Basílio coçou a cabeça, desesperado. E tomando-lhe as mãos, com uma impaciência reprimida:

– Estamos a dizer tolices, filha, estamos a irritar-nos… Tu não tens dinheiro.

Ela interrompeu-o, agarrou-lhe violentamente o braço;

– Pois sim, mas fala tu a essa mulher, fala-lhe tu, arranja tudo. Eu não a quero tornar a ver. Se a vejo, morro, acredita. Fala-lhe tu!

Basílio recuou vivamente, e batendo com o pé:

– Estás doida, mulher! Se eu lhe falo, então pede tudo, então pede-me a pele! Isso é contigo. Eu dou-te o dinheiro, tu arranja-te!

– Nem isso me fazes?

Basílio não se conteve:

– Não! Com os diabos, não!

– Adeus!

– Tu estás fora de ti, Luísa!

– Não. A culpa é minha – dizia, descendo o véu com as mãos trêmulas eu é que devo arranjar tudo!

E abriu a porta. Basílio correu a ela, prendeu-a por um braço.

– Luísa, Luísa! O que queres tu fazer? Não podemos romper assim! Escuta…

– Fujamos então, salva-me de todo! - gritou ela, abraçando-o ansiosamente.

– Caramba! Se te estou a dizer que não é possível!

Ela atirou com a porta, desceu as escadas correndo. O cupê esperava-a.

– Para o Rossio – disse.

E deitando-se para o canto da carruagem, rompeu a chorar, convulsivamente.

Basílio saiu do Paraíso muito agitado. As pretensões de Luísa, os seus terrores burgueses, a trivialidade reles do caso, irritavam-no tanto, que tinha quase vontade de não voltar ao Paraíso, calar-se, e deixar correr o marfim! Mas tinha pena dela, coitada! E depois, sem a amar, apetecia-a; era tão bem-feita, tão amorosa; as revelações do vício davam-lhe um delírio tão adorável! Um conchegozinho tão picante enquanto estivesse em Lisboa… Maldita complicação! Ao entrar no hotel, disse ao seu criado:

– Quando vier o senhor Visconde Reinaldo, que vá ao meu quarto.

Estava alojado no segundo andar, com janelas para o rio. Bebeu um cálice de conhaque e estirou-se no sofá. Ao pé, na jardineira, tinha o seu buvar com um largo monograma em prata sob a coroa de conde, caixas de charutos, os seus livros – Mademoiseile Giraud, ma femme; La vierge de Mabilie; Ces friponnes!; Mémoires secrètes d'une femme de chambre; Le chien d'arrêt; Manuel du chasseur, números do Fígaro, a fotografia de Luísa, e a fotografia de um cavalo.

E soprando o fumo do charuto, começou a considerar, com horror, a “situação”! Não lhe faltava mais nada senão partir para Paris, com aquele trambolhozinho! Trazer uma pessoa, havia sete anos, a sua vida tão arranjadinha, e patatrás! Embrulhar tudo, porque à menina lhe apanharam a carta de namoro e tem medo do esposo! Ora o descaro! No fim, toda aquela aventura desde o começo fora um erro! Tinha sido uma ideia de burguês inflamado ir desinquietar a prima da Patriarcal. Viera a Lisboa para os seus negócios; era tratá-los, aturar o calor e o boeuf à la mode do Hotel Central, tomar o paquete, e mandar a pátria ao inferno!… Mas não, idiota! Os seus negócios tinham-se concluído – e ele, burro, ficara ali a torrar em Lisboa, a gastar uma fortuna em tipoias para o Largo de Santa Bárbara para quê? Para uma daquelas! Antes ter trazido a Alphonsine!

Que, verdade, verdade, enquanto estivesse em Lisboa o romance era agradável, muito excitante; porque era muito completo! Havia adulteriozinho, o incestozinho. Mas aquele episódio agora estragava tudo! Não, realmente, o mais razoável era safar-se!

A sua fortuna tinha sido feita com negócio de borracha, no alto Paraguai; a grandeza da especulação trouxera a formação de uma companhia, com capitais brasileiros; mas Basílio e alguns engenheiros franceses queriam resgatar as ações brasileiras, que eram um empecilho, formar em Paris uma outra companhia, e dar ao negócio um movimento mais ousado. Basílio partira para Lisboa entender-se com alguns brasileiros, e comprara as ações habilmente.

A prolongação daquele incidente amoroso tornava-se uma perturbação na sua vida prática… E, agora que a aventura tomava um aspecto secante, convinha passar o pé!

A porta abriu-se e o Visconde Reinaldo entrou – afogueado, de lunetas azuis, furioso.

Vinha de Benfica! Morto, absolutamente morto com aquele calor, de um país de negros. Tivera a estúpida ideia de ir visitar uma tia – que o fizera logo membro de uma associação para não sei que diabo de que creche, e que lhe pregara moral! Também, que ideia de colegial – ir visitar a tia! Porque realmente, se havia uma coisa que lhe causasse repugnância, eram as ternuras de família!

– E tu, que queres tu? Eu vou-me meter num banho até ao jantar!

– Sabes o que me sucede? - disse Basílio, erguendo-se.

– O quê?

– Imagina. O caso mais estúpido.

– O marido apanhou-te?

– Não, a criada!

– Shocking! - exclamou Reinaldo com nojo.

Basílio contou miudamente “o caso”. E cruzando os braços diante dele:

– E agora?

– Agora é safar-te!

E levantou-se.

– Onde vais tu?

– Vou ao banho.

Que esperasse, que diabo; queria falar com ele…

– Não posso! - exclamou Reinaldo com um egoísmo frenético. Vem tu cá abaixo! Posso perfeitamente conversar na água!

Saiu, berrando por William, o seu criado inglês.

Quando Basílio desceu aos banhos, Reinaldo estirado com voluptuosidade na tina, de onde saía um forte cheiro de água de Lubin, exclamou, deleitando-se no seu conforto:

– Então cartinha apanhada nos papéis sujos!

– Não, Reinaldo, mas francamente estou embaraçado; que achas tu que eu faça?

– As malas, menino!

E sentado na tina, ensaboando devagar o seu corpo magro:

– Aí está o que é fazer amor às primas da Patriarcal Queimada!

– Oh! - fez Basílio, impaciente.

– Oh, quê? - E, coberto de flocos de espuma, com as mãos apoiadas ao rebordo de mármore da tina: - Pois tu achas isso decente, uma mulher que toma a cozinheira por confidente, que lhe está na mão, que perde a carta nos papéis sujos, que chora, que pede duzentos mil réis, que se quer safar isso é lá amante, isso é lá nada! Uma mulher que, como tu mesmo disseste, usa meias de tear!

– Meu rico, é uma mulher deliciosa!

O outro encolheu os ombros, descrente. Basílio deu logo provas; descreveu belezas do corpo de Luísa; citou episódios lascivos.

O teto e os tabiques envernizados de branco refletiam a luz, com tons macios de leite; a exalação da água tépida aumentava o calor morno; e um cheiro fresco de sabão e água de Lubin adoçava o ar.

– Bem! Estás pelo beiço – resumiu Reinaldo com tédio, estirando-se.

Basílio teve um movimento de ombro, que repelia aquela suposição grotesca.

– Mas dize, então, queres ficar-lhe agarrado às saias ou queres desembaraçar-te dela? Mas a verdade, venha a verdade!

– Eu – disse logo Basílio, chegando-se à tina, baixo – se me pudesse desembaraçar decentemente…

– Oh, desgraçado! Tens uma ocasião divina! Ela saiu como uma bicha, dizes tu. Bem; escreve-lhe uma carta, que vendo que ela deseja romper, não a queres importunar, e partes. Os teus negócios estão concluídos, não é verdade? Escusas de negar; o Lapierre disse-me que sim. Bem, então sê decente; manda fazer as malas, e livra-te da sarna.

E tomando a esponja, deixava cair grandes golpes de água pela cabeça, pelos ombros, soprando, regalado na frescura aromática.

– Mas também – disse Basílio – deixá-la agora naquela atrapalhação com a criada! No fim é minha prima…

Reinaldo agitou os braços, com hilaridade.

– Esse espírito de família é ótimo! Vai lá, idiota; dize-lhe que és obrigado a partir, os teus negócios, etc., e mete-lhe umas poucas de notas na mão.

– É brutal…

– E caro!

Basílio disse então:

– Olha que também é uma dos diabos, a pobre rapariga apanhada pela criada…

Reinaldo estirou-se mais, e disse com júbilo:

– Estão a estas horas a esgadanharem-se uma à outra!

Recostou-se numa beatitude; quis saber as horas; declarou que estava confortável; que se sentia feliz! Contanto que o John se não tivesse esquecido defrapper o champanhe!

Basílio torcia o bigode, calado. Revia a sala de Luísa de repes verde, a figura horrível de Juliana com a sua enorme cuia… Estariam com efeito a ralhar, a descompor-se? Que pulhice que era tudo aquilo! Positivamente devia partir.

– Mas que pretexto lhe hei de eu dar para sair de Lisboa?

– Um telegrama! Não há nada como um telegrama! Telegrafa já ao teu homem em Paris, ao Labachardie, ou Labachardette, ou o que é, que te mande logo este despacho: “Parta, negócios maus, etc.” É o melhor!

– Vou fazê-lo – disse Basílio erguendo-se, muito decidido.

– E partimos amanhã? - gritou Reinaldo.

– Amanhã.

– Por Madri?

– Por Madri.

– Salero! - Pôs-se de pé na tina, entusiasmado, a escorrer, e com movimentos aduncos de magricela saltou para fora, embrulhou-se no roupão turco. O seu criado William entrou logo, sutilmente, ajoelhou-se, tomou-lhe um pé entre as mãos, secou-lho com precauções, pôs-se respeitosamente a calçar-lhe a meia de seda preta com ferradurinhas bordadas.

Na manhã seguinte, um pouco antes do meio-dia, Joana veio bater discretamente à porta do quarto de Luísa, e com a voz baixa – desde o desmaio falava-lhe sempre baixo, como a uma convalescente:

– Está ali o primo da senhora.

Luísa ficou surpreendida. Estava ainda de robe de chambre, e tinha os olhos vermelhos de chorar; pôs num instante um pouco de pó-de-arroz, alisou o cabelo, entrou na sala.

Basílio, vestido de claro, sentara-se melancolicamente no mocho do piano. Trazia um ar grave, e, sem transição, começou a dizer: - que apesar de ela se ter zangado na véspera, ele considerava ainda tudo “como dantes”. Viera porque naquele momento não se podiam separar sem algumas explicações, sobretudo sem resolver definitivamente o caso da carta… E com um gesto triste, como contendo lágrimas:

– Porque eu vejo-me forçado a sair de Lisboa, minha querida!

Luísa, sem olhar para ele, fez um sorriso mudo, muito desdenhoso. Basílio acrescentou logo:

– Por pouco tempo, naturalmente; três semanas ou um mês… Mas enfim tenho de partir… Se fossem só os meus interesses! - Encolheu os ombros com desdém. - Mas são interesses de outros… E aqui está o que eu recebi está manhã.

Estendeu-lhe um telegrama. Ela conservou-o um momento, sem o abrir; a sua mão fazia tremer o papel.

– Lê, peço-te que leias!

– Para quê? - fez ela.

Mas leu baixo: “Venha, graves complicações. Presença absolutamente necessária. Parta já”.

Dobrou o papel, entregou-lho.

– E partes, hem?

– É forçoso.

– Quando?

– Esta noite.

Luísa ergueu-se bruscamente, e estendendo-lhe a mão:

– Bem, adeus.

Basílio murmurou:

– És cruel, Luísa!… Não importa! Em todo o caso há um negócio que é necessário terminar. Falaste à mulher?

– Está tudo arranjado – respondeu ela, franzindo a testa. Basílio tomou-lhe a mão, e quase com solenidade:

– Minha filha, eu sei que és muito orgulhosa, mas peço-te que digas a verdade. Eu não te quero deixar em dificuldades. Falaste-lhe?

Ela retirou a mão, e com uma impaciência crescente:

– Arranjou-se tudo; arranjou-se tudo!…

Basílio parecia muito embaraçado; estava mesmo um pouco pálido: enfim, tirando uma carteira da algibeira, começou:

– Em todo o caso é possível, é natural (nós não sabemos com quem lidamos), é natural que haja outras exigências… - abriu a carteira, tomou um sobrescrito pequenino e cheio.

Luísa seguia, fazendo-se vermelha, os movimentos de Basílio.

– Por isso, para te poderes entender melhor com ela, sempre me parece bom deixar-te algum dinheiro.

– Tu estás doido? - exclamou ela.

– Mas…

– Tu queres-me dar dinheiro? - A sua voz tremia.

– Mas enfim…

– Adeus! - E ia sair da sala, indignada.

– Luísa, pelo amor de Deus! Tu não me compreendeste…

Ela parou; disse precipitadamente, como impaciente por acabar:

– Compreendi, Basílio, obrigada. Mas não, não é necessário. Estou nervosa, é o que é… Não prolonguemos mais isto… Adeus…

– Mas sabes que volto, dentro de três semanas…

– Bem, então nos veremos…

Ele atraiu-a, deu-lhe um beijo na boca, encontrou os seus lábios passivos e inertes.

Aquela frieza irritou-lhe a vaidade. Apertou-a contra o peito; disse-lhe baixo, pondo muita paixão na voz:

– Nem um beijo me queres dar?

Nos olhos de Luísa passou um ligeiro clarão; beijou-o rapidamente, e recuando:

– Adeus.

Basílio esteve um momento a olhá-la; teve como um leve suspiro:

– Adeus! - E da porta, voltando-se, com melancolia: - Escreve-me ao menos. Sabes a minha morada. Rua Saint Florentin, 22.

Luísa chegou-se à janela. Viu-o acender o charuto na rua, falar ao cocheiro, saltar para o cupê, fechar com força a portinhola, sem um olhar para as janelas!

O trem rolou. Era o no 10… Nunca mais a veria! Tinham palpitado no mesmo amor, tinham cometido a mesma culpa. - Ele partia alegre, levando as recordações romanescas da aventura; ela ficava, nas amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo!

Veio-lhe um sentimento pungente de solidão e de abandono. Estava só, e a vida aparecia-lhe como uma vasta planície desconhecida, coberta da densa noite, eriçada de perigos!

Entrou no quarto devagar, foi-se deixar cair no sofá; viu ao pé o saco de marroquim, que preparara na véspera para fugir; abriu-o, pôs-se a tirar lentamente os lenços, uma camisinha bordada – encontrou a fotografia de Jorge! Ficou com ela na mão, contemplando o seu olhar leal, o seu sorriso bom. - Não, não estava no mundo só! Tinha-o a ele! Amava-a aquele; nunca a trairia, nunca a abandonaria! - E colando os beiços ao retrato, umedecendo-o de beijos convulsivos, atirou-se de bruços, lavada em lágrimas dizendo: - Perdoa-me, Jorge, meu Jorge, eu querido Jorge, Jorge da minha alma!

Depois de jantar, Joana veio dizer-lhe timidamente:

– A senhora não lhe parece que seria bom ir saber da Sra. Juliana?

– Mas onde quer você ir saber? - perguntou Luísa.

– Ela, às vezes vai à casa de uma amiga, uma inculcadeira, para os lados do Carmo. Talvez lhe tivesse dado alguma, esteja mal. Mas também não mandar recado desde ontem pela manhã… Coisa assim! Eu podia ir saber…

– Pois bem, vá, vá.

Aquela desaparição brusca inquietava também Luísa. Onde estava? Que fazia? Parecia-lhe que alguma coisa se tramava em segredo, longe dela; que viria de repente estalar-lhe sobre a cabeça, terrivelmente…

Anoiteceu. Acendeu as velas. Tinha um certo medo de estar assim só em casa; e, passeando pelo quarto, pensava que àquela hora Basílio em Santa Apolônia comprava alegremente o seu bilhete, instalava-se no vagão, acendia o charuto, e daí a pouco, a máquina arquejando levá-lo-ia para sempre! Porque não acreditava “na demora de três semanas, um mês”! Ia para sempre, safava-se! E apesar de o detestar sentia que alguma coisa dentro em si se partia com aquela separação, e sangrava dolorosamente!

Eram quase nove horas quando a campainha retiniu com pressa. Julgou que seria Joana de volta; foi abrir com um castiçal – e recuou vendo Juliana, amarela, muito alterada.

– A senhora faz favor de me dar uma palavra?

Entrou no quarto atrás de Luísa, e imediatamente rompeu, gritando, furiosa:

– Então a senhora imagina que isto há de ficar assim? A senhora imagina que por o seu amante se safar, isto há de ficar assim?

– Que é, mulher? - fez Luísa, petrificada.

– Se a senhora pensa, que por o seu amante se safar, isto há de ficar em nada? - berrou.

– Oh, mulher, pelo amor de Deus!…

A sua voz tinha tanta angústia que Juliana calou-se.

Mas depois de um momento, mais baixo:

– A senhora bem sabe que se eu guardei as cartas, para alguma coisa era! Queria pedir ao primo da senhora que me ajudasse! Estou cansada de trabalhar, e quero o meu descanso. Não ia fazer escândalo; o que desejava é que ele me ajudasse… Mandei ao hotel esta tarde… O primo da senhora tinha desarvorado! Tinha ido para o lado dos Olivais, para o inferno! E o criado ia à noite com as malas. Mas a senhora pensa que me logram? - E retomada pela sua cólera, batendo com o punho furiosamente na mesa: - Raios me partam, se não houver uma desgraça nesta casa, que há de ser falada em Portugal!

– Quanto quer você pelas cartas, sua ladra? - disse Luísa, erguendo-se. Direita, diante dela.

Juliana ficou um momento interdita.

– A senhora ou me dá seiscentos mil réis, ou eu não largo os papéis! - respondeu, empertigando-se.

– Seiscentos mil réis! Onde quer você que eu vá buscar seiscentos mil réis?

– Ao inferno! - gritou Juliana. - Ou me dá seiscentos mil réis, ou tão certo como eu estar aqui, o seu marido há de ler as cartas!

Luísa deixou-se cair numa cadeira, aniquilada.

– Que fiz eu para isto, meu Deus? Que fiz para isto?

Juliana plantou-se-lhe diante, muito insolente.

– A senhora diz bem, sou uma ladra, é verdade; apanhei a carta no cisco; tirei as outras do gavetão. É verdade! E foi para isto, para mas pagarem! - E traçando, destraçando o xale, numa excitação frenética: - Não que a minha vez havia de chegar! Tenho sofrido muito, estou farta! Vá buscar o dinheiro onde quiser. Nem cinco réis de menos! Tenho passado anos e anos a ralar-me! Para ganhar meia moeda por mês, estafo-me a trabalhar, de madrugada até a noite, enquanto a senhora está de pânria! É que eu levanto-me às seis horas da manhã – e é logo engraxar, varrer, arrumar, labutar, e a senhora está muito regalada em vale de lençóis, sem cuidados, nem canseiras. Há um mês que me ergo com o dia, para meter em goma, passar, engomar! A senhora suja, suja, quer ir ver quem lhe parece, aparecer-lhe com tafularias por baixo e cá está a negra, com a pontada no coração, a matar-se com o ferro na mão! E a senhora, são passeios, tipoias, boas sedas, tudo o que lhe apetece – e a negra? A negra a esfalfar-se!

Luísa, quebrada, sem força de responder, encolhia-se sob aquela cólera como um pássaro sob um chuveiro. Juliana ia-se exaltando com a mesma violência da sua voz. E as lembranças das fadigas, das humilhações, vinham atear-lhe a raiva, como achas numa fogueira.

– Pois que lhe parece? - exclamava. Não que eu coma os restos e a senhora os bons bocados! Depois de trabalhar todo o dia, se quero uma gota de vinho, quem mo dá? Tenho de o comprar! A senhora já foi ao meu quarto? E uma enxovia! A percevejada é tanta que tenho de dormir quase vestida! E a senhora se sente uma mordedura, tem a negra de desaparafusar a cama, e de a catar frincha por frincha. Uma criada! A criada é o animal. Trabalha se pode, senão rua, para o hospital. Mas chegou-me a minha vez – e dava palmadas no peito, fulgurante de vingança. - Quem manda agora, sou eu!

Luísa soluçava baixo.

– A senhora chora! Também eu tenho chorado muita lágrima! Ai! Eu não lhe quero mal, minha senhora, certamente que não! Que se divirta, que goze, que goze! O que eu quero é o meu dinheiro. O que eu quero é o meu dinheiro aqui escarrado, ou o papel há de ser falado! Ainda este teto me rache, se eu não for mostrar a carta ao seu homem, aos seus amigos, à vizinhança toda, que há de andar arrastada pelas ruas da amargura!

Calou-se, exausta; e com a voz entrecortada de cansaços:

– Mas dê-me a senhora o meu dinheiro, o meu rico dinheiro, e aqui tem os papéis; e o que lá vai, lá vai, e até lhe levo outras. Mas o meu dinheiro para aqui! E também lhe digo, que morta seja eu neste instante com um raio, se depois de eu receber o meu dinheiro esta boca se torna a abrir! - E deu uma palmada na boca.

Luísa erguera-se devagar, muito branca:

– Pois bem – disse, quase num murmúrio – eu lhe arranjarei o dinheiro. Espere uns dias.

Fez-se um silêncio – que depois do ruído parecia muito profundo; e tudo no quarto como que se tornara mais imóvel. Apenas o relógio batia o seu tique-taque, e duas velas sobre o toucador consumindo-se davam uma luz avermelhada, e direita.

Juliana tomou a sombrinha, traçou o xale, e depois de fitar Luísa um momento:

– Bem, minha senhora – disse, muito seca.

Voltou as costas, saiu.

Luísa sentiu-a bater a cancela com força.

– Que expiação, Santo Deus! - exclamou, caindo numa cadeira, banhada de novo em lágrimas.

Eram quase dez horas quando Joana voltou.

– Não pude saber nada, minha senhora; na inculcadeira ninguém sabe dela.

– Bem, traga a lamparina.

E Joana ao despir-se no seu quarto, rosnava consigo:

– A mulher tem arranjo; está metida por aí com algum súcio!

Que noite para Luísa! A cada momento acordava num sobressalto, abria os olhos na penumbra do quarto, e caía-lhe logo na alma, como uma punhalada, aquele cuidado pungente: que havia de fazer? Como havia de arranjar dinheiro? Seiscentos mil réis! As suas joias valiam talvez duzentos mil réis. Mas depois, que diria Jorge? Tinha as pratas… Mas era o mesmo!

A noite estava quente, e na sua inquietação a roupa escorregara; apenas lhe restava o lençol sobre o corpo. As vezes a fadiga readormecia-a de um sono superficial, cortados de sonhos muito vivos. Via montões de libras reluzirem vagamente, maços de notas agitarem-se brandamente no ar. Erguia-se, saltava para as agarrar, mas as libras começavam a rolar, a rolar como infinitas rodinhas sobre um chão liso, e as notas desapareciam voando muito leves com um frêmito de asas irônicas. Ou então era alguém que entrava na sala, curvava-se respeitosamente, e começava a tirar do chapéu, a deixar-lhe cair no regaço libras, moedas de cinco mil réis, peças, muitas, profusamente; não conhecia o homem; tinha um chinó vermelho e uma pera impudente. Seria o diabo? Que lhe importava? Estava rica, estava salva! Punha-se a chamar, a gritar por Juliana, a correr atrás dela, por um corredor que não findava, e que começava a estreitar-se, a estreitar-se, até que era como uma fenda por onde ela se arrastava de esguelha, respirando mal, e apertando sempre contra si o montão de libras que lhe punha frialdades de metal sobre a pele nua do peito. Acordava assustada; e o contraste da sua miséria real com aquelas riquezas do sonho, era como um acréscimo de amargura. Quem lhe poderia valer? - Sebastião! Sebastião era rico, era bom. Mas mandá-lo chamar, e dizer-lhe ela, ela Luísa, mulher de Jorge: - “Empreste-me seiscentos mil réis”. - Para quê, minha senhora?" E podia lá responder: “Para resgatar umas cartas que escrevi ao meu amante”. Era lá possível! Não, estava perdida. Restava-lhe ir para um convento.

A cada momento voltava o travesseirinho que lhe escaldava o rosto; atirou a touca, os seus longos cabelos soltaram-se; prendeu-os ao acaso com um gancho; e de costas, com a cabeça sobre os braços nus, pensava amargamente no romance de todo aquele verão – a chegada de Basílio, o passeio ao Campo Grande, a primeira visita ao Paraíso

Onde iria ele, aquele infame? Dormindo tranquilamente nas almofadas do vagão!

E ela ali, na agonia!

Atirou o lençol; abafava. E descoberta, mal se distinguindo da alvura da roupa, adormeceu, quando a madrugada rompia.

Acordou tarde, sucumbida. Mas logo na sala de jantar a beleza da manhã gloriosa reanimou-a. O sol entrava abundante e radioso pela janela aberta; os canários faziam um concerto; da forja ao pé saía um martelar jovial; e o largo azul vigoroso levantava as almas. - Aquela alegria das coisas deu-lhe como uma coragem inesperada. Não se havia de abandonar a uma desesperança inerte… Que diabo! Devia lutar!

Vieram-lhe esperanças, então. Sebastião era bom; Leopoldina tinha expedientes; havia outras possibilidades, o acaso mesmo; e tudo isto podia, em definitivo, formar seiscentos mil réis, salvá-la! Juliana desapareceria, Jorge voltaria! - E, alvoroçada, via perspectivas de felicidades possíveis reluzirem, no futuro, deliciosamente.

Ao meio-dia veio o criadito de Sebastião; o senhor tinha chegado de Almada; desejava saber como a senhora estava.

Correu ela mesma à porta; que pedia ao Sr. Sebastião, que viesse logo que pudesse!

Acabou-se! Sentia-se resoluta, ia falar a Sebastião… No fim era o que lhe restava: contar ela tudo a Sebastião, ou que a outra contasse tudo a seu marido. Impossível hesitar! E depois podia atenuar, dizer que fora só uma correspondência platônica… A partida de Basílio, além disso, fazia daquele erro um fato passado, quase antigo… E Sebastião era tão amigo dela!

Veio; era uma hora. Luísa que estava no quarto sentiu-o entrar, e só o som dos seus passos grossos no tapete da sala deu-lhe uma timidez, quase um terror. Parecia-lhe agora muito difícil, terrível de dizer… Preparara frases, explicações, uma história de galanteio, de cartas trocadas; e estava com a mão no fecho da porta, a tremer. Tinha medo dele! Ouvia-o passear pela sala; e receando que a impaciência lhe desse mau humor, entrou.

Afigurou-se-lhe mais alto, mais digno; nunca o seu olhar lhe parecera tão reto, e a sua bata tão séria!

– Então que é? Precisa alguma coisa? - perguntou-lhe ele depois das primeiras palavras sobre Almada, sobre o tempo.

Luísa teve uma cobardia indominável, respondeu logo:

– É por causa de Jorge!

– Aposto que não lhe tem escrito?

– Não.

– Esteve muito tempo sem me escrever também. - E rindo:- Mas hoje recebi duas cartas por atacado.

Procurou-as entre outros papéis que tirou da algibeira. Luísa fora sentar-se no sofá; olhava-o com o coração aos pulos, e as suas unhas impacientes raspavam devagarinho o estofo.

– É verdade – dizia Sebastião, revolvendo o maço de papéis – Recebi duas; fala em voltar; diz que está muito secado… - E estendendo uma carta a Luísa: - Pode ver.

Luísa desdobrara-a, e começava a ler; mas Sebastião, estendendo a mão precipitadamente:

– Perdão, não é essa!

– Não, deixe ver…

– Não diz nada, são negócios…

– Não, quero ver!

Sebastião, sentado à beira da cadeira, coçava a barba, olhando-a, muito contrariado. E Luísa de repente, franzindo a testa:

– O quê? - A leitura espalhava-lhe no rosto uma surpresa irritada. - Realmente!…

– São tolices, são tolices! - murmurava Sebastião, muito vermelho.

Luísa pôs-se então a ler alto, devagar:

– Saberás, amigo Sebastião, que fiz aqui uma conquista. Não é o que se pode chamar uma princesa, porque é nem mais nem menos que a mulher do estanqueiro. Parece estar abrasada no mais impuro fogo, por este seu criado. Deus me perdoe, mas desconfio até que me leva apenas um vintém pelos charutos de pataco, fazendo assim ao esposo, o digno Carlos, a dupla partida de lhe arruinar a felicidade e a tenda!

– Que graça! - murmurou Luísa, furiosa.

– Receio muito que se repita comigo o caso bíblico da mulher de Putifar. Acredita que há um certo mérito em lhe resistir, porque a mulher, estanqueira como é, é lindíssima. E tenho medo que suceda algum fracasso à minha pobre virtude…

Luísa interrompeu-se, e olhou Sebastião com um olhar terrível.

– São brincadeiras! - balbuciou ele.

Ela seguiu, lendo:

– Olha, se a Luísa soubesse desta aventura! De resto, o meu sucesso não para aqui: a mulher do delegado faz-me um olho dos diabos! É de Lisboa, de uma gente Gamacho, que parece que mora para Belém, conheces? E dá-se ares de morrer de tédio, na tristeza provinciana da localidade. Deu uma soirée em minha honra, e em minha honra, creio também, decotou-se. Muito bonito colo.

Luísa fez-se escarlate.

– É uma queda do diabo…

– Está doido! - exclamou ela.

– E aqui tens o teu amigo feito um D. Juan do Alentejo, e deixando um rasto de chamas sentimentais por essa província fora. O Pimentel recomenda-se…

Luísa ainda leu baixo algumas linhas, e erguendo-se bruscamente, dando a carta a Sebastião:

– Muito bem, diverte-se! - disse com uma voz sibilante.

– São lá coisas que se tomem a sério! Não deve tomar a sério…

– Eu! - exclamou ela. - Acho muito natural até!

Sentou-se, começou, com volubilidade, a falar de outras coisas, de D. Felicidade, de Julião…

– Trabalha muito agora para o concurso – disse Sebastião. - Quem não tenho visto é o Conselheiro.

– Mas, quem é essa gente Gamacho, de Belém?

Sebastião encolheu os ombros – e com um ar quase repreensivo:

– Ora, realmente tomou a sério…

Luísa interrompeu-o:

– Ah! Sabe? Meu primo Basílio partiu.

Sebastião teve um alvoroço de alegria.

– Sim?

– Foi para Paris; não creio que volte. - E depois de uma pausa, parecendo ter esquecido Jorge, e a carta: - Só em Paris está bem… Estava no ar para partir. - Acrescentou com pancadinhas leves nas pregas do vestido: - Precisava casar, aquele rapaz.

– Para assentar – disse Sebastião.

Mas Luísa não acreditava que um homem que gostava tanto de viagens, de cavalos, de aventuras, pudesse dar um bom marido.

Sebastião era de opinião que às vezes sossegavam, e eram homens de família…

– Têm mais experiência – disse.

– Mas um fundo leviano – observou ela.

E depois destas palavras vagas calaram-se com embaraço.

– Eu, a falar a verdade – disse então Luísa –, estimei que meu primo partisse… Como tinha havido essas tolices na vizinhança… Ultimamente mesmo quase que o não vi. Esteve aí ontem; veio despedir-se, fiquei surpreendida…

Estava tornando impossível a história de um galanteio platônico, cartas trocadas – mas um sentimento mais forte que ela impelia-a a atenuar, distanciar as suas relações com Basílio. Acrescentou mesmo:

– Eu sou amiga dele, mas somos muito diferentes… Basílio é egoísta, pouco afeiçoado… De resto a nossa intimidade nunca foi grande…

Calou-se bruscamente; sentiu que se enterrava.

Sebastião lembrava-se ouvir-lhe dizer que tinham sido criados ambos de pequenos; mas, enfim, aquela maneira de falar do primo, parecia-lhe a prova maior de que não houvera nada. Quase se queria mal pelas dúvidas, que tivera, tão injustas!…

– E volta? - perguntou.

– Não me disse, mas não creio. Em se pilhando em Paris!

E com a ideia da carta, de repente:

– Então Sebastião é o confidente de Jorge?

Ele riu:

– Oh, minha senhora! Pois acredita…

– E a mim quando me escreve, que se aborrece, que está só, que não suporta o Alentejo… - Mas vendo Sebastião olhar o relógio: - O quê, já? É cedo.

Tinha de estar na Baixa antes das três, disse ele.

Luísa quis retê-lo. Não sabia para quê – porque a cada momento sentia a sua resolução diminuir, desaparecer como a água de um rio que se absorve no seu leito. Pôs-se a falar-lhe das obras de Almada.

Sebastião começara-as pensando que duzentos ou trezentos mil réis fariam as restaurações necessárias; mas depois umas coisas tinham trazido outras – e, dizia, está-se me tornando um sorvedouro!

Luísa riu, forçadamente.

– Ora, quando se é proprietário e rico!…

– Isso sim! Parece que não é nada: mas uma pintura numa porta, uma janela nova, uma sala forrada de papel, um soalho, e isto e aquilo, e lá se vão oitocentos mil réis… Enfim!…

Levantou-se, e despedindo-se:

– Eu espero que aquele vadio se não demore muito…

– Se a estanqueira der licença… Ficou a passear na sala, nervosa, com aquela ideia. Deixar-se namorar pela estanqueira, e a mulher do delegado, e as outras!… Decerto, tinha confiança nele, mas os homens!… De repente representou-lhe a estanqueira prendendo-o nos braços detrás do balcão, ou Jorge beijando, nalguma entrevista, de noite, o colo bonito da mulher do delegado!… E tumultuosamente apareceram-lhe todas as razoes que provavam irrecusavelmente a traição de Jorge: estava há dois meses fora! Sentia-se cansado da sua viuvez! Encontrava uma mulher bonita! Tomava aquilo como um prazer passageiro, sem importância!… Que infame! Resolveu escrever-lhe uma carta digna e ofendida, que viesse imediatamente – ou que partia ela – Entrou no quarto, muito excitada. A fotografia de Jorge, que ela tirara na véspera do saco de marroquim, ficara no toucador. Pôs-se a olhá-la: não admirava que o namorassem; era bonito, era amável... Veio-lhe uma onda de ciúme, que lhe obscureceu o olhar; se ele a enganasse, se tivesse a certeza da “mais pequena coisa” - separava-se, recolhia-se a um convento, morria decerto, matava-o!…

– Minha senhora – veio dizer Joana –, é um galego com esta carta. Está à espera da resposta.

Que espanto! Era de Juliana!

Escrita em papel pautado, numa letra medonha, eriçada de erros de ortografia, dizia:

Minha senhora.

Bem sei que fui imprudente, o que a senhora deve atribuir tanto à minha desgraça como à falta de saúde, o que às vezes faz que se tenham gênios repentinos. Mas se a senhora quer que eu volte e faça o serviço como dantes – ao qual creio que a senhora não pode opor-se, terei muito gosto em ser agradável na certeza que nunca mais se falará em tal até que a senhora queira, e cumpra o que prometeu. Prometo fazer o meu serviço, e desejo que a senhora esteja por isto pois que é para bem de todos. Pois que foi gênio e naturalmente todos têm os seus repentes, e com isto não canso mais e sou.

Serva muito obediente a criada

Juliana Couceiro Tavira.

Ficou com a carta na mão, sem resolução. A sua primeira vontade foi dizer - “não!” Tornar a recebê-la, vê-la, com a sua face horrível, a cuia enorme! Saber que ela tinha no bolso a sua carta, a sua desonra, e chamá-la, pedir-lhe água, a lamparina, ser servida por ela! Não! Mas veio-lhe um terror; se recusasse irritava a criatura; Deus sabe o que faria! Estava nas mãos dela; devia passar por tudo. Era o seu castigo… Hesitou ainda um momento:

– Que sim, que venha, é a resposta.

Juliana veio com efeito às oito horas. Subiu pé ante pé para o sótão, pôs o fato de casa e as chinelas, e desceu para o quarto dos engomados, onde Joana sentada num tapete costurava, à luz do petróleo.

Joana, muito curiosa, acabrunhou-a logo de perguntas: onde estivera? O que tinha acontecido? Por que não dera notícias? - Juliana contou que fora a uma visita a uma amiga, à Calçada do Marquês de Abrantes, e que de repente lhe dera um flato, e a dor… Não quis mandar dizer, porque imaginara que poderia vir. Mas qual! Estivera dia e meio de cama…

Quis saber então o que tinha feito a senhora, se saíra, quem estivera…

– A senhora tem andado a modo incomodada – disse Joana.

– É do tempo – observou Juliana. - Tinha trazido a sua costura, e ambas caladas continuaram o serão.

As dez horas Luísa ouviu bater devagarinho à porta do quarto. Era ela, decerto!

– Entre…

A voz de Juliana disse muito naturalmente:

– Está o chá na mesa.

Mas Luísa não se decidia a ir à sala, com medo, horror de a ver! Deu voltas no quarto, demorou-se; foi enfim, toda trêmula. Juliana vinha justamente no corredor; encolheu-se contra a parede, com respeito, disse:

– Quer que vá pôr a lamparina, minha senhora? Luísa fez que sim com a cabeça, sem a olhar.

Quando voltou ao quarto Juliana enchia o jarro; e depois de ter aberto a cama, cerrado as portas, quase em pontas de pés:

– A senhora não precisa mais nada? - perguntou.

– Não.

– Muito boa noite, minha senhora. E não houve outra palavra mais.

- “Parece um sonho!” - pensava Luísa, ao despir-se melancolicamente.

– Esta criatura, com as minhas cartas, instalada em minha casa para me torturar, me roubar!" - Como se achava ela, Luísa, naquela situação? Nem sabia. As coisas tinham vindo tão bruscamente, com a precipitação furiosa de uma borrasca, que estala! Não tivera tempo de raciocinar, de se defender; fora embrulhada; e ali estava, quase sem dar fé, na sua casa sob a dominação da sua criada! Ah! Se tivesse falado a Sebastião! Tinha agora o dinheiro, decerto, notas, ouro… Com que frenesi lho arremessaria, a expulsaria, e a arca, e os trapos, e a cuia!… - Jurou a si própria falar a Sebastião, dizer tudo! Iria mesmo à casa dele, para o impressionar mais!

Daí a pouco, quebrada da agitação do dia, adormecera – e sonhava que um estranho pássaro negro lhe entrara no quarto, fazendo uma ventania, com as suas asas pretas de morcego: era Juliana! Corria aterrada ao escritório, gritando: “Jorge!” Mas não via nem livros, nem estante, nem mesa; havia uma armação reles, de loja de tabaco, e por trás do balcão, Jorge acariciava sobre os joelhos uma bela mulher de formas robustas, em camisa de estopa, que perguntava com uma voz desfalecida de voluptuosidade e os olhos afogados em paixão: - “Brejeiros ou de Xabregas?” - Fugia então de casa indignada, e, através de sucessos confusos, via-se ao lado de Basílio, numa rua sem fim, onde os palácios tinham fachadas de catedrais, e as carruagens rolavam ricamente com uma pompa de cortejo. Contava soluçando a Basílio a traição de Jorge. E Basílio, saltitando em volta dela com requebros de palhaço, repenicava uma viola, e cantava:

– Escrevi uma carta a Cupido
A mandar-lhe perguntar
Se um coração ofendido
Tem obrigação de amar!

– Não tem! - gania a voz de Ernestinho, brandindo triunfante um rolo de papel. - E tudo se obscurecia de repente nos largos voos circulares que fazia Juliana com as suas asas de morcego.

CAPÍTULO IX

Juliana voltara para casa de Luísa por conselhos da tia Vitória.

– Olha, minha rica – tinha-lhe ela dito –, não há que ver, o pássaro fugiu-nos! Suspira, bem podes suspirar que o dinheiro grosso foi-se! Quem podia adivinhar que o homem desarvorava! Não, lá isso podes tirar daí o sentido! Que escusas de esperar nem cheta…

– Também me regalo de mandar as cartas ao marido, tia Vitória!

A velha encolheu os ombros:

– Não lucras nada com isso. Ou que eles se desquitem, ou que ele lhe parta os ossos, ou que a mande para um convento – tu não ganhas nada. E se se acomodarem, mais ficas a chuchar no dedo, porque nem tens a consolação de fazeres a cizânia. E isto é, se as coisas correrem pelo melhor, porque podes muito bem ficar mas é em lençóis de vinagre com alguma carga de pau que eles te mandem dar. - E vendo um gesto espantado de Juliana: - Já não era o primeiro caso, minha rica, já não era o primeiro. Olha que em Lisboa, passa-se muita coisa, e nem tudo vem nos jornais!

Positivamente o que ela tinha a fazer era voltar para a casa. Por que enfim o que restava de tudo aquilo? O medo de D. Luísa; esse é que lá estava sempre a dar-lhe por dentro a cólica; desse é que era necessário tirar partido…

– Tu voltas para lá – dizia – à espera que ela cumpra o que prometeu. Se te dá o dinheiro, bem… Se não, tem-na em todo o caso na mão, estás de dentro da praça, sabes o que se passa, podes lhe apanhar muita coisa…

Mas Juliana hesitava. - Era difícil viverem debaixo das mesmas telhas sem haver uma questão por dá cá aquela palha.

– Não te diz uma palavra, tu verás…

– Mas tenho medo…

– De quê? - exclamava a tia Vitória. Ela não era mulher para a envenenar, não é verdade? Então? Quem a nada se arriscava nada ganhava. - Isto é se queres – acrescentou – senão trata de te arranjar noutra parte, e deita as cartas para o fundo da arca. Que diabo! Tu vais ver, se não te convém, safas-te…

Juliana decidiu ir, a “ver”.

E reconheceu logo, que aquela finória da tia Vitória tinha carradas de razão.

Luísa, com efeito, parecia resignada. Sebastião tinha ido para Almada, outra vez. Mas como estava decidida, apenas ele voltasse, a ir a casa dele uma manhã, atirar-se-lhe aos pés, contar-lhe tudo, tudo, suportava Juliana, refletindo: -“E apenas por dias!” - Por isso não lhe disse uma palavra. Para quê? O que tinha a fazer era pagar-lhe e pô-la fora, não é verdade? Enquanto o não pudesse fazer, era aguentar e calar. Até que Sebastião voltasse…

Entretanto evitava vê-la. Nunca a chamava. Não saía da alcova de manhã, sem a ter sentido fora no quarto encher o banho, sacudir os vestidos. Ia para a sala de jantar com um livro, e nos intervalos não levantava os olhos das páginas. E durante todo o dia conservava0se no quarto com a porta fechada, lendo, costurando, pensando em Jorge – às vezes também em Basílio com ódio, desejando a volta de Sebastião, e preparando a sua história.

Juliana, uma manhã, encontrou Luísa no corredor trazendo para o quarto o regador cheio de água.

– Oh, minha senhora! Por que não chamou? - exclamou, quase escandalizada.

– Não tem dúvida – disse Luísa.

Mas Juliana seguiu-a ao quarto, e cerrando a porta:

– Ó minha senhora! - disse muito ofendida. - Isto assim não pode continuar. A senhora parece que tem medo de me ver, credo! Eu voltei para fazer o meu serviço como dantes… Verdade, verdade, naturalmente, sempre espero que a senhora faça o que prometeu… E lá largar as cartas não largo, sem ter seguro o pão da velhice. Mas o que se passou foi um repente de gênio, e já pedi perdão à senhora. Quero fazer o meu serviço… Agora se a senhora não quer, então saio, e –, acrescentou com uma voz seca – talvez seja pior para todos!…

Luísa, muito perturbada, balbuciou:

– Mas…

– Não, minha senhora – cortou Juliana severamente – aqui a criada sou eu.

E saiu, empertigada.

Tanta audácia aterrou Luísa. Aquela ladra era capaz de tudo!

Então, para a não irritar começou, daí por diante, a chamá-la, a dizer: -“traga isto, traga aquilo” - sem a olhar.

Mas Juliana fazia-se tão serviçal, era tão calada, que Luísa pouco a pouco, dia a dia, com o seu caráter móbil, inconsciente, cheio de deixar-se ir, principiou a perder o sentimento pungente daquela dificuldade. E no fim de três semanas as coisas tinham entrado nos seus eixos – dizia Juliana.

Luísa já gritava por ela do quarto, já a mandava a recados fora; Juliana chegava a ter às vezes migalhas de conversação: - Está um calor de morrer… A lavadeira tarda… - Um dia arriscou esta frase mais íntima: - Encontrei a criada da senhora D. Leopoldina.

Luísa perguntou:

– Ainda está para o Porto?

– Ainda se demora um mês, minha senhora…

De resto havia na casa um aspecto muito tranquilo, e Luísa, depois de tantas agitações, abandonava-se com gozo à satisfação daquele descanso. Ia às vezes ver D. Felicidade à Encarnação, que já se levantava. E esperava sempre Sebastião, mas sem impaciência, quase contente por ver adiado o momento terrível de lhe dizer: “Escrevi a um homem, Sebastião!”

Assim iam passando os dias; estava-se no fim de setembro.

Uma tarde Luísa ficara mais tempo à janela da sala de jantar; deixara cair o livro no regaço, e olhava, sorrindo, um bando de pombas que de algum quintal vizinho viera pousar sobre o tabique de terreno vago. Pensava vagamente em Basílio, no Paraíso… Sentiu passos; era Juliana.

– Que é?

A mulher cerrara a porta, e vindo junto dela, baixo:

– Então a senhora ainda não decidiu nada?

Luísa sentiu como uma pancada no estômago.

– Ainda não pude arranjar nada…

Juliana esteve um momento a olhar para o chão:

– Bem – murmurou, por fim.

E Luísa ouviu-a, no corredor, dizer alto:

– Isto quando o senhor voltar é que são os ajustes de contas!

Quando Jorge voltasse! Imediatamente no seu espírito, que se tinha pouco a pouco serenado, todos os sustos, as angústias estremeceram de novo àquela ameaça – assim uma rajada súbita põe em convulsão um arvoredo. Devia, pois, fazer alguma coisa antes que ele chegasse! Justamente Jorge escrevera-lhe, que não se demoraria, que a avisaria pelo telégrafo… Desejava, agora, que do ministério o mandassem fazer uma viagem mais longe, pela Espanha ou pela África; que alguma catástrofe, sem lhe fazer mal, o retardasse meses!…

Que faria ele, se soubesse? Matá-la-ia? Lembravam-lhe as suas palavras muito sérias, naquela noite, quando Ernestinho contara o final do seu drama… Metê-la-ia numa carruagem, levá-la-ia a um convento? E via a grossa portaria fechar-se com um ruído funerário de ferrolhos, olhos lúgubres estudá-la curiosamente…

O seu terror irraciocinado fizera-lhe mesmo perder a ideia nítida de seu marido; imaginava um outro Jorge sanguinário e vingativo, esquecendo o seu caráter bom, tão pouco melodramático. Um dia foi ao escritório, tomou a caixa das pistolas, fechou-a num baú de roupa velha, e escondeu a chave!…

Uma ideia amparava-a: era que apenas Sebastião viesse de Almada, estava salva; e apesar daquela agonia miúda de todos os momentos, quase receava saber que ele tivesse chegado – tanto a confissão da verdade lhe parecia uma agonia maior! Foi por esse tempo, então, que lhe veio uma lembrança – escrever a Basílio. O terror permanente amolecera-lhe o orgulho, como a lenta infiltração da água faz a uma parede; e todos os dias começou a achar uma razão, mais uma, para se dirigir "àquele infame": fora seu amante, já sabia todo o caso das cartas, era o seu único parente… E não teria de “dizer” a Sebastião! Já às vezes pensara que não aceitar dinheiro de Basílio fora uma “fanfarronada bem tola!” Um dia enfim escreveu-lhe. Era uma carta longa, um pouco confusa, pedia-lhe seiscentos mil réis. Foi ela mesmo levá-la ao correio, sobrecarregando-a de estampilhas.

Nessa tarde, por acaso, Sebastião, que chegara de Almada, veio vê-la. Recebeu-o com alegria, feliz por não ter de lhe contar..

Falou da volta de Jorge; aludiu mesmo ao primo Basílio, à pouca-vergonha da vizinhança…

– Não – disse – é a primeira coisa que hei de contar ao Jorge.

Porque se considerava salva, agora! E todos os dias seguia a carta, no seu caminho para França, como se a sua mesma vida fosse dentro daquele sobrescrito entregue ao acaso dos trens e à confusão das viagens! Chegara a Madri, depois a Barcelona, depois a Paris! Um carteiro corria a entregá-la na Rue Saint Florentin. Basílio abria-a tremendo, enchia um sobrescrito de notas, muitas, que cobria de beijos, e o envelope, trazendo a sua salvação e o seu descanso, começava a rolar para baixo, pela França e pela Navarra, soprando como um monstro e apressando-se como um próprio.

No dia em que a resposta devia chegar, levantou-se mais cedo, agitada, com o ouvido pregado na porta, esperando o toque do carteiro. Via-se já a expulsar Juliana, a soluçar de alegria!… Mas às dez e meia começou a estar nervosa; às onze chamou Joana, que fosse saber se o carteiro passara.

– Diz que sim, minha senhora, que lá passou.

– Canalha! - murmurou, pensando em Basílio.

Talvez, todavia, não tivesse respondido no mesmo dia! Esperou ainda, mas desconsolada, já sem fé. Nada! Nem na outra manhã, nem nas seguintes! O infame!

Veio-lhe então a ideia de loteria – porque insensivelmente a esperança tornara-se-lhe necessária. A primeira vez que saiu comprou umas poucas de cautelas. Apesar de não ser religiosa nem supersticiosa, meteu-as debaixo da peanha de um São Vicente de Paula que tinha sobre a cômoda, na alcova. Não se perdia nada. Examinava-as todos os dias, somava os algarismos a ver se davam “nove, noves fora, nada”, ou um número par – que é de bom agouro! E aquele contato diário com a imagem do santo levando-a a pensar decerto na proteção inesperada do céu, fez uma promessa de cinquenta missas se as cautelas fossem premiadas!…

Saíram brancas – e então desesperou de tudo; abandonou-se a uma inação em que sentia quase uma voluptuosidade, passando dias sem se importar, quase sem se vestir, desejando morrer, devorando nos jornais todos os casos de suicídios, de falências, de desgraças – consolando-se com a ideia de que nem só ela sofria, e que a vida em redor, na cidade, fervilhava de aflições.

Às vezes, de repente, vinha-lhe uma pontada de medo. Decidia-se então de novo a abrir-se com Sebastião; depois pensava que seria melhor escrever-lhe; mas não achava as palavras, não conseguia arranjar uma história racional; vinha-lhe uma cobardia; e recaia na sua inércia, pensando: “amanhã, amanhã…”

Quando, só, no seu quarto, se chegava por acaso à janela, punha-se a imaginar o que diria a vizinhança, quando se soubesse! Condená-la-iam? Lamentá-la-iam? Diriam: - “Que desavergonhada”? Diriam: - “Coitadinha”? E por dentro dê vidraça seguia, com um olhar quase aterrado, as passeatas do Paula pela rua, o embasbacamento obeso da carvoeira, as Azevedos por trás das bambinelas de cassa! Como eles todos gritariam: - “Bem dizíamos nós! Bem dizíamos nós!” Que desgraça! - Ou então via de repente Jorge, terrível, fora de si, com as cartas na mão; e encolhia-se como se lá estivesse sob a cólera dos seus punhos fechados.

Mas o que a torturava mais era a tranquilidade de Juliana – espanejando, cantarolando, servindo-a ao jantar de avental branco. Que tencionava ela? Que preparava ela? As vezes vinha-lhe uma onda de raiva; se fosse forte ou corajosa, decerto atirar-se-lhe ia ao pescoço, para a esganar, arrancar-lhe a carta! Mas pobre dela; era “uma mosquinha”!

Justamente, numa dessas manhãs, Juliana entrou no quarto – com o vestido preto de seda no braço. Estendeu-o na causeuse, e mostrou a Luísa, na saia, ao pé do último folho, um rasgão largo que parecia feito com um prego; vinha saber se a senhora queria que o mandasse à costureira.

Luísa lembrava-se bem; rasgara-o uma manhã no Paraíso a brincar com Basílio!

– Isto é fácil de arranjar – dizia Juliana, passando de leve a mão espalmada sobre a seda, com lentidão de uma carícia.

Luísa examinava-o, hesitante:

– Ele também já não está novo… Olhe, guarde-o pra você!

Juliana estremeceu, fez-se vermelha:

– Oh, minha senhora! - exclamou. - Muito agradecida! É um rico presente. Muito agradecida, minha senhora! Realmente… - E a voz perturbava-se-lhe.

Tomou-o nos braços, com cuidado, correu logo à cozinha. E Luísa, que a seguira pé ante pé, ouviu-a dizer toda excitada:

– É um rico presente, é o que há de melhor. E novo! Uma rica seda! - Fazia arrastar a cauda pelo chão, com um frufru. Sempre o invejara; e tinha-o agora, era o seu vestido de seda! - É de muito boa senhora, Sra. Joana, é de um anjo!

Luísa voltou ao quarto, toda alvoroçada; era como uma pessoa perdida de noite, num descampado – que de repente, ao longe, vê reluzir um clarão de vidraça! Estava salva! Era presenteá-la, era fartá-la! Começou logo a pensar no que lhe podia dar mais, pouco a pouco: o vestido roxo, roupas brancas, o roupão velho, uma pulseira!

Daí a dois dias – era um domingo – recebeu um telegrama de Jorge:

“Parto amanhã do Carregado. Chego pelo comboio do Porto às seis.” Que sobressalto! Voltava, enfim!

Era nova, era amorosa – e no primeiro momento todos os sustos, as inquietações desapareceram sob uma sensação de amor e de desejo, que a inundou. Viria de madrugada, encontrá-la-ia deitada – e já pensava na delícia do seu primeiro beijo!&